Husserl começa por afi rmar sua intenção de, aqui, efetuar uma “fenomenologia da imaginação” e, como usualmente ocorre quando se trata da análise fenomenológica de qualquer tipo de vivência, ele procu- ra, de início, afastar todo tipo de consideração de caráter transcendente que pudesse agregar-se ao fenômeno a ser analisado. É assim que, ao analisar o emprego do conceito de imaginação na linguagem comum, Husserl procede ou executa um primeiro, e inesperado, ordenamento deste: após notar que tal conceito não designa, na linguagem comum, apenas o voluntário forjar de uma imagem mental, mas designa também as alucinações e aparições oníricas e, após notar também que, por outro lado, na linguagem comum o conceito de imaginação não designa as lembranças e expectativas e, após notar, ainda, que essa classifi cação ou orientação no emprego desse conceito na linguagem comum é baseado em considerações a respeito do caráter de irrealidade das primeiras (alu- cinação...) enquanto contraposto ao caráter de realidade destas últimas (lembranças...), Husserl afi rma que essa orientação e classifi cação do conceito de imaginação na linguagem comum não são fenomenologi- camente signifi cativas. Quer dizer, afastado todo tipo de consideração de caráter transcendente, as alucinações, os sonhos, etc. apresentam- se como objetos de uma apreensão, diz Husserl, não imaginária, mas, sim, perceptiva46. Husserl procura determinar um conceito uniforme de imaginação que, como simples “representar-se alguma coisa”, deve ser contrastada às representações perceptivas. Estas, diz Husserl, já foram anteriormente caracterizadas como designando toda aquela esfera dos fenômenos do “aparecer presente (gegenwärtig) em pessoa”, o que in- clui as alucinações, sonhos, etc.47. Por outro lado, o modo de apreensão essencialmente próprio às representações imaginárias será, ao contrário, concebido por Husserl como o modo de apreensão no qual
46 HUSSERL, Phantasie, 1980, p.5. Isso não quer dizer que estejam afastados todos os tipos de
consideração a respeito do caráter de “realidade” do objeto da aparição. Mas tratar-se-á, nesse caso, conforme veremos, de um caráter interno, não-transcendente, ao fenômeno mesmo.
(...) o objeto neste caso aparece em pessoa, é verdade, como sendo exatamente o que ali aparece, mas ele não aparece como presente (gegenwärtig), ele é apenas re-presentado (vergegenwärtigt), é como se ele estivesse ali, mas apenas como se ele nos aparece em imagem (Bild).48 (Grifo nosso) Aqui temos a outra dupla de conceitos, a qual aludíamos há pouco, que é necessário distinguir49. Todo mundo sabe, diz Husserl, o que signi- fi ca re-presentar-se um objeto, deixá-lo pairar e mostrá-lo numa imagem interna, e já no uso da expressão paralela einbilden encontra-se, segundo Husserl, a confi rmação de que tais representações imaginárias só são possíveis sob a condição de haver um tipo de apreensão que re-presente imageticamente seu objeto. Note-se que, aqui, o re-presentar próprio à imagem imaginária é ainda pensado por Husserl como o re-presentar próprio à Imagem. É assim que, na sequência, Husserl dedica-se à inves- tigação das representações imagéticas, visando estabelecer uma comuni- dade de essência entre estas e as representações imaginárias.
As representações ou as apreensões de imagem, continua Husserl, não subjazem apenas às representações imaginárias, mas também àque- las representações nas quais um objeto percebido é tido como represen- tando, por semelhança, um outro objeto, da mesma maneira como uma imagem física, um retrato, por exemplo, representa o original. Não se trata, agora, para Husserl, de estabelecer uma analogia apenas exterior entre as representações físico-imagéticas e as representações imaginá- rias, mas, sim, de determinar a consciência imagética fundamental na qual ambos os tipos de representações constituir-se-iam. Nas represen- tações físico-imagéticas, diz Husserl, além da coisa imaginada, visada como re-presentifi cada na imagem (“imagem-tema”), é preciso distin- guir, no interior da própria imagem mesmo, dois tipos de objetos: em 48 HUSSERL, Phantasie, 1980, p.16.
49 Costuma-se converter o termo Vergegenwärtigung, ou por “presentifi cação”, ou por “re-presen-
tação”. Ambas conversões têm seus inconvenientes: “presentifi cação” dá-nos a ideia de um “tornar presente”, mas não faz alusão ao fato de que o que é assim tornado presente é, justamente, algo não-presente. “Re-presentação”, por outro lado, não tem este, mas tem outro inconveniente – ele dá-nos a ideia de uma simples repetição de uma presentação. Não há como remediar essa situação, a não ser reservando-nos o direito de incluir o próprio termo Vergegenwärtigung em nossa linguagem.
primeiro lugar, a imagem como coisa física, como objeto percebido e real, por exemplo, esta tela de linho, recoberta com pigmentos colori- dos, este papel impresso, etc. É dessa “imagem-física” que se pode dizer, por exemplo, que ela está pendurada na parede, que está torta, rasgada, etc. Em segundo lugar, há a imagem como “imagem-objeto”, quer dizer, como aquilo que aparece através de uma certa confi guração de formas e cores, que, como “analogon” da imagem-imaginária, re-presenta a ima- gem-tema. É dessa “imagem-objeto” que se diz que ela é fi el ou infi el, semelhante ou não ao objeto representado. Não se deve, diz Husserl, confundir a imagem-objeto com a imagem-física, já que a primeira não é uma parte ou aspecto da segunda, assim como o são as cores e as linhas. Essas são partes da imagem-física, mas não são a imagem re-presentante propriamente dita. Aquilo que visamos uma vez como uma simples dis- posição de linhas e cores numa superfície bidimensional, visamos outra vez, diz Husserl, num outro modo de apreensão, como uma fi gura tri- dimensional, como a fi gura de uma criança, por exemplo. Comparada agora às representações imaginárias, as representações físico-imagéticas parecem manter com estas, diz Husserl, uma comunidade de essência que não é outra coisa senão a consciência de imagem na qual ambas se realizam. É verdade que a imagem-objeto na representação imaginária (a imagem imaginária ou mental) não é despertada, como ocorre na re- presentação físico-imagética, pela percepção de uma imagem-física, mas, diz Husserl, tampouco um retrato colocado numa gaveta continua ainda a representar alguma coisa. Assim, ao estabelecer essa independência da imagem-objeto em relação à imagem-física, e isso tanto no que diz respeito às representações imaginárias como no que diz respeito às re- presentações físico-imagéticas, Husserl pode expor, de forma absoluta- mente clara, a sua crítica da teoria imanentista das imagens mentais:
A concepção ingênua erra sobretudo ao pensar a imagem mental como um objeto real imanente à mente. Ela pen- sa que a imagem existe na mente exatamente da mesma maneira como uma coisa existe na realidade. Na mente ou, melhor, na consciência, não há, fenomenologicamen-
te falando, nenhuma imagem-coisa. O mesmo ocorre na re-presentação físico-imagética (...) Em ambos os casos as imagens (as imagens-objeto) são, em verdade, nada. Em verdade, a imagem-objeto não existe, mas isto não signifi - ca apenas que ela não possua nenhuma existência fora de minha consciência, mas, sim, signifi ca também que ela não tem existência dentro de minha consciência, signifi ca que ela não tem existência de forma alguma.50
No texto anexo nº 151, datado de 1898, Husserl, da mesma maneira, já apontava que a concepção comum erra ao não distinguir, na repre- sentação físico-imagética, a imagem-objeto da imagem-física, e acaba, assim, sempre que se depara com uma representação imagética que surge na ausência de qualquer imagem-física percebida, transportando essa imagem-física para dentro da consciência. Nota-se, e essa conside- ração é, como veremos, de importância capital para a fenomenologia da imaginação, que a crítica husserliana da teoria imanentista da imagem mental referia-se, antes da reviravolta ocorrida nos cursos de Göttingen, apenas à imagem-física. Para Husserl, nesse período, as representações imaginárias e físico-imagéticas mantêm uma comunidade de essência, ambas perfazem-se numa consciência de imagem, em ambas constitui- se uma imagem-objeto, imagem esta que, em ambas, é independente de qualquer imagem-física percebida. Quer dizer, além de admitir que a representação imaginária comporta uma imagem-objeto, Husserl admi- te também que a imagem-objeto que se constitui na representação físi- co-imagética é da mesma natureza que essa imagem-objeto-imaginária, sendo ambas independentes de qualquer consciência perceptiva.
Continuando a explorar a consciência de imagem entendida como o fundamento das representações tanto imaginárias, como físico-ima- géticas, Husserl constata que uma simples apreensão objetivante não poderia constituir uma imagem, constituiria apenas um objeto simples, tal como ocorre na representação perceptiva. Para que surja uma ima- gem, diz Husserl, é preciso que, para além da apreensão que constitui a 50 HUSSERL, Phantasie, 1980, p.22.
51 Trata-se do texto numerado como tal e anexado ao texto Phantasie und Bildbewusstsein no vol.
imagem-objeto, haja ainda uma outra apreensão que constitua um novo objeto intencional, que constitua a imagem-objeto enquanto re-presen- tante da imagem-sujeito. Ao contrário da apreensão perceptiva, diz Hus- serl, vemos que a apreensão imaginária e a apreensão físico-imagética são fenômenos complexos, já que nessas encontramos duas apreensões edifi cadas uma sobre a outra. A representação imaginária apresenta, as- sim, segundo Husserl, uma mediação no representar, mediação esta que falta à representação perceptiva, e que ela compartilha com a representa- ção físico-imagética. A representação perceptiva representa diretamente seu objeto, e o objeto que aí aparece é exatamente aquilo que é visa- do e tomado por real. Na representação imaginária e na representação físico-imagética, ao contrário, o objeto que aparece, diz Husserl, não é o objeto que, em sentido próprio, é visado e representado. A imagi- nação, segundo pensa Husserl nesse período, representa um objeto ao fazer aparecer um outro objeto, que ela toma por substituto ou, melhor, por imagem do primeiro. Note-se que Husserl, aqui, afi rma de forma inequívoca o caráter indireto das representações imaginárias, identifi ca este ao caráter indireto das representações físico-imagéticas e contrapõe, ambos, ao caráter direto das representações perceptivas. É assim que, na sequência, Husserl procura, devido a esse caráter indireto das represen- tações imaginárias e físico-imagéticas, comparar essas representações a representações simbólicas.
Já conhecemos, diz Husserl, algo análogo a esse caráter indireto na “simbolização”: no emprego normal das palavras como signos, não visa- mos aquilo que aparece de forma sensível, mas, sim, o que é simbolizado através dela, de modo que a palavra é apenas portadora de uma nova apreensão, portadora de uma intenção que a ultrapassa. A distinção en- tre essas duas apreensões, diz Husserl, a que constitui a imagem-objeto e a que constitui a imagem-objeto como re-presentante da imagem-su- jeito, não é uma distinção abstrata, introduzida via refl exão, tal como o é a propalada distinção entre coisa-percebida e coisa-em-si: a consciência ingênua não sabe nada de uma coisa-em-si, mas ela sabe, imediatamen- te, que a aparição de um objeto em imagem, ou na imaginação, não
corresponde à aparição do próprio objeto. Vemos, assim, segundo Hus- serl, que a apreensão que constitui as representações imaginárias e físico -imagéticas distingue-se não só da apreensão perceptiva, mas também da apreensão simbólica: ambas, a imagética (e/ou imaginária) e a simbólica, compartilham a característica de não serem, como a apreensão percep- tiva, apreensões simples e diretas − ambas apontam para, ou referem-se a algo, além de si mesmas. Mas, diz Husserl, nas apreensões imagéti- cas e imaginárias, esse “apontar para algo além” dá-se no interior mes- mo daquilo que aparece, ao passo que, na apreensão simbólica, aquele apontar efetua-se no exterior daquilo que aparece52. As duas apreensões que constituem a consciência imagética, consciência que, por enquan- to, Husserl ainda entende como subjacente também às representações imaginárias, não estão em igualdade no que diz respeito à dependência ou independência recíproca: a apreensão que constitui a imagem-objeto é independente na medida em que pode ser vivida sem a outra, isto é, sem uma função re-presentativa. A apreensão que constitui a imagem -objeto enquanto re-presentante da imagem-sujeito, por outro lado, é dependente, já que a re-presentação da imagem-sujeito não se pode dar na ausência de toda e qualquer imagem-objeto. Ao perguntar-se, porém, sobre o caráter da aparição da imagem-objeto enquanto desprovida da função re-presentante, Husserl, inesperadamente, promove uma revira- volta naquilo que, até aqui, parecia uma identifi cação simples e pacífi ca entre imaginação e consciência de imagem.
52 Não há outro modo, que não este, de transpor a distinção que, no interior do “referir-se a algo de
outro além de si mesmo”, Husserl opera entre, por exemplo, o hingewiesen da imagética imanente e o hinweggewiesen da imagética externa ou simbólica. Mas um bom exemplo nos é fornecido por Husserl mesmo: compare-se, diz ele, uma boa reprodução, num tamanho razoável, de um quadro qualquer à reprodução descolorida e diminuta do mesmo quadro, tal como ocorre com as reprodu- ções que constam de catálogos de exposições de pinturas; no primeiro caso, nós podemos ver, no interior mesmo da reprodução, o quadro original, ao passo que, no segundo caso, a reprodução ser- ve apenas como “signos” a partir dos quais, de forma exterior e simbólica, referimo-nos ao quadro original e isso de uma forma quase signitiva. Husserl admite vários desses fenômenos de transição entre imagética e simbólica propriamente ditas (Phantasie, p.83), mas ele não desenvolve a teoria dessa transição. E, de qualquer modo, ao negar que a imaginação tenha uma função imagética, Husserl, como veremos, afastará a imaginação da função simbólica como tal, seja ela signitiva ou imagética.