7. DISCUSSION
7.4 C ONCLUDING REMARKS : C AN THIS DISSERTATION MAKE A DIFFERENCE ?
Embora a minha intenção inicial fosse ficar durante três meses realizando o trabalho de campo, optei por permanecer na escola durante o primeiro semestre de 2014, ainda que as visitas não tenham acontecido em semanas seguidas em função de feriados e eventos ocorridos nesse período e algumas das entrevistas tenham sido desenvolvidas no segundo semestre do mesmo ano. De acordo com Haguette (1987), “trabalho de campo” é o termo usado para diferenciar as pesquisa nas ciências humanas das demais áreas. A autora entende que esta expressão inclui todos os procedimentos de uma investigação num determinado contexto. Assim, compreendi que seria essencial minha permanência durante um tempo considerável na escola para que os participantes da pesquisa pudessem se acostumar com a minha presença, mesmo que esta não deixasse de ser um fator complicador.
Realizei treze observações participantes das aulas de música do 4º ano, com duração de noventa minutos, registrando quatro em diário de campo e nove em vídeo15. Fiz dois tipos de entrevistas com o professor: uma semiestruturada para conhecê-lo e à sua formação; e outra de estimulação de recordação, para identificar e entender as situações que indicou, analisou e refletiu. Além disso, ao término de cada aula, durante o primeiro mês de observação, Ross escreveu explicando sobre o que chamou a sua atenção naquele dia16 (Tabela 2).
15 As transcrições dos vídeos e entrevistas são referenciadas no trabalho desta
forma: (Caderno de Transcrições 1, p. x) ou (Caderno de Transcrições 2, p. x).
16 Os trechos das entrevistas e reflexões escritas do professor são referenciados
no trabalho desta forma: (ROSS, RS, 27/03) – Reflexão Semanal; (ROSS, ESE, 10/04) – Entrevista Semiestruturada; (ROSS, EER 1, 08/07) ou (ROSS, EER 2, 23/09) – Entrevista de Estimulação de Recordação.
Tabela 2 – Etapas do Trabalho de Campo
MÊS AÇÕES REGISTRO
Março 3 Observações 270 min. Diário de campo 3 Reflexões escritas Diário de campo Abril 3 Observações 270 min.
Diário de campo Vídeo 1 semiestruturada Entrevista 10 min. Áudio Maio 1 Observação da aula de música 90 min. Diário de campo Vídeo Junho 3 Observações da aula de música 270 min. Diário de campo Vídeo
Julho
3 Observações da
aula de música 270 min.
Diário de campo Vídeo 1 estimulação de Entrevista de
recordação 106 min. Áudio Setembro 1 estimulação de Entrevista de
recordação 103 min. Áudio Fonte: produção da autora.
4.3.1 Um mergulho de cabeça: observação participante
Considerando os princípios fenomenológicos nos quais me apoio, pensando no significado que o indivíduo confere à sua experiência, compreendi que a observação participante seria uma das técnicas ideais para essa pesquisa, pois conforme Marconi e Lakatos (2010, p. 76) ela “obriga o investigador a um contato mais direto com a realidade” ou, como afirma Flick (2009, p. 207), aquele que realiza a investigação mergulha “de cabeça no campo”. Portanto, esta escolha representa o processo pelo qual passei em sala de aula, conversando e interagindo com o professor de música e os alunos, em cada aula, desde o início.
Outras particularidades da observação participante, apresentadas por Jorgensen (1989 apud FLICK, 2009), são aqui descritas porque definem o papel da técnica nesta pesquisa. São elas: o interesse do pesquisador nas relações humanas com base na perspectiva de indivíduos que estão inseridos no contexto da investigação e a interpretação de acontecimentos tendo o cotidiano do contexto como
fundamento. Em tais condições, o professor de música foi o sujeito participante que trouxe uma visão sobre as situações que aconteceram em sala de aula, o que entendo serem decorrentes daquela realidade.
A teorização do estudo a partir da compreensão da existência humana, bem como um processo investigativo ilimitado, demandando uma atenção constante às situações que ocorrem no contexto de pesquisa, também são características marcantes da observação participante e, consequentemente, deste trabalho. A permanência no campo, outra característica apresentada por Jorgensen (1989 apud FLICK, 2009), possibilitou-me ter mais profundidade no objeto de estudo, questão indispensável numa investigação, pois quanto mais eu estivesse ambientada com a instituição, mais aspectos implícitos seriam evidenciados, evitando a superficialidade.
No entanto, para responder a todas estas características, passei por um processo durante a pesquisa que responde às fases da observação participante apresentadas por Flick (2009). A autora afirma que o pesquisador deve se tornar parte do campo, obtendo mais acesso às pessoas, além de se concentrar cada vez mais em aspectos que respondem à questão de pesquisa. Assim, no primeiro mês de coleta de dados, realizei somente a observação registrando minhas constatações e reflexões num diário de campo, para então adicionar as gravações em vídeo e começar a focar, ainda mais, na análise do docente sobre as situações que indicou, cumprindo os objetivos que propus neste estudo.
Vale destacar aqui as formas de registro das observações que utilizei no campo de pesquisa: o diário de campo e as gravações em vídeo. Durante todo o semestre em que coletei os dados, tomei notas em um diário de campo, entendendo que a sua importância está no fato de apresentar a descrição do que o pesquisador vê, ouve, experimenta e pensa enquanto está coletando o material, refletindo e comentando sobre o que observou (BOGDAN; BIKLEN, 1994; LIMA; MIOTO; DAL PRÁ, 2007). Assim, registrei os detalhes do ambiente e as minhas próprias reflexões acerca do que vi e ouvi.
Sobre as gravações em vídeo, Mead (1963 apud FLICK, 2009, p. 219-220) entende que a câmera em si proporciona um registro abrangente da realidade observada, captando “fatos e processos que sejam muitos rápidos ou muito complexos ao olho humano”. Para a autora esta técnica é uma fonte de dados em si mesma na pesquisa qualitativa. Paquay e Wagner (2001, p. 150) colocam que as novas tecnologias, neste caso as gravações em vídeo, funcionam como “instrumentos de análise particularmente eficazes” para a formação de
professores. Outra vantagem deste tipo de registro está em permitir “uma auto-observação retransmitida, repetida. É uma memória que estimula a reflexão e a análise, individualmente ou em grupo”. Apresentar ao professor Ross as aulas gravadas foi uma maneira que encontrei para que ele refletisse a respeito, respondendo à questão da investigação, a partir da estimulação de sua memória nas entrevistas realizadas.
4.3.2 Da escrita às entrevistas: reflexões do professor
Foram três as fontes utilizadas para registrar as informações a respeito do professor de música, bem como suas reflexões: os pequenos textos escritos por ele; a entrevista semiestruturada; e a entrevista de estimulação de recordação. Desde o início, entendi que o acesso às pessoas seria gradativo, assim como a concentração nos aspectos relativos à questão de pesquisa. No entanto, eu precisava alcançar meu objetivo: compreender, a partir da experiência de um professor de música com uma turma do ensino fundamental na escola pública, os aspectos indicados por ele ao analisar e refletir sobre sua prática, bem como as mudanças que surgiram em sua atuação nesse contexto.
Por esta razão, solicitei ao professor de música que, ao final de cada aula ele escrevesse indicando a situação que chamou a sua atenção de alguma forma, explicando suas razões – material que ele me enviava por correio eletrônico todas as semanas. Entendi, com base em Bogdan e Biklen (1994), que esses textos também se configuram nos dados da pesquisa que têm a sua qualidade e podem ser utilizados na investigação. Ainda que as reflexões de Ross não se constituam como fonte única para a análise no processo investigativo, os autores afirmam que “os dados produzidos pelos sujeitos são utilizados como parte dos estudos em que a tônica principal é a observação ou a entrevista, embora às vezes possam ser utilizados em exclusivo” (p. 176).
As reflexões semanais de Ross se configuraram em um material para estimular a sua memória sobre as aulas, visto que a análise dos dados seria a partir da sua perspectiva sobre o que havia vivenciado. Durante o primeiro mês de coleta, no entanto, as aulas de música do quarto ano não foram registradas em recursos audiovisuais, mas em diário de campo, onde surgiu a necessidade de o professor escrever sobre a sua experiência de cada semana. A partir do segundo mês, quando começaram os registros em vídeo, a técnica da entrevista de
estimulação de recordação tornou-se essencial, substituindo a escrita pela fala do docente.
Para Marconi e Lakatos (2010, p. 80) a entrevista é, em si, uma conversa entre duas pessoas com o objetivo de que “uma delas obtenha informações a respeito de determinado assunto, mediante uma conversação de natureza profissional”. De forma geral, as autoras afirmam que esta técnica tem a intenção de verificar fatos e opiniões a respeito deles, além de identificar aspectos relacionados ao passado, presente e futuro do entrevistado, bem como os motivos pelos quais ele assume determinados ideais. Adotei esta técnica no processo de coleta de dados por considerá-la necessária para a ampliação das informações acerca do professor de música e da sua perspectiva a respeito das aulas registradas em vídeo. Optei, então, pela entrevista semiestruturada e pela entrevista de estimulação de recordação17.
Sabendo que a forma como a entrevista é elaborada varia de acordo com as questões que o pesquisador deseja responder em sua investigação, me apropriei da entrevista semiestruturada definida por Freire (2010) como uma técnica onde
o direcionamento das perguntas não deve apontar para um determinado tipo de resposta, mas pressupor abertura para o inesperado. As categorias em que as respostas serão organizadas e interpretadas serão decorrentes da interação do pesquisador com os entrevistados e com o teor das respostas, isto é, não são definidas a priori, já que há abertura para respostas não previstas (FREIRE, 2010, p. 35).
Realizei a entrevista semiestruturada com o professor de música na quinta semana de coleta de dados. Tomei como base os objetivos da entrevista apresentados por Marconi e Lakatos (2010), e busquei conhecer a formação e atuação profissional dele (tempo passado e presente); o seu projeto com a turma do quarto ano matutino (tempo futuro); além de identificar como ele compreendia fatos que já haviam ocorrido até aquele momento para entender alguns de seus ideais referentes à aula de música.
Em seguida, realizei a entrevista de estimulação de recordação com o professor, tendo em vista a minha intenção de identificar os aspectos indicados por ele ao analisar e refletir sobre sua prática,
observando as mudanças que surgiram em sua atuação a partir de então. Esta técnica é definida por Theobald (2008) como um momento em que os indivíduos inseridos na investigação assistem à gravação em vídeo de uma cena com a qual estavam envolvidos, e conversam a respeito dela. Este procedimento me pareceu favorável para continuar o procedimento iniciado nas reflexões semanais e, por isso, o adotei com o objetivo de estimular a memória do docente através das imagens gravadas que, de acordo com Rowe (2009) permitem a reflexão sobre as mesmas.