3 Erfaringer – sett fra innsiden og utsiden
3.2 Case-beskrivelser
Nas Vorlesungen zur Phänomenologie des inneren Zeitbewusstseins69, Husserl, contra Brentano, procura mostrar que há uma percepção e in- tuição originária do passado, sem a qual uma consciência intuitiva e adequada do tempo não seria possível. Para Brentano, segundo Hus- serl, o passado só aparece sob o modo da imaginação, quer dizer, da re-presentação. Mas, diz Husserl, se a origem do tempo estivesse na 68 Veremos que essa é, com efeito, a atitude geral de Husserl frente ao problema da imaginação, quer
dizer, mostraremos que, a partir de 1904/5 e ao longo de toda sua obra subsequente, Husserl pro- curou sistematicamente interpretar a consciência de imaginação como uma consciência temporal. Por enquanto, porém, restringimo-nos à consideração daquilo que foi “ofi cialmente” admitido por Husserl em seus cursos de Göttingen.
69 HUSSERL, 1928. Vorlesungen zur Phänomenologie des inneren Zeitbewusstseins, ed.Heidegger,
M. Halle, Max Niemeyer, doravante referido aqui apenas como Zeit. Esse texto é a transcrição da quarta e última parte dos cursos de Göttingen, e é imediatamente posterior ao texto Phantasie, que corresponde à terceira parte dos referidos cursos. As outras duas partes restantes desses cursos fo- ram dedicadas ao tema da percepção e, ao que parece, da “atenção”. O fato de Husserl alinhar esses temas nesta ordem (1-percepção, 2-atenção, 3-imaginação e consciência de imagem, 4-lembrança e consciência do tempo) pode também ser considerado como um indício de sua intenção, que carac- teriza a fenomenologia a partir do período de vincular ou resolver os “atos cognitivos básicos” na análise da intuição originária do tempo.
imaginação ou se fosse obra de uma re-presentação, então a represen- tação temporalmente modifi cada, segundo a concepção brentaniana da “associação originária”, agregar-se-ia àquela dada na sensação presen- te e não se distinguiria de qualquer outra representação temporalmen- te modifi cada. Teríamos sempre re-presentações de re-presentações e, dessa maneira, um passado longíncuo não se distinguiria do passado que, imediatamente, agrega-se a cada presente. Quer dizer, se apenas o presente pontual e instantâneo fosse o objeto da intuição originária, então uma consciência de tempo não seria possível, já que tudo aqui- lo que não fosse presente nesse sentido não seria designado como pas- sado, mas, sim, seria indiferente a esse presente, de modo que toda a esfera do não-presente estaria, por assim dizer, à igual distância desse presente, e, nesse caso, uma lembrança “antiga” não se distinguiria de uma lembrança “recente”. É preciso portanto, diz Husserl, que haja uma intuição originária do passado. Ora, diz ele, pertence à essência da in- tuição do tempo ser consciência não só do presente instantâneo, mas também do recém-passado, da retenção do presente que acaba de deixar de ser presente. No interior mesmo dessa intuição originária do tempo, o “recém-passado”, diz Husserl, distingue-se do presente e distingue-se mesmo como propriamente passado. O som recém-passado não é um som presente mais enfraquecido, nem é a ressonância presente de um som. Ele, diz Husserl, não é presente de forma alguma, ele é exatamente passado e como tal é apreendido, mas de forma originária, de forma tão originária quanto é originária a apreensão de um som presente, quer dizer, ele é apreendido como Gegenwärtigung e não como re-presenta- ção. Assim, na medida em que há uma percepção do recém-passado, o termo “percepção” já não signifi ca apenas a “apreensão de um presente temporal instantâneo”, e, na medida em que entendermos por “percep- ção” o ato originário de constituição do objeto, então, diz Husserl, o recém-passado deve ser considerado como objeto de percepção, pois, na retenção, na lembrança primária, na apreensão do recém-passado, o pas- sado é dado “em pessoa”, somente aí podemos, pela primeira vez, ver, ou aceder à consciência do passado, intuí-lo de forma original, isto é, de
um modo presente (gegenwärtig) e, não, re-presente. Desde logo vemos que é preciso distinguir, na contraposição husserliana, entre Gegenwär- tigung e Vergegenwärtigung, o aspecto simples ou estritamente temporal do aspecto de “apreensão originária”: o recém-passado é “presente” no segundo aspecto, mas não no primeiro.
Dessa lembrança primária ou retenção, Husserl distingue a lem- brança secundária ou “reprodução”: ao contrário da primeira e primária, na lembrança secundária o passado não é dado em pessoa, ele é apenas re-presentado; a lembrança secundária re-presenta um “agora” ou um recém-passado que não é dado, que não aparece em pessoa, que não é gegenwärtig em nenhum dos dois aspectos acima mencionados, que só é vergegenwärtig ou re-presente. Ainda, diz Husserl, não se deve con- fundir essa re-presentação característica da lembrança secundária com a simbolização, pois ela re-presenta o passado de forma não simbólica, quer dizer, ela visa diretamente o passado, e não o visa através de uma imagem70 ou de um signo que o substituiria no presente. Mesmo visando o passado de forma não-simbólica, a lembrança secundária, assim como a imaginação, diz Husserl, opõem-se, como re-presentação, à lembrança primária e à percepção, como presentação. A modifi cação que transfor- ma uma percepção, em sentido estrito, numa lembrança primária é, diz Husserl, constituída por uma gradação contínua, ao passo que não há conciliação ou continuidade entre a Gegenwärtigung da percepção e da lembrança primária e a Vergegenwärtigung da imaginação e da lembrança secundária. Ao afastar, assim, do domínio da imaginação a lembrança primária, e com ela a intuição originária do tempo, Husserl pode recusar, de forma defi nitiva, a teoria de Brentano, segundo a qual
(...) a origem da apreensão do tempo encontrar-se-ia no domínio da imaginação (...) A imaginação é a consciência caracterizada como re-presentação. Há, de fato, um tempo re-presentado, porém este reenvia-nos necessariamente a 70 Veremos, mais adiante, quando tratarmos de inserir as conclusões obtidas por Husserl em seus
cursos de Göttingen no conjunto global do desenvolvimento da refl exão husserliana, que, num pe- ríodo anterior a esses cursos, Husserl chegou a admitir uma teoria não só simbólica, mas imagética da lembrança.
um (tempo) dado original, não imaginado, mas, ao contrá- rio, presentado. A re-presentação é o contrário (Gegenteil) dum ato originariamente doador, nenhuma representação pode “surgir” daí. Quer dizer, a imaginação não é uma consciência que possa por, como dado em pessoa, qual- quer objetividade (...) Não dar em pessoa é exatamente a essência da imaginação.71
Qual é a natureza desse “reenviar”, quando se diz que a Vergegenwär- tigung reenvia-nos necessariamente à Gegenwärtigung, e qual é a nature- za de essa relação de “contrariedade” ou de oposição afi rmada existir en- tre ambas? Passagens como essas parecem, quando não elucidadas, dar razão a Sartre quando diz que, para Husserl, a hylé da apreensão imagi- nante é uma impressão sensível renascente. Por outro lado, Husserl afi r- ma que o fato de atribuirmos um caráter “modifi cado” à re-presentação e um caráter não-modifi cado à correspondente presentação não signifi ca que a aparição deva, primeiro, ocorrer de forma não-modifi cada, para só depois então ocorrer a modifi cação que a transforma numa re-presenta- ção72. Vimos que Husserl entende a re-presentação como um modo úl- timo de representação intuitiva, quer dizer, ela não pressupõe qualquer outro modo de representação que lhe seja anterior, e, além disso, vemos Husserl afi rmar73 que, a cada presentação corresponde uma re-presenta- ção na forma de uma contraposição originária. Enquanto tal, presenta- ção e re-presentação seriam distintas apenas na medida em que, na pri- meira, o objeto apresenta-se “em pessoa”, ao passo que, na segunda, isso não ocorre. Mas, conforme já vimos, essa apreensão re-presentativa do objeto como não-dado em pessoa deve ser distinguida, por outro lado, da apreensão simbólica. E agora vemos que o termo “em pessoa” com- porta, também, dois aspectos: no primeiro, “em pessoa” contrapõe-se a “simbolicamente re-presentado”, ou seja, uma aparição em pessoa vale por si mesma e não como substituta de algo outro. No segundo aspecto, “em pessoa” contrapõe-se a “não-originariamente dado”. É assim que 71 HUSSERL. Zeit, 1928, p.404.
72 HUSSERL. Phantasie, 1980, p.106. 73 HUSSERL. Zeit, 1928, p.452 ss.
a imaginação simples, não dotada de função imagética, será concebida por Husserl como uma aparição “em pessoa” do objeto, mas isso apenas conforme ao primeiro desses aspectos, e não conforme ao segundo, quer dizer, embora valha por si mesmo, o objeto imaginário não é origina- riamente dado, conforme diz Husserl na passagem anterior, mas, agora se pergunta: o que é essa Vergegenwärtigung não-simbólica cujo objeto
não é originariamente dado? Seria possível caracterizá-la de forma po- sitiva? Seria ela apenas uma cópia ou reprodução da Gegenwärtigung direta e originariamente dada ou, ao contrário, ambas constituiriam um par igualmente originário, mas onde uma deveria ser dita “mais originá- ria” que a outra, onde uma deveria ser dita originária “à sua maneira”? E quais relações mantêm, enquanto Vergegenwärtigungen, imaginação e lembrança secundária?
Todas essas perguntas que procuraremos responder na sequência indicam de forma bastante clara que, se bem que Husserl tenha tentado, como mostramos, promover nos cursos de Göttingen uma reviravolta em sua teoria da imaginação, essa reviravolta não pôde ser completada, pois, se na Phantasie, que corresponde à terceira parte desses cursos, Husserl, iniciando a reviravolta, retira a imaginação do domínio das Ver- gegenwärtigungen simbólicas e, particularmente, das Vergegenwärtigun- gen imagéticas, no Zeit, que corresponde à quarta e última parte daque- les cursos, ele não chega explicitamente a fornecer uma caracterização positiva dessas Vergegenwärtigungen não-simbólicas, e não chega, mais precisamente, a estabelecer uma relação entre as Vergegenwärtigungen de imaginação e de lembrança secundária, ou melhor, não chega a pro- mover explicitamente uma identifi cação entre ambas. Se, na Phantasie, a imaginação acabou sendo caracterizada como a re-presentação direta de algo não-presente, esse caráter de “não-presente” do objeto da repre- sentação imaginária só pôde, no Zeit, ser caracterizado como a contra- partida do presente temporal originário (o que inclui o recém-passado) da Gegenwärtigung, quer dizer, só pôde ser caracterizado de forma ainda negativa e, se a reviravolta estabelece que a imaginação não se efetua numa consciência de imagem, que não se constitui na imaginação uma imagem-objeto, e que a imaginação não é um meio indireto ou simbólico de representação, ela, por outro lado, não chega a completar-se, dado que, para tal, seria necessário apontar para o tipo de consciência em que se dá a imaginação, e para o que é que se constitui na imaginação, enten- dida como uma forma de representação direta. Percebe-se, assim, niti- damente, que a reviravolta tentado por Husserl nos cursos de Göttingen
visava vincular a imaginação a uma consciência estritamente temporal. Acreditamos ter descrito acuradamente o modo como se desenvol- veu a refl exão husserliana acerca da imaginação e ter demonstrado que a desvinculação, que ela promove, entre imaginação e consciência de ima- gem, desvinculação esta na qual reconhecemos a causa da caracterização negativa da imaginação, deveu-se a sua concepção a respeito do caráter originário da temporalidade da consciência. Vimos que, apesar de uma certa hesitação, Husserl pretendia estabelecer a Vergegenwärtigung ima- ginária como re-presentando, não no modo da imagem, mas no modo da lembrança. Quer dizer, Husserl procurou pensar essa Vergegenwärtigung como mantendo uma relação de homologia apenas temporal para com sua contrapartida Gegenwärtigung. Agora, como continuar tematizando em Husserl isso que, não só para ele, mas para toda a concepção contem- porânea da imaginação, é algo considerado como “evidente”, a saber, a proposição segundo a qual as representações da consciência são ordena- das apenas temporal, mas não espacialmente? Não é à toa que, a respeito desse caráter originário da temporalidade, Husserl, em Experiência e Juízo, invoca o nome de Kant
Compreendemos agora a verdade intrínseca da proposição de Kant: o tempo é a forma da sensibilidade (...) Antes de toda questão concernente à realidade objetiva, antes de saber o que dá a certas aparições, aos objetos intencio- nais que se dão nas experiências intuitivas, o privilégio em nome do qual nós lhes atribuímos os predicados de objetos “verdadeiros” ou “reais”, encontra-se o fato da propriedade essencial de todas “aparições”, tanto as verdadeiras como aquelas (imaginárias) que se revelam um puro nada, de serem doadoras de tempo.74
De fato, será a partir da consideração da doutrina de Kant e das concepções clássicas da imaginação que poderemos avaliar aquela pro- posição, proposição que, conforme demonstramos anteriormente, cons- titui a razão última da desvinculação entre imaginação e consciência de imagem e da consequente caracterização negativa da imaginação. 74 HUSSERL, 1970, p.196