5. Results and analysis
5.3 CAPM with skewness, kurtosis, and an interaction term between them
Bakhtin (2010) concebeu a linguagem como algo integrado à vida humana, que representa uma “plurivalência viva” (BAKHTIN, 2010, p. 104), pois apresenta “tantas significações possíveis quanto contextos possíveis” (BAKHTIN, 2010, p. 107-108). Além disso, é o lugar de manifestação ideológica, ou seja, o universo da produção imaterial humana e produto de interação entre as pessoas. Nesse sentido, “A palavra16 revela-se, no momento de sua expressão, como o produto da interação viva das forças sociais” (BAKHTIN, 2010, p. 66). Assim, a linguagem é considerada também pelo seu ponto de vista ideológico e não apenas linguístico.
16 Na teoria da linguagem bakhtiniana, em alguns momentos o autor utiliza o termo palavra como forma de se
A partir dessa ideia, o autor enfatiza a natureza social da linguagem, tanto em relação ao discurso interior (diálogo interior) quanto ao discurso exterior (diálogo entre os sujeitos). Nessa perspectiva, é possível perceber que para as ações linguísticas são pressupostos sempre interlocutores que se comunicam por um movimento de diálogo. Então, a linguagem constitui-se em fator primordial para a evolução da consciência humana e da formação da subjetividade dos indivíduos.
No entanto, para que isso aconteça, é necessária a interação social, através de enunciações discursivas, de forma dialógica, ou seja, a partir da troca de turnos de fala entre o locutor e o ouvinte. A enunciação é “produto da interação social, quer se trate de um ato de fala determinado pela situação imediata ou pelo contexto mais amplo que constitui o conjunto das condições de vida de uma determinada comunidade lingüística” (BAKHTIN, 2010, p. 124).
Ela se configura, principalmente, pela comunicação verbal. Entendemos, então, que o
enunciado (produto da enunciação) se constitui na esfera que promove a ligação entre a
língua, a vida e a sociedade, situando, dessa forma, o sujeito historicamente. Sobre isso, diz Bakhtin (1997, p. 282): “A língua penetra na vida através dos enunciados concretos que a realizam, e é também através dos enunciados concretos que a vida penetra na língua”. E acrescentamos: o enunciado linguístico é a unidade real de comunicação entre as pessoas, pois a utilização da língua “efetua-se em forma de enunciados (orais e escritos), concretos e únicos, que emanam dos integrantes duma ou doutra esfera de atividade humana” (BAKHTIN, 1997, p. 280).
Em síntese, os enunciados refletem as condições específicas e as finalidades de cada esfera comunicacional, não apenas pelo conteúdo temático expresso e pelo estilo verbal, mas também pela sua construção composicional17. Entretanto, para o autor, é necessário estabelecer algumas fronteiras em relação à ideia de enunciado para que possa ficar clara a distinção dessa categoria de outras unidades, a exemplo da oração. Dessa forma, o autor apresenta como distinção entre essas unidades que a “oração [é] entendida como uma unidade
17 A construção composicional apresentada neste momento surge a partir da concepção de texto para Bakhtin.
Entende-se que essas construções são efetivadas como uma forma de enunciado, que “correspondem a circunstâncias e a temas típicos da comunicação verbal e, por conseguinte, a certos pontos de contato típicos entre as significações da palavra e a realidade concreta” (BAKHTIN, 1997, p. 312). Apenas como exemplo, podemos dizer que textos veiculados em ambientes nas universidades, inclusive os que fazem parte dos meios digitais, tais como artigo, resumo, resenha, paper, monografia etc., representam construções composicionais diferentes, que são determinadas pelo estilo de escrita e portadores textuais.
da língua [...] e o enunciado [é] entendido como uma unidade da comunicação verbal” (BAKHTIN, 1997, p. 295).
Entender a diferença entre enunciado e oração para o filósofo da linguagem é um ação importante no sentido de compreender a essência do enunciado. Isso porque o enunciado, ao permitir uma alternância responsiva, deixa claro que ele se torna uma unidade com totalidade acabada. Assim,
É necessário o acabamento para tornar possível uma reação ao enunciado. Não basta que o enunciado seja inteligível no nível da língua. Uma oração totalmente inteligível e acabada, se for uma oração e não um enunciado – constituído de uma única oração – não poderá suscitar uma reação de resposta: é inteligível, está certo, mas ainda não é um todo. Este todo – indício da totalidade de um enunciado – não se presta a uma definição de ordem gramatical ou pertencente a uma entidade do sentido (BAKHTIN, 1997, p. 299).
Bakhtin (1997) expõe que o acabamento interno ao enunciado é resultante de três fatores que são indissociáveis: 1) o tratamento exaustivo do objetivo do sentido, isto é, o enunciado tematiza seu assunto de forma completa; 2) o intuito, o querer dizer do locutor; 3) as formas típicas de estruturação do gênero do acabamento. Essas características concedem ao enunciado uma significação contextual, fornecendo-lhe completude de significação. Com isso, o enunciado se torna a expressão individualizada do locutor numa situação real de comunicação. Contudo, mesmo apresentando esse caráter individual e irreproduzível, ele se representa como unidades comuns ao gênero ao qual se refere.
Alguns aspectos determinam a composição e o estilo do enunciado. Dentre eles, destacamos a intenção do locutor na esfera dos sentidos e o seu momento expressivo. Nesse sentido, entendemos que alguns recursos expressivos que fazem parte da comunicação, a exemplo da emotividade, expressividade etc., não são inerentes à linguagem, mas são constituídas no processo do uso ativo da língua em enunciados concretos.
A enunciação, portanto, é produto da interação entre os indivíduos organizados socialmente de modo que a palavra é dirigida a um interlocutor real e irá variar em função dele, pois
[...] toda palavra comporta duas faces. Ela é determinada tanto pelo fato de que procede de alguém, como pelo fato de que se dirige para alguém. Ela
constitui justamente o produto da interação do locutor e do ouvinte. Toda palavra serve de expressão a um em relação ao outro. Através da palavra, defino-me em relação ao outro, isto é, em última análise, em relação à coletividade. A palavra é uma espécie de ponte lançada entre mim e os outros. Se ela se apóia sobre mim numa extremidade, na outra apóia-se sobre o meu interlocutor. A palavra é o território comum do locutor e do interlocutor (BAKHTIN, 2010, p. 115).
A interação se dá por meio da língua (sistema comum de referência) e ocorre em um contexto em que todos participem em condições de igualdade. A língua, dessa forma, existe em função do uso que locutores e ouvintes fazem dela em situações de comunicação. É nesse sistema de referência que os interlocutores se referem uns aos outros com seus proferimentos a algo objetivo, normativo ou subjetivo. Assim, os enunciados (compostos por elementos linguísticos) se constituem em unidades reais de comunicação.
Bakhtin (2010) apresenta os estudos de significação da língua em sua época a partir de duas posições: subjetivismo idealista e objetivismo abstrato. A primeira orientação interessa-se pelo ato de fala, de criação individual, como fundamento da língua. Assim, “esclarecer o fenômeno lingüístico significa reduzi-lo a um ato significativo (por vezes mesmo racional) de criação individual” (BAKHTIN, 2010, p. 71). À visto disso, o uso da língua ocorre num determinado momento de enunciação, quando a significação do enunciado se torna “diferente a cada vez, de acordo com a situação” (BAKHTIN, 2010, p. 133), constituindo o sentido individual.
As posições fundamentais do subjetivismo idealista quanto à língua correspondem às seguintes proposições:
1. A língua é uma atividade, um processo criativo ininterrupto de construção (“energia”), que se materializa sob a forma de atos individuais de fala. 2. As leis da criação lingüística são essencialmente as leis da psicologia individual.
3. A criação lingüística é uma criação significativa, análoga à criação artística.
4. A língua, enquanto produto acabado (“ergon”), enquanto sistema estável (léxico, gramática, fonética), apresenta-se como um depósito inerte, tal como a lava fria da criação lingüística, abstratamente construída pelos lingüistas com vistas à sua aquisição prática como instrumento pronto para ser usado (BAKHTIN, 2010, p. 72).
A segunda posição é relacionada ao sistema abstrato, em que importa a relação entre os signos no interior linguístico e, assim, “a significação constitui a expressão da relação do signo, como realidade isolada, com uma outra realidade, por ela substituível, representável,
simbolizável” (BAKHTIN, 2010, p. 52). Com tal característica, o centro organizador de todos os fatos da língua situa-se no próprio sistema linguístico – fonético, gramatical e lexical da língua –, que tem a função de garantir a unidade linguística.
Nesse sentido, notamos que essa abordagem só admite o ato individual de criação quando ligado a um sistema linguístico imutável, em um dado momento histórico e supraindividual. Assim, o que interessa, então, é a relação entre os signos, dentro do sistema do qual se deve explicar a lógica interna (FLORES; TEIXEIRA, 2012).
Apesar de apresentar essas duas abordagens linguísticas presentes no século XX, Bakhtin (2010) enfatiza que ambas não abarcam características que possam ser incluídas em sua teoria. Quanto à primeira – o subjetivismo idealista –, o autor tece críticas ao fato de que seus defensores veem a linguagem enquanto representação fiel do que existe na mente humana e, assim, não levam em consideração a interação verbal.
Seguindo uma influência da psicologia linguística, essa abordagem apresenta como premissa ligação unívoca entre o ato de fala e o pensamento humano. Isso quer dizer que, sendo o ato de fala pertencente à consciência do indivíduo, o sujeito só teria capacidade de expressar de forma correta seu pensamento se esse organizasse de forma eficaz sua consciência. Assim, todas as características para o “bem falar” do sujeito seriam inerentes ao próprio sujeito, não recebendo, dessa forma, influência externa, a exemplo de fatores sociais e de outros interlocutores.
Nesse sentido, apresentando uma linguagem monológica, essa posição não levou em conta que a comunicação se dá entre os sujeitos a partir da relação entre o locutor, ouvinte e o meio social, pois, como afirma Bakhtin (2010), o sujeito é constituído dialogicamente.
Quanto à segunda posição – o objetivismo abstrato – seus defensores não levaram em conta que a língua, por não ser um sistema pronto e acabado, recebe influência dos sujeitos, de forma consciente. Por isso, pensavam a essência da língua – instrumento para a comunicação entre os indivíduos – como algo presente no próprio sistema linguístico. Sendo assim, ela se representa como um sistema fixo e acabado, que apresenta para os indivíduos comunicantes signos e regras, que não recebem a interferência dos interagentes. À visto disso, a língua se impõe ao sujeitos, pois, por ser um sistema que ele não pode modificar, já é apresentada ao indivíduo de forma pronta e acabada.
Em resumo, a segunda orientação apresenta as seguintes proposições (BAKHTIN, 2010, p. 83-84):
1. A língua é um sistema estável, imutável, de formas lingüísticas submetidas a uma norma fornecida tal qual à consciência individual e peremptória para esta.
2. As leis da língua são essencialmente leis lingüísticas específicas, que estabelecem ligações entre os signos lingüísticos no interior de um sistema fechado. Estas leis são objetivas relativamente a toda consciência subjetiva. 3. As ligações lingüísticas específicas nada têm a ver com valores ideológicos (artísticos, cognitivos ou outros). Não se encontra, na base dos fatos lingüísticos, nenhum motor ideológico. Entre a palavra e seu sentido não existe vínculo natural e compreensível para a consciência, nem vínculo artístico.
4. Os atos individuais de fala constituem, do ponto de vista da língua; simples refrações ou variações fortuitas ou mesmo deformações das formas normativas. Mas são justamente estes atos individuais de fala que explicam a mudança histórica das formas da língua; enquanto tal, a mudança é, do ponto de vista do sistema, irracional e mesmo desprovida de sentido. Entre o sistema da língua e sua história não existe nem vínculo nem afinidade de motivos. Eles são estranhos entre si.
Em Marxismo e filosofia da linguagem, Bakhtin (2010) também critica essa ideia apresentada de língua, principalmente por essa centrar-se mais nas formas linguísticas sem levar em conta os sujeitos no momento de suas enunciações. Isso porque, para o filósofo, o sentido de uma palavra deve ser compreendido quando utilizada em um contexto real de uso, pois uma palavra pode ganhar diferentes sentidos, a depender de sua utilização.
Na filosofia da linguagem bakhtiniana, cada ato enunciativo é uma criação individual e única, apesar de que “em cada enunciação encontram-se elementos idênticos aos de outras enunciações no seio de um determinado grupo de locutor” (BAKHTIN, 2010, p. 77). Esses elementos idênticos, que são de caráter fonético, gramatical e lexical, são traços que se tornam normativos para todas as enunciações e, assim, garantem a unicidade de uma dada língua e sua compreensão por todos os locutores de uma comunidade, mesmo sendo enunciações individuais.
Ou seja: o “ato individual de emissão de todo e qualquer som só se torna ato lingüístico na medida em que se ligue a um sistema lingüístico imutável (num determinado momento de sua história) e peremptório para o indivíduo” (BAKHTIN, 2010, p. 79). Dessa forma, ao apresentar críticas às duas orientações descritas anteriormente – subjetivismo idealista e objetivismo abstrato – Bakhtin (2010) explicita sua compreensão de língua: elemento que resulta de interação verbal; produz sentido quando inserida em contexto de relações entre os sujeitos.
A língua é estudada em sua natureza comunicativa e, a partir dos enunciados, do contexto de mundo e da subjetividade do sujeito, produz a enunciação. A enunciação, então, não é algo individual e monológico, mas um fenômeno de caráter social e, também, dialógico. Bakhtin (2010), ao se opor as duas abordagens vigentes em sua época, apresenta que o foco da comunicação entre as pessoas se desloca de uma ação cognitivo-instrumental (centrada no uso informativo da linguagem) para uma comunicativa (centrada na ação linguística).
Na abordagem desse ato comunicativo, o paradigma não é mais a relação do sujeito isolado a algo no mundo, que pode ser representado e manipulado; mas, sim, a relação intersubjetiva que assumem sujeitos capazes de linguagem e de ação, quando eles se entendem entre si sobre alguma coisa no mundo.
O filósofo da linguagemapresenta a constituição de uma lógica racional que norteia as interações cotidianas, a partir do diálogo com o outro. Dessa forma, a linguagem é analisada como um processo de interação mediado pelo diálogo e não como um sistema autônomo. O
diálogo é um espaço onde se pode observar a dinâmica da interação entre as pessoas. Assim,
“no sentido estrito do termo, não constitui, é claro, senão uma das formas, é verdade que das mais importantes, da interação verbal” (BAKHTIN, 2010, p. 125).
Além disso, é o local onde ocorrem as tensões entre locutor e ouvinte, mas também espaço onde gera o entendimento mútuo que produz o consenso. As relações dialógicas são estabelecidas nas esferas comunicativas através do proferimento de enunciados. Portanto,
O diálogo, por sua clareza e simplicidade, é a forma clássica da comunicação verbal. Cada réplica, por mais breve e fragmentária que seja, possui um acabamento específico que expressa a posição do locutor, sendo possível responder, sendo possível tomar, com relação a essa réplica, uma posição responsiva (BAKHTIN, 1997, p. 295).
Apesar de também associar-se às interações face a face18 (como aplicado comumente na Educação), em Bakhtin (1997), o dialogo é visto como a alternância entre enunciados por sujeitos atuantes comunicativamente. Com base nessa afirmação, entendemos que diálogo e enunciado são ideias interligadas, apesar de interdependentes. Isto é: ao proferir um enunciado o sujeito apresenta sua argumentação de forma acabada; no entanto, é nesse
18 Convém, neste momento, melhor explicar a simplificação que é feita em relação ao dialogismo bakhtiniano,
principalmente em relação à prática docente. Como destacado por Fiorin (2011), comumente, professores aplicam essa categoria, principalmente, em relação às interações face a face, sem dar ênfase ao fato de que essas interações são formas composicionais nas quais ocorrem interações dialógicas, através dos enunciados proferidos nesse ato de fala. Nesta investigação, levamos em conta diversas possibilidades de interação que ocorrem em esferas públicas comunicacionais, entre elas as univerisdades, inclusive as mediadas pelas tecnologias digitais.
momento que se permite (ou se provoca) o outro sujeito da interação para que apresente uma resposta ao enunciado proferido pelo primeiro locutor.
Nesse movimento de troca (ou tomada) de turnos de fala, o diálogo faz parte tanto da esfera da linguagem quanto da comunicação (MARCHEZAN, 2008); ele nos permite apreender a linguagem viva e, por isso, apresenta-se em diferentes formas, traduzíveis em especificidades de estilo e gênero textual. A sua significação depende da situação contextual (que também o constitui).
Em síntese, a dialogia corresponde a relações entre índices sociais (parte inerente a todo enunciado), não como um complexo de relações que existem entre as palavras, mas sim entre pessoas socialmente organizadas. Dessa forma, existe uma comunicação dialógica, tendo em vista que a linguagem vive a partir dos usos sociais que se faz dela e não por descrições lógico-semânticas. A condição para que essas descrições se tornem dialógicas é que sejam materializadas através do discurso.