SILVA, Ciriane Jane Casagrande da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Colégio de Aplicação [email protected] MACHADO, Cássia Cilene de Almeida Chalá Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Colégio de Aplicação [email protected] FERREIRA, Simone De Mamann Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Colégio de Aplicação [email protected]
Resumo: O artigo evidencia a experiência das autoras no projeto de extensão voltado para estudantes com deficiência
do Ensino Médio de um colégio público de Florianópolis. O objetivo foi promover momentos de escuta/diálogo/ reflexão entre famílias, estudantes e equipe multiprofissional, com encontros e sessões diferenciadas (Orientação Profissional para estudantes). As famílias demostraram certo receio e insegurança frente aos desafios futuros de seus filhos, sobretudo após a conclusão do Ensino Médio.
Palavras-chave: Estudantes com deficiência. Famílias. Ensino Médio. Equipe Multiprofissional. Orientação Profissional.
1 INTRODUÇÃO
Atualmente, a inclusão de estudantes com deficiência nas escolas públicas do Brasil trata-se de uma realidade, a qual merece a atenção de ações em Políticas Públicas e de educadores. O percurso escolar desses estudantes tem início na Educação Infantil e vai até o Ensino Médio (E.M.), e, no prezado momento chegam ao Ensino Superior. Entretanto, as dúvidas e angústias dos estudantes com deficiência do E.M. somada as incertezas e expectativas das famílias, precisam ser pensadas e consideradas.
O projeto de extensão intitulado “Diálogos sobre Orientação Profissional e Mercado de Trabalho para Estudantes com Deficiência e Famílias do Ensino Médio do CA/UFSC” emergiu da real necessidade de estudantes com deficiência e de suas famílias em ter um espaço de escuta/diálogo/reflexão dentro do Colégio de Aplicação como forma de validar seus percursos, dar maior suporte aos desafios do último ano escolar e analisar as perspectivas futuras. Para esse propósito, constituiu-se uma equipe multiprofissional composta por: oito professoras de Educação Especial, uma Psicóloga Escolar, uma Assistente Social, uma Terapeuta Ocupacional, uma Orientadora Educacional, coordenação do Ensino Médio e contou coma a parceria do Laboratório de Informação e Orientação Profissional (LIOP) da UFSC e a contribuição de dois estagiários do curso de Psicologia. A parceria com o LIOP ocorreu a partir de algumas reuniões com a coordenadora do SAPSI - Serviço de Atenção Psicológica, pertencente ao Departamento de Psicologia no Centro de Filosofia e Ciências Humanas da UFSC.
O convite para o projeto de extensão foi estendido a todos/as estudantes com deficiência do E.M. e suas famílias. O contato inicial com as famílias ocorreu por intermédio da Assistente Social, através de um contato telefônico explicando sobre o projeto e marcando a primeira reunião com os pais interessados no projeto. A coordenadora do projeto realizou um encontro com os estudantes com deficiência explicando detalhadamente sobre o projeto, perguntado se tinham interesse em participar, sendo que dois (2) estudantes não manifestaram interesse e três (3) optaram por participar, os quais receberam um bilhete, em que cada família precisava dar ciência e devolver devidamente assinado. Participaram do projeto cinco (5) famílias e três (3) estudantes com deficiência do segundo e terceiro ano do E.M. no período de maio a novembro de 2017.
Todos os encontros foram previamente discutidos e planejados pela equipe do projeto com reuniões quinzenais. A proposta de ação consistia em diálogos acerca dos projetos de vida, acessibilidade ao Ensino Superior e de Mercado de Trabalho para as famílias dos estudantes com deficiência após concluir o E. M, e uma palestra sobre o Exame Nacional do Ensino Médio – ENEM e Vestibular da UFSC. Para os estudantes com deficiência do E.M., além da palestra, ocorreram sessões individualizadas de Orientação Profissional, as quais foram criteriosamente pensadas/ planejadas para o público em questão.
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A metodologia do projeto ocorreu da seguinte forma: a) realizaram-se seis (6) reuniões sendo que duas (2) foram com as famílias e estudantes, as outras quatro (4) reuniões ocorreram somente com as famílias, de modo que os estudantes foram encaminhados para o LIOP. A decisão de fazer reuniões separadas decorreu pelo fato de que algumas famílias demonstraram muitas expectativas perante a tomada de decisão de seus filhos enquanto outras, aparentavam certa desmotivação. Aquelas que opinavam na escolha dos filhos acabavam prejudicando os mesmos, pois não propiciava que conseguissem fazer a própria reflexão/escolha de seus projetos de vida.
A reunião com as famílias objetivou oportunizar diálogos sobre suas angústias, desafios, projetos de vida e uma orientação sobre as inúmeras possibilidades/potencialidades dos estudantes com deficiência no Ensino Superior e Mercado de Trabalho, assim como, explicações pontuais sobre como preencher o formulário de solicitação para recursos de acessibilidade para o vestibular e/ou ENEM.
Os estudantes participaram das duas primeiras reuniões conjuntamente com a família, expuserem suas expectativas, anseios e projetos após concluir o E.M. e posteriormente, passaram a ter sessões individualizadas de Orientação Profissional com o LIOP no SAPSI. b) organizou-se uma palestra na qual as famílias, docentes e todos os estudantes com e sem deficiência foram convidados a participar, com o tema “ENEM e acessibilidade no Ensino Superior”, com palestrantes da Comissão Permanente de Vestibular (COPERVE) e da Coordenadoria de Acessibilidade Educacional (CAE) da UFSC, no segundo semestre de 2017.
2 DESENVOLVIMENTO
A inclusão de estudantes com deficiência no sistema regular de ensino é hoje um dos principais objetivos das políticas públicas educacionais no Brasil. Entre as iniciativas para implementar ações direcionadas a Educação Especial, em 2008 passou a vigorar um documento dentro das Políticas Públicas, o qual norteia a Educação Especial, denominado como Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva. A partir deste marco legal no Brasil, diversos aspectos no âmbito educacional/pedagógico, passaram a ser elencados o que permitiu aos sujeitos que constituem o público-alvo - aqueles com deficiências, altas habilidades/superdotação e Transtorno do Espectro Autista - de Educação Especial, melhores condições de permanência, de ensino e de aprendizagens nas escolas regulares.
Pensar a possibilidade de ingresso dos sujeitos com deficiência, no Ensino Superior exige, antes de tudo, rever pré-conceitos acerca de suas possibilidades. Nesse intuito, torna-se imprescindível a reflexão e compreensão do conceito de inclusão educacional, notadamente a partir do reconhecimento das desigualdades que nos (re)constituem enquanto seres históricos, culturais e sociais, bem como a partir da valorização das diferenças que dão sentido à complexidade dinâmica do ser humano (PIRES, 2006).
A educação inclusiva é antes de tudo uma questão de direitos humanos, já que defende que não se pode segregar a nenhuma pessoa como consequência de sua deficiência, de sua dificuldade de aprendizagem, do seu gênero ou mesmo se esta pertence a uma minoria étnica (seria algo que iria contra os direitos humanos). (SÁNCHEZ, 2005, p. 12). Portanto, a educação inclusiva prima por um ensino adaptado às diferenças e às necessidades individuais, em que os profissionais da educação – especialmente os professores – precisam estar capacitados para atuar de forma competente junto aos estudantes (com e sem deficiência) inseridos nos diferentes níveis e etapas de ensino.
A implantação de uma cultura de educação inclusiva nas escolas e no Ensino Superior tem seus limites e dificuldades, sobretudo pela falta de formação dos professores para atender às especificidades dos estudantes, pela infraestrutura inadequada e pelas péssimas condições materiais para o trabalho pedagógico junto aos estudantes com deficiência (GOFFREDO, 1992; MANZINI, 1999). Esse dado torna-se relevante diante das prioridades de nossos governantes, em que o cenário político requer atenção e mobilização da sociedade civil em prol da exigência de implantação de políticas públicas que garantam os direitos de todos/as (atender àqueles/as que precisam fazer valer seus direitos).
Desse modo, ao entender a importância de investir em ações inclusivas no espaço escolar, buscou-se em 2017 criar e implantar esse projeto de extensão no contexto do Colégio. Mas afinal, por que as ações inclusivas foram dirigidas as famílias e aos estudantes com deficiência do Ensino Médio?
O E.M. nas escolas seja privadas ou públicas tem como um dos seus principais focos em sala de aula, munir
os estudantes principalmente dos terceiros anos, com informações, conteúdos e leituras, visando prepará-los para os processos seletivos de ingresso no Ensino Superior e ENEM. Contudo, os estudantes com deficiência e famílias ficam excluídos desse processo e do Edital, por haver peculiaridades a serem informadas, o que dificulta a acessibilidade do público-alvo da Educação Especial.
Universidade do Oeste de Santa Catarina – 10 a 12 de setembro de 2018 2.12. O candidato que necessitar de condições especiais para a realização das provas deverá solicitá-las no Requerimento de Inscrição e comprovar sua necessidade através de laudo técnico, emitido por profissional da área de saúde, o qual deverá ser anexado ao Requerimento de inscrição dentro do período previsto para realização das inscrições. O laudo será avaliado por equipe multiprofissional, a qual, se necessário, poderá convocar o candidato para entrevista e solicitar o original do(s) laudo(s) encaminhado(s), bem como outros documentos complementares. (UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA, 2017).
Com relação ao Mercado de Trabalho, cabe frisar que uma pessoa com deficiência é totalmente capaz de exercer uma atividade dentro de uma organização, inclusive em condições de obter sucesso profissional como qualquer outra pessoa, independentemente da deficiência que lhe foi diagnosticada. Entretanto, o que se percebe na prática é que mesmo com a lei de cotas - Lei 8.213/91 há barreiras para a inserção de pessoas com deficiência no mercado de trabalho, cujo maior entrave para a inclusão de profissionais com deficiência ainda é cultural, em que as relações interpessoais são calcadas em estereótipos e preconceitos.
Entende-se que é por meio da educação que cada indivíduo se forma e é formado (simultaneamente), na sua relação com as pessoas, com os objetos, com as coisas, isto é, em seu agir com/no mundo (CHARLOT, 2000; FREIRE; SHOR, 1986). Assim, por viver em sociedade constrói sua identidade, sua escala de valores, padrões éticos e morais. A partir dessas referencias, de sua história de vida, de sua ontologia é que se concretiza o seu viver a nível social e educacional.
3 CONCLUSÕES
O presente relato de experiência traz em seu bojo a invisibilidade dos estudantes com deficiência no E.M., notadamente quando se trata de acessibilidade ao Ensino Superior e ao Mercado de Trabalho.
Os resultados do projeto revelam que muitas famílias se sentem desamparadas e inseguras face aos inúmeros desafios enfrentados pelos seus filhos para o ingresso/permanência no Ensino Superior e Mercado de Trabalho.
Assim, o desconhecimento por parte dos estudantes e de suas famílias sobre questões básicas do Vestibular e ENEM comprometem seus desempenhos, como o fato de preencher corretamente o formulário de solicitação para recursos de acessibilidade para o vestibular e/ou ENEM.
Nos testes de Orientação Profissional, os estudantes com deficiência apontaram a necessidade de psicoterapia, de maior aprofundamento sobre cursos e profissões, bem como terem informações sobre o formato e conteúdo da prova do vestibular.
Por fim destacamos que o projeto de extensão possibilitou aos envolvidos, momentos intensos de trocas de experiências e reflexões acerca dos possíveis percursos formativos após a conclusão do E.M., como: o Vestibular - UFSC, o ENEM e o Mercado de Trabalho, sobretudo porque esse público até então, nunca havia recebido um trabalho semelhante.
REFERÊNCIAS
BRASIL. Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva. 2008. Disponível
em: <http://portal.mec.gov.br/seesp/arquivos/pdf/politica.pdf. Acesso em: 04 mar. 2016.