3. DATA
3.2 C ONSTRUCTING PORTFOLIOS
Longo (2000) em seu estudo de livre-docência teve como objetivo, assim como Rocha (2003), contribuir com o professor Francisco Silva Borba na elaboração do Dicionário de Usos do Português Contemporâneo do Brasil. Para tanto, foi necessário, segundo a autora, elaborar um roteiro com parâmetros de descrição gramatical e tipos de definição para investigar as propriedades dos substantivos em função adjetiva.
O fenômeno em questão se tornou objeto da autora, uma vez que para elaborar as entradas no dicionário desses tipos de substantivos, Longo (2000, p.3) se deparou com o seguinte problema: como tratar/classificar nomes, no caso substantivos, “[...] que não tem função de designar ou nomear e sim de caracterizar ou qualificar. Como deveriam ser inseridos num dicionário? [...].”
Dessa forma, coube à autora e a sua equipe, elaborar estudos sobre as propriedades morfossintáticas e semânticas de substantivos que possuíssem as características acima descritas, ou seja, como afirma Longo (2000), que sofressem uma conversão/transposição categorial de substantivos para adjetivos. Deve-se ressaltar o fato de que, como cita a autora, os substantivos em função adjetiva elencados são aqueles que ocupam em um Sintagma Nominal , doravante SN do tipo N1N2 a posição N2, tais substantivos são considerados por alguns gramáticos como substantivos epítetos. A autora, por sua vez, declara que em vez desse termo (epíteto), prefere utilizar o termo inglês atributo, mais neutro, pelo fato de não acreditar que os atributos sejam apenas um subtipo dos substantivos, mas sim substantivos que se adjetivariam.
Durante a apresentação e na construção da argumentação sobre a classe de substantivos, mais especificamente acerca do substantivo atributo, Longo (2000) mostra que existe uma querela sobre a distinção polarizada de classes e função que ainda é de extrema importância para a classificação dos termos. Além desse aspecto, a autora demonstra por meio de suas análises dos substantivos atributos que existe certa mobilidade entre as classes, pois, ao evidenciar que os limites entre as classes nem sempre estão bem estabelecidos, a autora aponta para uma indeterminação existente entre as classes, mais especificamente como ela própria cita, entre verbos, nomes (substantivos) e adjetivos. Desse modo, por mais que haja
uma dependência do que é estanque (as classes), uma vez observado que existe uma indeterminação classificatória, Longo (2000, p.16-17) assevera que
[...] parece razoável propor que a língua não se constitui de categorias discretas, mas que os itens se distribuem ao longo de um eixo contínuo, marcado por pontos onde se concentrariam um número máximo de propriedades de uma ou outra classe.
Ao analisar essa afirmação acima, nota-se que a autora após mencionar a indeterminação classificatória e a não discretização categorial, segue seu estudo propondo a troca de uma análise classificatória e polarizada por uma escala de gradação de substantivos. Longo (2000) estabelece nessa gradação dois extremos, sendo um relativo à classe dos adjetivos (adjetivos prototípicos) e o outro aos substantivos (substantivos prototípicos). Entre os extremos haveria itens que compartilhariam propriedades dos dois polos, ou seja, das duas classes. A partir dessa gradação, a autora, no primeiro capítulo, faz uma descrição das propriedades típicas dessas duas classes. Isso demonstra que, apesar de indicar um desejo de não se ater às classes estanques, mas sim a uma análise de gradiente, ao determinar as propriedades típicas de cada classe e ao demonstrar que o substantivo pode sofrer uma conversão categorial adjetivando-se, a autora converge para a classificação estanque, fugindo da gradação.
Assim, para que houvesse a flutuação, implicando a mudança de classe, a conversão só ocorreria se o item analisado incorporasse todas as características de uma classe diferente da sua, mas Longo (2000) notou que esse fenômeno não ocorre em todas as situações selecionadas. Segundo a autora, para a conversão de classe de N2, haveria a necessidade de se avaliar a extensão de propriedades semânticas para a conversão classificatória do termo de N2 “[...] é necessário um estudo caso a caso, em que sejam testados todos os parâmetros de N2 antes de uma classificação final. LONGO (2000, p.46).” Desse modo, demonstra que a situação enunciativa é um fator importantíssimo para tal determinação classificatória.
Após análises das propriedades semânticas de N2, a autora chegou a uma subdivisão em qualificadores e classificadores. Nessas ocorrências de qualificadores e classificadores, Longo (2000) apresenta a característica dos substantivos concretos como aqueles que teriam menos restrições à extensão das propriedades para a conversão classificatória que os abstratos. Além do fato de que os abstratos que se prestam à função de N2, em sua maioria expressam qualidade.
Embora a autora tenha se proposto a analisar as características sintáticas, bem como as semânticas para uma determinação da conversão classificatória dos concretos, leva em consideração o que alguns estudiosos afirmam sobre a transposição categorial, ou seja, que para que ocorra a conversão é necessário um termo assumir todas as propriedades de outra classe. A autora, mais uma vez, ressalta o fato de que é necessário estudar caso a caso, pois, segundo suas análises, para a transposição categorial, a aquisição da maior parte das propriedades de uma classe por um item de outra classe já é o suficiente, diferentemente do que outros gramáticos postulam.
Dessa forma, como Longo (2000) tem como um dos seus objetivos elaborar entradas de dicionário para verbetes N2 de uma estrutura N1N2, propõe que esses
[...] sejam classificados, de acordo como seu uso e propriedades, como partes de compostos, como substantivos (em função adjetiva), ou como adjetivos. Devem receber tratamento específico nos dicionários, e além de exigir um estudo caso a caso para o estabelecimento da classe gramatical, alguns fatores condicionantes de uso devem ser levados em conta pelo lexicógrafo na recolha e seleção dos exemplos ilustrativos, para orientar o falante quanto à escolha do substantivo ou do adjetivo como item de incidência externa. (LONGO, 2000, p.61).
A partir dessa consideração, toda a argumentação sobre gradação retrocede ao ponto da classificação polarizada. Uma vez proposto que um termo analisado (no caso N2) não pertence nem à classe de adjetivos nem à classe de substantivos, ele passa então a pertencer a um terceiro grupo delimitado e fechado, os atributos49.
Seguindo sua meta de análise, Longo (2000) elabora uma proposta metodológica de tratamento lexicográfico dos termos atributos, tentando chegar ao que ela determina como características prototípicas das classes de adjetivos e substantivos, pois propõe a hipótese de haver uma competição ente o substantivo atributo e o adjetivo, fato não confirmado em suas análises posteriores. Para tal objetivo, a autora analisa as propriedades morfológicas, sintáticas e semânticas de 224 nomes.
A etapa seguinte de sua pesquisa foi delimitar os fatores que poderiam influenciar a distribuição do uso em uma classe ou em outra. Em seguida, busca a sistematização da relação produção e produtividade do emprego de N2 atributo de
49 A autora listou somente cinco exemplos de entradas de verbetes em toda a tese. Sendo esses: animal, adulto, borboleta, crime e a expressão engenheiro agrônomo. A autora não determina que os
um SN N1N2. Essa sistematização, segundo a autora, levou em consideração oito fatores linguísticos distintos e mais dois fatores extralinguísticos50 para a distribuição dos nomes atributos em Língua Portuguesa.
Para dimensionar se essa construção N1N2 como atributo era produtiva em português, Longo (2000) recorre aos recursos estatísticos-quantitativos para formatar suas ocorrências aos fatores condicionantes supracitados. Tendo o intuito de se trabalhar com dados da língua falada e da língua escrita, a autora decide levar em conta os fatores linguísticos para a análise da escrita e os fatores extralinguísticos para a análise da fala.
Para finalizar seu trabalho, a autora - após delimitação dos dados e explicitação de como faria as análises, ou seja, explicar as variantes probabilísticas e os dos fatores condicionantes da ocorrência dos substantivos atributos na língua escrita e na língua falada, relata que seu estudo evidenciou dois fatores de ordem pragmática para o emprego de N2 e esses seriam “[...] a necessidade de enxugamento da linguagem [...] e o emprego metafórico [...](LONGO, 2000, p. 82).”, além disso, foi constatado que 77% dos nomes do corpus eram substantivos concretos, que segundo a autora estariam menos sujeitos às restrições de ocorrência e prestar-se-iam facilmente à metáfora.
A autora ainda ressalta o fato de na modalidade escrita a frequência do substantivo atributo está relacionada à inexistência de um adjetivo correlato, uma vez que se houver a forma sufixal -al ela é eleita no lugar do substantivo atributo. Em relação à língua falada, a análise demonstrou, primeiramente, que os substantivos analisados são mais frequentes que os adjetivos correlatos. Em segundo lugar, que os substantivos atributos não estão em competição com os adjetivos, porém o seu uso está sendo ampliado. De qualquer modo, a autora afirma que “[...] é preciso aplicar os parâmetros de classificação caso a caso” (LONGO, 2000, p. 156) e acabou criando, de acordo com suas análises, mais uma classe, a qual seria a classe dos atributos.
50 Para Longo (2000) os fatores linguísticos analisados foram lacuna lexical, extensão silábica,
animacidade, agentividade, ocorrência de material interveniente, especialização semântica, função sintática e função semântica. Os fatores extralinguísticos, por sua vez, foram o grau de formalidade e período de tempo. Após análise inicial, a autora acrescentou outros fatores extralinguísticos como escolaridade, sexo, faixa etária e década.
2.2.2 Substantivos – fatores que favorecem a passagem do abstrato ao