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Urucuia, gerais, geralistas, sertanejo, sertão: JGR. Não há como explorar toda a magnitude da obra no sentido de verificar as inúmeras possibilidades em que o Autor propõe um novo elo na (re)construção do valor em torno do homem sertanejo, principalmente daquele que vive às margens do Rio Urucuia. Ele, de fato, apresenta ao mundo o sertão urucuiano, agora descoberto; antes, desconhecido, descuidado, desabitado: hoje, entreaberto.

Nesse contexto, ressalta-se que o Rio Urucuia eleva-se de uma referência local para nacional, dessa para internacional, agregada à transcendência humana que pode acontecer pela leitura da literatura. A força da estética25 literária de JGR, que associa prosa e poesia, ecoa tão distante que leva o nome do rio a se tornar conhecido mundialmente. Isso constata Tião Leite, ex-vaqueiro que acompanhou o Autor durante a expedição de 240 quilômetros pelo interior do país:

Nóis têm que dever muita obrigação a Guimarães Rosa. Muita gente fala: - mas por quê? Ele não deu nada a vocês. Falei: - Deu, se não fosse ele, na... na entremédia dele, nós não éramos conhecidos no Estado de Minas igual nós somos. Com esse negócio, nós tá no mundo todo, né? É um prazer que a gente tem26.

25 JGR associa, em sua estética literária, aspectos estruturais tanto da prosa quanto da poesia. Assim, para

destacar igualmente as duas formas de manifestação, Lontra (em manifestação oral, durante o curso) caracteriza o seu fazer literário de proesia: a junção das características dos textos em prosa e em poesia, que JGR soube tão bem burilar.

26 Depoimento extraído do documentário “O caminho de Guimarães Rosa no sertão mineiro: o grande sertão

veredas”, financiado pelo Banco do Desenvolvimento de Minas Gerais - BDMG, divulgado pela Rede Minas TV, presente, atualmente, em https://www.youtube.com/watch?v=NfkR45rWih8

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Num movimento em rede, cíclico, em que se encontram novos atores, mediadores e, às vezes, apenas, intermediários, a referência ao Urucuia torna-se, por extensão metonímica, alusão a JGR. Nesse processo, o Rio Urucuia, por suas características, é um elemento estabilizador da organização social que se estende pelo Vale, função social que também se estende ao Autor.

Homem, brasileiro, mineiro, sertanista, exímio ouvinte de estórias, ficcionista, escritor, JGR não foge ao compromisso que o convoca a pensar e agir em prol do outro, numa postura ética e estética, num diálogo responsável, segundo as palavras de Bakhtin. Nas palavras de Britto (2012: 137-8) “a dimensão ética da literatura consiste em pensar e construir a condição do humano”. JGR demonstra, em sua obra, tal comportamento ético subsumido à sua estética. Ele destaca aos outros sertanistas a necessidade de ser e pensar acerca de si mesmos; e aos outros – fora do contexto do sertão das Minas Gerais – alerta que, mesmo o homem mais modesto, apresenta, em sua singularidade, as premissas universais do humano: o conflito.

Em relação à sua produção, ele afirma a Lorenz (1991: 87), que fez da língua “a arma com a qual defendeu a dignidade e os direitos do homem”. Tal ideia reforça, para nós, que o caráter político da obra de JGR está centrado nessa responsabilidade com o humano. Para Facó, em JGR, “o estético e o ético se confundem na clássica procura do bem, do belo e da verdade. Esta ascese estética, no entanto, não o impediu de escrever o mais brasileiro texto de nossa literatura” (Facó, 1982: 18).

Bakhtin (2010) advoga que ações e atos são fatos distintos27. O ato é sempre responsável, único e irrepetível. Na prática do ato, o sujeito revela uma atitude responsiva em relação ao outro e à sua atuação. Tal atitude constitui a integridade do ser humano. Reconhece-se em JGR a efetiva prática do ato responsável, responsivo eticamente consigo próprio e com o sertanejo. Somente o Autor poderia escrever poeticamente, partindo de aspectos culturais da sociedade mineira, da forma em que escreveu. A isso, Bakhtin, denomina de ato responsável sem álibi. Observa-se, em sua obra literária, o respeito às leis universais de ser do humano: o dever de pensar, associado à necessidade

27 Neste estudo, apesar de compreendermos que o ato é responsivo e responsável, diferente da ação que é um comportamento mecânico, impensado, destacamos que não fazemos distinção para essas palavras. Quando usarmos a palavra ação, estaremos aplicando o conceito de ato pensado.

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de pensar o ethos sertanejo, simplesmente por se sentir evocado, a partir do seu lugar, a pensá-lo.

Cada homem tem seu lugar no mundo e no tempo que lhe é concedido. Sua tarefa nunca é maior que sua capacidade para poder cumpri-la. Ela consiste em preencher seu lugar, em servir à verdade e aos homens. Conheço meu lugar e minha tarefa; muitos homens não conhecem ou chegam a fazê-lo, quando é demasiado tarde (em entrevista a Lorenz, 1991: 73-4).

A obra literária é uma atitude responsiva em relação ao mundo em que o Autor se encontra e com o qual se identifica, em relação àquilo que pensa acerca do homem. Tal ato é resultado de uma convocação ética à reflexão acerca do pensar. Assim, JGR, considerando Latour (1994), transfigura-se em mediador – ou seja, é capaz de traduzir aquilo que transporta, de redefinir ações, desdobrá-las – manifestando a dignidade ontológica do ser que constitui poeticamente. Este ato aprofunda o filósofo poeta que reside em JGR.

Quem cresce em um mundo que é literatura pura, bela, verdadeira, real deve algum dia começar a escrever, se tiver uma centelha de talento para as letras. É uma lei natural, e não é necessário que atrás disto haja ambições literárias (em entrevista a Lorenz, 1991: 69)

Seu pensamento encontra ressonância em filósofos importantes da modernidade. A Bakhtin relaciona-se no que diz respeito à participação de seus atos no e para com o mundo sertanejo, evocando inúmeras vozes que se coadunam na edificação do homem. A Benjamin, relaciona-se pelo fato de sua composição literária não se dissociar da composição do mundo contextual, no qual viveu e em que também se inspirou.

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2.NA SEGUNDA MARGEM: O DEMORAMENTO

Deveras se vê que o viver da gente não é tão