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política e de formação da cultura sertaneja, nasce, em Cordisburgo, região metropolitana de Belo Horizonte, capital do Estado de Minas Gerais, no dia 27 de junho de 1908, o menino JGR, mais conhecido, na meninice, por Joãozito. Ele vive até os 9 anos de idade em sua cidade natal, da qual gostava e a qual chamava de “burgo do coração”. Segundo Costa (2006: 10), Joãozito cresceu ouvindo estórias contadas pelos frequentadore(a)s da venda de seu Fulô – seu pai.

Figura 3 disponível em www.elfikurten.com.br Conviveu com ambulantes, garimpeiros, praças de polícia, fazendeiros, caçadores e, principalmente, vaqueiros, que chegavam com boiadas provenientes do alto sertão para embarque nos trens-de-ferro que dali partiam para Belo Horizonte e São Paulo. Além disso, contribuíram, para o universo fantasioso do menino, algumas ações de seus pais19. Quando menino, no sertão de Minas, onde nasci e me criei, meus pais costumavam pagar a velhas contadeiras de estórias. Elas iam à minha casa só para contar casos. E as velhas, nas puras misturas, me contavam estórias de fadas e de vacas, de bois e de reis. Adorava escutá-las (Em Dantas, 68: 1).

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Tais relações podem explicar a paixão que JGR nutriu, durante toda a sua vida, por bois, boiada, sertão, aonde tanto boi berra20 (36). Elas contribuíram para alimentar a imaginação de Joãozito.

JGR foi um menino estudioso, apaixonado por geografia e história e pelo estudo de línguas, era um menino de “memória prodigiosa e que estava sempre grudado num livro” (Costa, 2006: 11). Enquanto criança, seu passatempo favorito era ouvir estórias. Dos 10 aos 22 anos de idade, viveu em Belo Horizonte, estudou e se formou médico. Mesmo assim, não se distanciou das estórias sertanejas que alimentavam a sua imaginação. Viveu na capital, num período marcado por histórias de jagunços e por violentas disputas políticas no interior de Minas Gerais.

JGR ouvia histórias de Antônio Dó, Andalécio, Felão, João Duque, coronel Hermógenes, Ricardo Gregório, capitão Melo Franco, pessoas que viveram conflitos grandiosos no sertão; mais tarde elas compuseram personagens extraordinários, sobretudo em GS-V. Por esta razão, nas palavras de Starling (1999), GS-V é considerado um romance de formação, em que o personagem, ao se construir pela narrativa, apresenta fragmentos que constituem o social. As suas lembranças individuais e sociais se misturam na construção do romance. Segundo Bolle (2004), GS-V é uma narrativa desenvolvida em forma de pensamento labiríntico, ou seja, narração em forma de rede. É uma narrativa enredada a partir da memória do personagem que revela a memória coletiva do sertão Brasil mineiro.

JGR exerceu a medicina em Itaguara, na região de Itaúna, no oeste mineiro. No exercício da profissão, registrava em uma caderneta as histórias e as estórias dos mineiros.

Aproveita suas conversas com moradores da roça, ciganos, doentes de malária, trabalhadores da estrada São Paulo – Belo Horizonte, para escrever alguns contos, que mais tarde foram retrabalhados e reunidos no Volume Sezão ou Contos, primeira versão de Sagarana (Costa, 2006: 14).

20 A expressão “aonde tanto boi berra”, construção de JGR, recorrente em GS-V, aparece nas páginas 36 e

639. Nas páginas 95 e 628, registra-se “onde tanto boi berra” e, na página 540, registra-se “em que tanto boi berra”. Acreditamos que JGR registra a expressão “aonde” para destacar a ideia de mobilidade das boiadas. A recorrência desta expressão dentro da obra, acreditamos, relaciona-se ao fato de, nos Gerais das Minas, a economia estar centrada na cultura do boi. Além disso, a recorrência em suas variáveis registra a flexibilidade linguística que tanto JGR explora poeticamente em seus textos.

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JGR conta que foi médico, rebelde e soldado. E que essas foram etapas sucessivas, importantes e paradoxais em sua vida. A tal respeito ele informa:

Como médico conheci o valor místico do sofrimento; como rebelde, o valor da consciência; como soldado, o valor da proximidade da morte Mas estas três experiências formaram até agora meu mundo interior; e, para que isto não pareça demasiadamente simples, queria acrescentar que também configuram meu mundo a diplomacia, o trato com cavalos, vacas, religiões e idiomas (em entrevista a Lorenz, 1991: 67).

Dedica-se com afinco aos estudos de leis, a fim de realizar concurso para o Itamaraty. É aprovado e, em 11 de julho de 1934, é nomeado cônsul de terceira classe. Assim, realiza o seu sonho de tornar-se diplomata. Nessa época, JGR já tinha se revelado um excelente escritor de contos e de “estudos especializados de antropologia, ethnografia e lingüística” (Costa, 2006: 15).

Em 1938, JGR é nomeado cônsul adjunto em Hamburgo. Permanece por 4 anos na Alemanha. Mesmo distante da terra natal, não perde o contato com o povo do sertão; continua escrevendo seus contos e organizando seus livros. Ele sempre solicitava ao pai, exímio contador de estórias, que lhe enviasse cartas contando fatos sobre a vida no sertão, com as palavras pronunciadas pelos sertanejos. Apaixonado por línguas, especialmente pela língua nacional, JGR buscava resgatar a palavra em seu sentido original para conferir-lhe poeticidade. À época, escrevia novos livros e queria ambientá-los no sertão. Planejava, ao voltar para o Brasil, realizar uma viagem pelo sertão, navegar pelo rio das Velhas, conhecer de perto a geografia. Sempre foi um viajante e um excelente narrador. Em entrevista, JGR declara que

Os homens do sertão são fabulistas por natureza. No sertão, o que se pode uma pessoa fazer do seu tempo livre a não ser contar estórias? (JGR em entrevista a Lorenz,1991: 69).

O que o distinguia dos outros sertanejos era que ele, escrevendo, contava as estórias artisticamente. Ele trazia sempre os ouvidos atentos, escutava tudo o que podia e depois transformava em lenda o ambiente que o rodeava, porque, “em essência”, ele – o ambiente – já “era e continua lenda” (JGR em entrevista a Lorenz, 1991: 69). Nas palavras de Rosa, acompanha-se o seu encantamento pelo sertão e pelas estórias sertanejas:

Eu carrego o sertão dentro de mim, e o mundo no qual eu vivo é também o sertão. As aventuras não têm tempo, não têm princípio nem fim. E meus livros são aventuras, para mim são a minha maior aventura. Escrevendo, descubro sempre um novo pedaço de infinito. Vivo no

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infinito, o momento não conta (Viagens imaginárias – O sertão e as veredas de Guimarães Rosa. Manchete, 20.07.1991).

Dessa forma, enlevado pela empatia pelo sertão, pelo espírito sertanejo com o qual se assemelha, em meados do século XX, despontou na literatura do Brasil o prodigioso talento de JGR, o qual se tornou, pela essência de seus textos, pelo caráter sertanista de seus personagens, muito conhecido. A publicação de GS-V contribui para a divulgação do Vale do Urucuia, e o sertão brasileiro se torna conhecido, menos isolado. Com JGR, segundo Bolle (2004), o sertão irrompe com força total no cenário da historiografia e da literatura universal.

A partir de sua obra, reconhece-se, pelo discurso, o que ele considera a responsabilidade do escritor, mesmo colocando a política como supérflua, observa-se que ele é um mediador político pela literatura, ou vice-versa; revela-se um mediador literário a partir de questões sociais, culturais e políticas inseridas na obra, devido ao seu compromisso com o homem e com a sociedade.

A vida deve fazer justiça à obra, e a obra à vida. Um escritor que não se atém a esta regra não vale nada, nem como homem, nem como escritor. Ele está face a face com o infinito e é responsável perante o homem e perante a si mesmo (em entrevista a Lorenz, p 74).

A sua literatura apresenta uma força filosófica e sociológica bastante significativa. GS-V constitui o retrato do Brasil, explorando os vários discursos presentes no sertão, inclusive o do poder: Medeiro Vaz, Joca Ramiro, Zé Bebelo, Riobaldo, Diadorim, Hermógenes. Nas palavras do narrador, “Ah, a vida vera é outra, o cidadão do sertão. Política! Tudo política, e potentes chefias” (151). Segundo Barbosa (1981: 81), GS-V “é um documento – o grande documento, o documento definitivo – da realidade brasileira”. O sertanejo foi, por muito tempo, discriminado pela sua condição social: vivia às margens da sociedade mineira e, por consequência, da nacional. JGR lança um novo olhar acerca do sertão e do sertanejo, a respeito do sertanejo em relação a si mesmo e ao mundo. Numa perspectiva filosófica, universalista, retira o sertanejo urucuiano do seu locus vivendi e o eleva à condição humanamente existencial.

Todos os meus livros são simples tentativas de rodear e devassar um pouquinho o mistério cósmico, esta coisa movente, impossível, perturbante, rebelde a qualquer lógica, que é chamada de realidade, que é a gente mesmo, o mundo, a vida. Antes o obscuro que o óbvio, que o frouxo. Toda lógica contém a inevitável dose de mistificação. Toda mistificação contém boa dose de inevitável verdade. Precisamos

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também do obscuro (em correspondência com seu tradutor alemão Curt Meyer-Clason, 2003: 238).

Nesse contexto, JGR vale-se de aspectos reais da geografia social e física para valorizar, além do homem sertanejo, da sua cultura, o arranjo produtivo da região: ao fazê-lo prefere a obscuridade à clareza cegante. Ele mesmo afirma:

Todos os meus personagens existem. São criaturas de Minas: jagunços, vaqueiros, fazendeiros, pactários de Deus e do Diabo, meninos pobres, mulheres belas, moradores do Urucuia e redondezas (Rosa, 2006: 79). Devido à relação estabelecida pelo conhecimento geográfico que JGR demonstra ter da região do Vale e pelo destaque dado ao urucuiano a partir de seus conflitos de ordem social, política e existencial em sua produção literária, perpassa o imaginário coletivo dos grupos que vivem na região a crença de que JGR tenha feito viagem pelo sertão mineiro, pelas bandas do norte e do noroeste. Realmente JGR realizou uma viagem pelo sertão mineiro, em 1952, ao longo de 10 dias. JGR acompanhou uma comitiva, partilhando o dia com boiadeiros – Zito, cozinheiro e batedor da boiada, Manuelzão, Bindóia – e realizando anotações que foram usadas em sua obra. Eles percorreram cerca de 240 km pelos campos gerais, passando por Andrequicé, Morro da Garça e Cordisburgo, além de diversas fazendas e belas veredas (Costa, 2006: 30). Registra-se o percurso: fazenda Sirga em Três Marias até a fazenda São Francisco no município de Araçaí, o primeiro situado na região central de Minas e o segundo na região metropolitana.

José Osvaldo dos Santos, popularmente conhecido como Brasinha, foi entrevistado por esta pesquisadora, durante uma visita a Cordisburgo em julho de 2012.

Brasinha, morador de Cordisburgo, estudioso da vida e obra de JGR, conta que o Autor pode nunca ter margeado o Rio Urucuia, nas redondezas de Arinos. Brasinha reforça que, em decorrência do elevado conhecimento de JGR a respeito da geografia brasileira, o Autor soube tão bem expressar as belezas geográficas de toda a região pela qual se estende o rio. Tal hipótese também foi levantada pelo senhor Oliveira Mello, pesquisador da região do Noroeste de Minas, que também foi entrevistado por esta pesquisadora em novembro de 2012 e foi confirmada por Napoleão Valadares, Napoleão Valadares, descendente da família pioneira da região, estudioso da obra de JGR e historiador, também concedeu entrevista à pesquisadora, momento em que afirmou “JGR nunca esteve em nenhum lugar do Rio Urucuia”.

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1.4-ROSA E O RIO