A AD se move em um terreno mais ou menos fluido devido à polissemia de que se investe o termo discurso, seu objeto de investigação. Em primeiro lugar, o discurso não corresponde à noção de fala, uma ocorrência casual, individual, que poderia, grosso modo, se opor à língua, um sistema abstrato, estático, onde tudo se mantém, pois, em AD, a língua não é só mais um sistema entre outros, mas está no mundo, realizando-se, com maneiras de significar, considerando a produção de sentidos ao ser utilizada.
Em segundo lugar, o discurso não deve ser confundido com a mensagem no esquema elementar da comunicação descrita por Jakobson, já que, como o diz Pêcheux (1997, p.82), “não se trata necessariamente de uma transmissão de informação”, pois no funcionamento da linguagem, que põe em relação sujeitos e sentidos afetados pela língua e pela história, tem-se um complexo processo de constituição desses sujeitos e da produção de sentidos.
Foucault (2000, p.124) concebe o discurso como sendo “um conjunto de enunciados que se apóia em um mesmo sistema de formação”, cujos elementos não estão ligados por nenhum princípio de unidade. É, na verdade, uma dispersão. Há, entretanto, regras capazes de reger a formação dos discursos. Estabelecê-las e descrevê-las, seria, pois, papel da AD. Tais regras são chamadas por Foucault de regras de formação e são elas que possibilitam a indicação dos componentes do discurso, que são os objetos, os diferentes tipos de enunciação, os conceitos, os temas e as teorias. Essas regras determinam uma formação discursiva e devem explicitar a maneira como linguagem e ideologia se articulam, afetando-se em sua relação recíproca.
As regras de formação, de acordo com Foucault (2000), são condições de existência (mas também de coexistência, de manutenção, de modificação e de desaparecimento), em uma dada esfera discursiva. Uma formação discursiva, por sua vez, poderia ser definida,
segundo Orlandi (2000), como aquilo que, numa dada formação ideológica, determina o que pode e deve ser dito.
Aquilo que o sujeito diz se inscreve em uma formação discursiva e não em outra, para ter um sentido e não, outro. Assim, Maingueneau (1997, p.14), citando Foucault, diz que formações discursivas são:
Um conjunto de regras anônimas, históricas, sempre determinadas no tempo e no espaço que definiram em uma época dada, e para uma área social, econômica, geográfica ou linguística dada, as condições de exercício da função enunciativa.
Não se pode, no entanto, pensar as formações discursivas como blocos homogêneos funcionando automática e independentemente. Num mesmo discurso, por exemplo, há a possibilidade de se encontrarem várias formações discursivas sendo utilizadas ao mesmo tempo.
Conforme Orlandi (2000, p. 43-44), as formações discursivas podem ser vistas como “regionalizações do interdiscurso, configurações específicas dos discursos em suas relações”. O interdiscurso disponibiliza dizeres, determinando, pelo que já foi dito, “aquilo que constitui uma formação discursiva em relação à outra”.
Para Foucault (2000, p. 28), todo “discurso manifesto” repousa sobre um “já-dito”. E esse “já-dito” não seria simplesmente algo já pronunciado, escrito, mas um “jamais-dito”, um discurso sem corpo, “uma voz tão silenciosa quanto um sopro, uma escrita que não é senão o vazio de seu próprio rastro”.
O discurso manifesto seria “presença repressiva do que ele não diz, e esse não-dito seria um vazio minando, do interior, tudo que se diz”. Daí não ser preciso remeter o discurso à longínqua presença da origem; é preciso tratá-lo no jogo de sua instância.
Os sentidos possíveis em um discurso dependem de relações constituídas nas/pelas formações discursivas e não estão predeterminadas por propriedades da língua. É pela referência à formação discursiva que se podem compreender os diferentes sentidos em um discurso, pois palavras iguais podem significar diferentemente pelo fato de se inscreverem em formações discursivas diferentes.
Em face disso, Orlandi (2000, p. 45) define, em grande parte, o trabalho do analista do discurso quando diz que:
Observando as condições de produção e verificando o funcionamento da memória, ele deve remeter o dizer a uma formação discursiva (e não outra) para compreender o sentido do que ali está dito.
Pêcheux (1997) entende o discurso como um conjunto de enunciados realizados, produzidos a partir de certa posição, sempre pronunciados tendo em vista condições de produção dadas.
Vale aqui, inclusive, assinalar o que se entende por condições de produção. De acordo com Maingueneau (1997, p.53), as condições de produção seriam “o contexto social que envolve um corpus”, isto é, “um conjunto desconexo de fatores entre os quais são selecionados previamente os elementos que permitem descrever uma conjuntura”.
Esses elementos estruturais que produzem as condições de produção de um discurso são a posição dos sujeitos, numa dada situação, e o contexto, a situação no qual aparecem. Eles não são simplesmente justapostos, mas mantêm entre si relações susceptíveis de variar, segundo a natureza dos elementos colocados em jogo.
Enfim, um discurso, de acordo com Pêcheux (1997), deve ser remetido às relações de sentido nas quais é produzido. Assim, tal discurso remete a tal outro, frente ao qual é uma resposta direta ou indireta, ou do qual ele orquestra os termos principais ou anula os argumentos.
Para Foucault (2000), o discurso é espaço em que saber e poder se articulam, pois quem fala, fala de algum lugar, a partir de um direito reconhecido institucionalmente. Esse discurso, que passa por verdadeiro, que veicula saber (o saber institucional) é gerador de poder.
Sendo assim, a produção desse discurso gerador de poder é controlada, selecionada, organizada e distribuída pela ideologia, que tem por função eliminar qualquer ameaça à permanência desse poder.
Segundo Pêcheux (1997, p.166), a modalidade particular do funcionamento de instâncias ideológicas quanto à reprodução consiste no que se convencionou chamar de assujeitamento do sujeito como sujeito ideológico, de tal modo:
Que cada um seja conduzido, sem se dar conta, e tendo a impressão de estar exercendo sua livre vontade, a ocupar o seu lugar em uma outra das duas classes sociais antagonistas do modo de produção (ou naquela categoria, camada ou fração de classe ligada a uma delas).
As formações ideológicas ganham existência nas formações discursivas que, por sua vez, materializam-se no discurso. Há, portanto, numa formação social, tantas formações discursivas quantas forem as formações ideológicas. Dessa forma, como uma formação ideológica impõe o que pensar, uma formação discursiva determina o que dizer.
2.2Texto e discurso: da superfície linguística à construção dos sentidos
Ao longo deste trabalho, vamos falar, algumas vezes, em texto e enunciado. Vale, então, ressaltar quais os papéis assumidos por eles na AD.
Nessa perspectiva teórica, o texto é a unidade que o analista tem diante de si e da qual ele parte; é o material de linguagem simbólico coletado, ou seja, a superfície linguística.