3 MODELS AND THEORY
3.2 The CAPM with funding constraints and the Low-Beta Anomaly
Antes de permitir a entrada dos professores na sala, preparei a primeira atividade. Coloquei doze fotografias feitas por mim e pelo professor João Figueiredo, mostrando aspectos cotidianos da comunidade, como lideranças, a escola, as casas, o trilho, o Toré, a lagoa dos Pau-Branco, entre outros. Abaixo, exponho as fotos utilizadas.
Imagem 9 – Coletânea de fotografias utilizadas no Círculo Dialógico.
FONTE: Arquivo da pesquisa.
Junto às fotografias, espalhei nomes também relativos à sua realidade e recorrentes em seus discursos: Toré, Aldeia, Índio, Pajé, Cacique e Jurema. Dessa forma, busquei alcançar aspectos ancestrais, cotidianos e históricos de cada um, tentando traçar relações entre as categorias conceituais e o experiencial.
Ao entrarem, pedi-lhes que observassem as fotografias e os nomes atentamente. Depois, solicitei que cada um pegasse uma foto e um nome com que mais tivesse se identificado, mais tivesse lhe chamado atenção. Avisei ainda que, se quisessem, podiam pegar mais de uma foto e/ou mais de um nome, mas que todos deveriam ficar no mínimo com um de cada.
Em seguida, sentei no chão e um círculo ao redor do material foi formado por nós. Assim, cada um exibiu a fotografia e a palavra que pegara, explicando o porquê da escolha. O
discurso se deu de forma bem natural, em tom de conversa, na qual todos(as) se sentiram à vontade para acrescentar algo na fala do(a) companheiro(a), apontando aspectos seus na vivência do(a) outro(a).
A utilização das fotografias e das palavras serviu para um despertar da consciência para pensamentos e afetos até então adormecidos, os quais ajudaram a remontar a história deles(as) e do seu povo, assim como a construir espaço de elaboração de conceitos, como identidade, índio, numa relação entre o vivido e o subjetivo:
[...] aqui mostra que se o movimento indígena se unir, a gente consegue alguma coisa. E por detrás dessa foto aqui, ó, nós podemos ver, tem a imagem da escola, que foi conseguida através do movimento indígena. [...] Então, aqui mostra que, uniu o útil ao agradável, né, a liderança cacique Alberto com a conquista do povo Tapeba, né, que nós hoje do povo Tapeba, de dez anos pra cá, vem surgindo novas lideranças que vem contribuindo pro movimento, mas que teve que ter o pontapé de alguém, né? Porque muitas vezes a gente escuta, a gente valoriza algumas lideranças e sempre esquece de quem que foi que deu esse pontapé, né, quem foi que disse que aqui na Caucaia tinha índio, a partir de quem, né, até que quando a gente se fala do Alberto (Assis).
[...] índio de verdade, Tapeba de verdade realmente, num interessa se ele tem a pele branca, se ele tem os olhos claros, se ele tem as boas tecnologia, mas eu acho que aquela pessoa que se identifica como tal e defende aquilo a fora, esse realmente... (Graciana).
Mas é porque antes, Karol, na nossa infância, se a gente dissesse que era Tapeba, aí era risadaria, mangavam, era até discriminado na escola, né, e também... hoje não, hoje, como o movimento indígena ele cresceu muito, né, claro que teve um processo, etapa, né. E aí agora não, agora as pessoas num tem mais vergonha de dizer, sabe? Mesmo os alunos que saem da escola indígena, né, que vai pra outra escola, ele não tem vergonha(Kelly).
Depois da fala de cada um, entreguei-lhes um poema de Cora Coralina, chamado “Aninha e suas pedras”. Após a leitura, pedi-lhes que refletissem sobre o seu papel enquanto educadores(as), fazendo uma ligação entre este poema e a Educação Ambiental, pensando e repensando na prática de uma Educação Ambiental e no papel de cada um(a) para a efetivação dela.
Cada participante teve sua fala validada pelos(as) outros(as) colegas, demonstrando uma sintonia entre a história e o pensamento desses(as) professores(as). Além disso, o discurso deles(as) mostrou-se bastante parecido, revelando uma visão semelhante acerca da Educação Ambiental, como mostra o diálogo a seguir:
E eu acho que o nosso papel é esse né, fazer a nossa parte logicamente e orientar os aluno, e ouvir, porque tem muita gente que fala, fala igual médico, tem médico que fuma um tal morre com câncer, diz pro cliente dele, pro paciente dele não fumar e tá lá fumando é a mesma coisa é o professor... (Kelly).
Do exemplo né, eu tenho que dar o exemplo pro meu aluno (Kelly).
Que na realidade são nossos filhos também, são nossos alunos e filhos também (Graciana).
“Recria tua vida sempre, sempre”. Cada dia você tem uma oportunidade de fazer diferente né, diferente, dar exemplo né, o fazer né, que nós vamos teoricamente fala, fala e na execução falta alguma coisa né (Assis).
No terceiro momento, ouvimos a canção “Anima”, de Milton Nascimento e Zé Renato. Entreguei para cada um a letra da canção e a escutamos atentamente. Ao final, dei uma folha de papel madeira e pedi-lhes para, em grupo, eles(as) representarem o lugar da interculturalidade e dos saberes ancestrais dentro daquela escola indígena, de que forma eles(as) enxergavam, percebiam isso.
Após alguns momentos de reflexão, o grupo começou a discutir sobre essa questão. Chegando a um consenso, elegeram Graciana como representante para a feitura do desenho idealizado por eles(as). Essa atividade se deu de forma bastante tranquila e criativa. Eles(as) desenharam o Pau-Branco, terreiro sagrado para os Tapeba, no centro uma roda de Toré. De acordo com Priscila, referindo-se ao desenho: “Ali é a nossa cultura! O Pau-Branco... É a nossa identidade, o Toré...”. Graciana acrescentou dizendo: “eu tinha pensado o cocá, aí depois nós pensamos no Toré. [...] a gente tem que transmitir a cultura através de tudo isso num é”.
No começo da noite, encerramos nosso encontro com a apresentação do desenho realizado pelo grupo. Senti-me acolhida por eles(as). Além disso, consegui perceber a confiança e a credibilidade depositada naquele momento construído coletivamente por nós.
A seguir, exponho algumas fotos que retratam os momentos do Círculo Dialógico.
Imagem 10 - Primeiro momento do Círculo Dialógico.
Imagem 11 – Leitura do poema.
FONTE: Arquivo da pesquisa.
Imagem 12 – Construção do desenho pelos professores.
FONTE: Arquivo da pesquisa.
Imagem 13 – Desenho produzido pelos professores.
O grupo colocou o título do desenho de “Quem deu esse nó não soube dá...”. Esta frase representa o título de uma canção entoada no Toré e fala a respeito da história Tapeba. Além disso, essa música nunca deixa de ser cantada em uma roda de Toré puxada pelos Tapeba, devido a sua importância. Dessa maneira, o desenho representa o Pau-Branco, local sagrado para a comunidade Tapeba, tendo no centro do papel a roda de Toré, representando a “identidade cultural” desse povo.