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Paper III and IV

5. DISCUSSION

5.1 D ISCUSSION OF MAIN FINDINGS

5.1.4 Cancer pain domains

O movimento feminista pode ajudar-nos a compor um quadro interessante acerca das convergências entre o republicanismo e outras escolas de pensamento e de acção. O feminismo de inícios do século é um movimento claramente politizado já que a Liga das Mulheres se define como republicana. Parte das mulheres partilharam um espaço político com o movimento republicano, criando-se assim uma relação de grande proximidade entre ambos. Isto não implica dizer que todas as mulheres que procuravam questionar a sociedade e o seu papel nela fossem republicanas. No entanto, algumas das activistas de maior nomeada, designadamente Ana de Castro Osório, Maria Veleda, Carolina Beatriz Ângelo e Adelaide Cabete tiveram relações de grande proximidade política com o republicanismo. Esta aliança, fomentada pelos republicanos, teve lugar imediatamente antes da tomada do poder e, feita a República, tornou-se difícil de gerir, já que foram criadas expectativas nas mulheres que não foram cumpridas. Há uma relação muito específica de uma parte do feminismo com as esperanças – várias e multiformes – que estiveram presentes na luta contra a sociedade antiga, velha e que era preciso renovar. Esta luta foi hegemonizada pelo republicanismo que actuou lado a lado com estas mulheres. Mais do que isso, pediu explicitamente a sua participação nos combates que travou. Parte do movimento republicano quis uma mulher republicana; e as feministas queriam da República o que a monarquia lhes negava, a saber, os direitos civis e políticos.

As mulheres (uma pequena parte de entre elas) foram, indubitavelmente, as protagonistas de um combate político, no que a palavra tem de mais lato e não apenas no sentido estritamente partidário. No seu percurso, lutando pelos direitos das mulheres, cruzaram as suas reivindicações com outras que não se prendiam somente com questões de género. Assim, devemos olhar o feminismo como mais do que a luta pelos direitos das mulheres. Com isto não estamos, de maneira nenhuma, a minimizar a importância deste combate, mas a inseri-lo numa conjuntura mais vasta. Fernando Catroga escreveu a este propósito: “Com efeito, julgamos que é dentro do horizonte desenhado pelos esforços tendentes a consumar a revolução cultural liderada pelo livre-pensamento que

temos de compreender o aparecimento, entre nós, de um movimento feminista.”73 Ou

      

73 CATROGA, Fernando, A Militância Laica e a Descristianização da Morte em Portugal, 1865-1911, 2 vols., dissertação de doutoramento em História apresentada à Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, 1988.

seja, e ainda seguindo o pensamento do autor, é preciso incluir o movimento feminista numa estratégia cultural de esquerda, ou, ainda, na estratégia global do laicismo. Este movimento feminista não tinha que ser necessariamente republicano, mas em Portugal foi-o.

Dentro desta ordem de ideias, é preciso, então, sublinhar que este era um movimento de contestação, não de crítica radical, tendo um “(...) cariz predominantemente culturalista e, por conseguinte, de pendor menos revolucionário no que respeita à inserção do problema da mulher na crítica geral à sociedade capitalista.”74 De igual modo, a família

e o papel da mulher nela não foram postos em causa, aliás, como afirmou Paulo Guinote “(…) Portugal não conhece discursos articulados de contestação à unidade familiar como suporte da estabilidade social. A família não é contestada nem como instituição social fundamental, nem como ideal, mesmo no próprio discurso feminista que critica as iniquidades que a desigualdade de papéis entre os sexos impõe à mulher, sendo esta uma permanência que se manifesta durante todo o período em análise.”75

Todas estas mulheres que aqui tomamos como exemplo partilham uma característica, a saber, a literacia. Ou seja, as mulheres dirigentes e activistas tinham estudado e muitas delas tinham um curso superior, o que na altura era extremamente raro. O que distinguiu estas mulheres foi a posse das ferramentas críticas para pensarem a sua condição. Na conjuntura finissecular, em Portugal, algumas mulheres começaram a questionar o que estava naturalizado em relação ao ser mulher, ao seu papel na sociedade e aos seus

direitos e deveres. Ao fazerem isto estavam também a analisar a própria relação entre os dois sexos. Punham em causa a ideia de que estavam naturalmente afastadas do mundo da racionalidade, da produção científica e mesmo da política. As mulheres tentaram constituir uma esfera pública alternativa face ao mundo, tanto político como literário, maioritariamente masculino, recusando ficar apenas pela esfera privada e pelo universo da domesticidade. Partiram, assim à conquista de um papel social, cultural e político, de forma a tornarem-se visíveis.

A entrada das mulheres neste mundo hegemonizado pelo sexo masculino passou por dois processos que corriam concomitantes. Estas pioneiras procuraram abrir um espaço cultural e as feministas procuraram abrir um espaço político. A fazer a ponte entre estes dois grupos, que se sobrepunham muitas vezes, estava a luta por causas, a mais

      

74 Ibidem.

75 GUINOTE, Paulo, Quotidianos Femininos (1900-1933), Lisboa, Organizações Não Governamentais do Conselho Consultivo da Comissão para a Igualdade e para os Direitos das Mulheres, 1997, pág. 25.

importante das quais foi a da educação. Esta foi a pedra de toque das reivindicações das mulheres, quer se assumissem como feministas, quer não. Puderam mesmo contar com vozes masculinas, como por exemplo Bernardino Machado. A questão da educação prendia-se com outra, essa de recorte mais tradicional, a da definição do que era uma boa mãe. Todas as mães deveriam ter conhecimentos de puericultura para tratarem convenientemente os seus filhos. Para as nações, a população era uma riqueza e o cuidar das crianças não era uma tarefa despicienda, devendo ser levada a cabo com base no que a ciência poderia ensinar. Uma boa mãe tinha de saber. Para a sensibilidade republicana, uma boa mãe poderia ensinar a sua prole a ser um bom cidadão, logo, no seu raciocínio, um bom republicano.

Uma das portas de entrada da mulher foi através do mundo cultural, da literatura, da imprensa e da arte. O mundo da imprensa era, sem surpresa, ainda esmagadoramente masculino no final do século XIX. A imprensa generalista não deixava totalmente de parte as mulheres. Aliás, o público feminino começou a ter interesse e a ganhar algum espaço – ainda restrito – nas estratégias editoriais. No entanto, para a luta que pretendiam levar a cabo, não interessava uma secção de modas, nem um folhetim próprio para as mulheres. O que era interessante era que existissem publicações que pensassem a condição feminina. Era importante escrever para mulheres, por mulheres. O melhor exemplo desta forma de criar um espaço público e uma comunidade foi o

Almanaque das Senhoras, fundado por Guiomar Torrezão em 1871 e publicado até

1925. A literatura foi outra das portas de entrada das mulheres no mundo masculino. Estas não se abalançaram a todos os géneros literários, existindo preconceitos, parecendo que alguns campos eram mais adequados à escrita feminina. Foi através do romance, da poesia e da literatura para crianças que as mulheres começaram a aceder ao espaço público. Várias autoras consideraram que existia uma especificidade feminina na escrita que se associava à sensibilidade, à ternura e mesmo à “inteligência do

coração”76. Esta fórmula é interessante e merece um comentário. Se os homens

consideravam que a mulher era o coração e não a cabeça, a ideia de que pode haver este tipo de inteligência significa que de alguma maneira as mulheres interiorizaram e naturalizaram a sua ligação ao mundo dos afectos sem que isso signifique uma oposição

       

à inteligência.

 

76 Veja-se BARROS, Teresa Leitão de, Escritoras de Portugal. Génio feminino revelado na literatura

portuguesa, Lisboa, s.n., 1924.

Foi com a Liga Republicana das Mulheres Portuguesas (LRMP) que o feminismo se cruzou com o republicanismo, embora tivesse partilhado outros combates como o do direito à educação. A sessão preparatória da fundação da Liga em Agosto de 1908 foi presidida por Ana de Castro Osório e secretariada por Bernardino Machado e Magalhães Lima, tendo lugar no Centro António José de Almeida. A ideia de criação da Liga tinha tido origem nos republicanos, nomeadamente António José de Almeida, que convidavam as senhoras a prestarem o seu concurso, de forma organizada ao combate republicano. Trabalhar pela República era trabalhar por um futuro melhor e mais risonho para os filhos que estas mulheres deveriam saber educar para serem bons cidadãos. No entanto, a Liga foi mais do que um instrumento republicano, tendo uma agenda própria, constituindo-se como uma organização feminista. A Liga não foi a primeira organização de mulheres em Portugal, muito embora o atraso em relação a outros países europeus fosse enorme. Podemos fazer referência à Liga Portuguesa da Paz, fundada em 1899 e, ao incontornável Grupo Português de Estudos Feministas, criado em 1907, com Adelaide Cabete, Ana de Castro Osório, Carolina Beatriz Ângelo

vertente religiosa), à leitura de

       

e Maria Veleda. A LRMP foi, contudo, a primeira organização político-partidária feminina.

A galáxia republicana tinha por base a partilha de uma determinada cultura política que se entendia como moderna, avançada e progressista e que foi sempre caracterizada por

uma vontade de proselitismo77. Muito embora fazendo parte de um vasto caudal de

modernidade, os republicanos procuraram trazer os outros afluentes para a sua causa. O denominador comum de todos estes grupos e agentes era essencialmente político e cultural associando livre-pensadores, anticlericais, socialistas, feministas, pacifistas, liberais, progressistas, homens ligados à educação e instrução, um vasto caudal de homens e mulheres que se pensavam como cidadãos e, assim, procuravam um espaço de intervenção na cidade. Esta base política e cultural foi o substrato para os seus entendimentos com outras forças políticas, sociais e culturais. No entanto, é de notar que a ideia de república conseguiu hegemonizar o campo progressista. O republicanismo partilhava com outras forças uma cultura política assente no livre- pensamento, no positivismo, no cientismo, no anticlericalismo, na necessidade de educação. A cultura política portuguesa deste sector que se entendia como progressista devia muito ao positivismo de Augusto Comte (sem a

 

77 CATROGA, Fernando, O Republicanismo em Portugal. Da formação ao 5 de Outubro de 1910, Lisboa, Editorial Notícias, 2000 (1991).

Littré, bem como ao monismo de Haeckel. Podemos encontrar neste caldo cultural o socialismo de Proudhon e o evolucionismo de Darwin.

Este republicanismo desejava o progresso, acompanhado de ordem, numa sociedade mais justa e democrática. Era o que ao tempo parecia mais moderno e inovador. A partir dos anos setenta do século XIX lutara para afirmar a sua novidade face a uma sociedade

ertezas de uma sociedade.

lomeu Constantino e Martins Vagueiro, socialistas, como Ernesto da Silva, e berais e republicanos, sempre com a preciosa ajuda de jornalistas e órgãos de imprensa.

tar no combate que se avizinhava; mas este, tal

estabelecimento da ordem social: aproximação entre os filósofos, os proletários e as mulheres, como os menos corrompidos pelas noções teológicas e metafísicas, melhor considerada atávica. Neste sentido, podemos olhar para 1871 e para as Conferências do Casino como um questionar filosófico e científico das c

No caso do republicanismo, este movimento tinha respostas e sabia, com uma certeza científica e quase messiânica, qual o caminho a trilhar.

Este vasto conjunto de agentes e organizações que confluem no republicanismo trabalhavam tanto para a concretização dos seus objectivos específicos como para os comuns. Destes é importante fazer referência a dois, que se prendem com a questão política e a questão religiosa: lutava-se contra a monarquia, vista como a raiz de todos os males na vida política de então, e contra o peso da igreja católica, muito especialmente dos jesuítas, obstáculo a uma almejada transformação do súbdito em cidadão. Lutava-se contra o que a Igreja e contra o que ela tinha de anti-moderno. A luta contra o Centenário de Santo António, inserida num âmbito mais vasto levantado pela questão religiosa, foi, aliás, um dos exemplos da reunião de esforços entre anarquistas, como Barto

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