• No results found

5. METHODOLOGY

5.3 Q UALITATIVE FIELDWORK

Na qualidade de professor pesquisador, o docente é um profissional que não apenas ensina, mas reflete, analisa e reconstrói a própria prática. Isso quer dizer que ele não se limita à aplicação de teorias em sala de aula, mas confere à sua aplicação igual importância e

atinge, progressivamente, os mecanismos íntimos de suas ações, transformando-os; refaz, portanto,

sua própria capacidade de conhecer, melhorando- a. Melhora sua capacidade de conhecimento e aumenta sua capacidade de aprender (BECKER, 2007, p. 17).

Nessa relação, o termo prática pode ser definido como “ação, execução, exercício [...] realização concreta de uma teoria” (HOUAISS; VILLAR, 2009, p. 596), enquanto teoria é como um “conjunto de regras sistematizadas que fundamentam uma ciência” ou um “conhecimento especulativo sobre determinado assunto” (p. 722). O destaque está no fato de a prática já ser definida como a aplicação teórica, sendo possível inferir o mesmo princípio à atividade profissional do professor, pois esta é a forma ideal através da qual ele se desenvolve profissionalmente à medida que reflete sobre o que faz. André (2008) entende que é na pesquisa que se evidencia a articulação entre teoria e prática para que o professor desenvolva investigações sobre a sua experiência, pois ele é o sujeito “ativo no próprio processo de desenvolvimento profissional” (p. 57).

Essa relação pode acontecer dentro de inúmeras possibilidades. Um exemplo é o de Holgersen e Holst (2013) que, ao discutirem o profissionalismo na formação do educador musical, apresentam uma compreensão a respeito da prática e do conhecimento. E o outro é o exposto por Fink-Jensen (2013) que, diante da proposta de uma estratégia para formar o educador musical, constata uma diferença entre o senso comum e o conhecimento teórico.

Holgersen e Holst (2013), baseados em Dietrich Benner, afirmam que existem três áreas que intercalam a prática e o conhecimento: cotidiana, profissional e científica. Todas se dispõem num processo contínuo no profissionalismo do educador (Figura 1).

Figura 1 – Prática e conhecimento

Fonte: produção da autora.

Percebe-se que em cada área há um tipo diferente de relação entre teoria e prática, onde a presença do conhecimento teórico se torna, gradativamente, mais essencial. Pode-se afirmar que a área denominada como “prática e experiência cotidiana” trata de noções docentes que estão no nível da atuação do professor. Na segunda área, nota-se que o conhecimento vinculado passa do nível cotidiano, requerendo um saber mais aprofundado ao professor sobre como atuar na sua realidade. Os autores afirmam que a prática profissional depende da teoria científica, ou seja, dos saberes práticos necessários ao educador. Por fim, a terceira área é quando a prática profissional torna-se ainda mais complexa e passa a necessitar da presença da ciência e do profissionalismo. Porém, os autores alertam que as teorias não podem ser a única fonte para o desenvolvimento da prática, mas “devem ser consideradas em termos de sua relevância, utilizando reflexão e julgamento” (p. 53)3.

Entendendo que as teorias se configuram no conhecimento sobre determinado assunto, Fink-Jensen (2013), a partir do modelo proposto por Erich Weniger, apresenta a noção de teoria, mostrando a

3 Original: must be considered in terms of their relevance using reflection and

sua relação com a prática, podendo ser colocada em diferentes estágios de atuação profissional (Figura 2). Existem três níveis em que o professor pode relacionar a teoria com a prática: o nível da prática (T1), o nível das teorias cotidianas (T2) e o nível das teorias expandidas (T3). Como profissional, o professor deve ser capaz de usar a teoria nos três níveis, tendo em vista a importância de conhecer e aprender a atuar em cada nível.

Figura 2 – Os níveis da teoria na prática

Fonte: Fink-Jensen (2013, p. 143).

Os dois primeiros níveis (T1 e T2), conforme Fink-Jensen, estão relacionados à atuação docente e ao conhecimento cotidiano. O Nível da Prática (T1) significa que o que o professor conhece, quando entra em sala de aula, está no nível da sua experiência, dos saberes implícitos que vêm de situações anteriores. Desta forma, o docente se apropria deste saber adquirido para lidar com situações pedagógicas.

O Nível das Teorias Cotidianas (T2) é definido por teorias desenvolvidas no decorrer da própria prática cotidiana do docente ou em discussões com colegas de trabalho antes ou depois da aula, ou seja, são conhecimentos e troca de ideias sobre o que funciona nas aulas de música ou podem, ainda, derivar de estudos anteriores e atuais sobre o que é importante em educação musical.

Diferentemente das anteriores, o Nível das Teorias Expandidas (T3) representa teorias já desenvolvidas sobre determinado assunto, baseadas em uma arguição cuidadosa e/ou em resultados empíricos. Essas teorias são ferramentas para reflexão sobre questões pedagógicas que surgem numa situação de ensino, tornando possível ao professor desenvolver sua prática. O docente também pode, neste nível, ser o autor dessas teorias expandidas, partindo da sua atuação (T1) e do conhecimento que adquiriu no seu cotidiano (T2). Com o passar do tempo elas são incorporadas e tornam-se parte do conhecimento do professor.

Considerando a semelhança entre os dois modelos apresentados, é possível entender a figura do professor de música como pesquisador seja no processo entre prática cotidiana e conhecimentos práticos e científicos ou nos três níveis do modelo de Erich Weniger, apresentado por Fink-Jensen (2013). Nos anos iniciais da sua atuação, seu conhecimento se resume à sua experiência cotidiana (Prática e experiência cotidiana/T1) e, no decorrer dos anos, se une àquilo que vai conhecendo com os colegas de trabalho ou dentro da própria sala de aula (Prática e conhecimento profissional/T2). Assim, o docente chega ao terceiro nível, onde a sua prática e o aporte teórico lhe prepararam e formaram para uma prática profissional mais fluente, pois o educador já conhece a realidade na qual trabalha (Prática e conhecimento científico/T3).

Entretanto, esse processo não é linear, mas circular, pois o educador pode transitar constantemente entre as três áreas e/ou níveis. Por exemplo, se ele mudar de uma escola para outra, suas premissas também mudarão, pois a realidade é diferente e serão necessárias outras atitudes. A importância do professor pesquisador está na frequência com que ele não apenas reflete e analisa, mas também age sobre a própria prática, estando aberto a novas possibilidades de atuação.