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A psicanálise retira a sexualidade do domínio natural, do orgânico, ao situá-la no campo psíquico. Isso coloca em xeque a dualidade cartesiana, pois apagam-se as fronteiras entre o corpo e a mente ou corpo e espírito.

Ainda mais, no aporte teórico psicanalítico a sexualidade não se confunde com o genital. Ela designa atividades em vários órgãos. Todo nosso corpo é sexualizado, qualquer parte dele pode ter um alto valor erótico. Neste sentido, Freud subverte a noção de sexualidade de sua época, reconhecido apenas como um instinto biológico com finalidade de reprodução. Para Freud, a sexualidade está presente desde a infância e sob influência do inconsciente. No texto A história do movimento psicanalítico (1914) Freud afirma: “Fomos puxados cada vez mais para o passado; esperávamos poder parar na puberdade, período ao qual se atribui tradicionalmente o despertar dos impulsos sexuais. Mas em vão; as pistas conduziam ainda mais para trás, à infância e aos seus primeiros anos”.

Assim, por exemplo, afirma Speller (2004, p. 23-24), a ação intelectual como estudar, ler, pode estar fortemente erogenizada, em outras palavras, investida de energia libidinal, que é energia sexual da pulsão e força essencial do psiquismo. A psicanálise dirá que somos seres pulsionais, seres do desejo, e como ele nunca se satisfaz por completo, estamos condenados a desejar, sem nunca encontrar um objeto que nos satisfaça totalmente: o que conseguimos nunca é exatamente aquilo que esperávamos.

O conceito de desejo na psicanálise difere radicalmente do conceito e sentido atribuídos ao desejo pelo discurso racionalista moderno.

Enquanto o discurso chamado racionalista procurava afastar o desejo para que a verdade pudesse aparecer na sua pureza essencial, a psicanálise vai procurar

exatamente a verdade do desejo. Sua função é fazer aparecer o desejo que o discurso oculta, e esse desejo é o da nossa infância, com toda a carga de interdições a que é submetido. O único modo desse desejo aparecer, de transpor a barreira imposta continuamente pela censura,é de uma forma distorcida, cujo exemplo privilegiado é o sonho manifesto. O sonho manifesto, assim como os sintomas, são o efeito de uma distorção cuja causa é a censura. É a esse trabalho de distorção que Freud dá o nome de “elaboração onírica” ou “trabalho do sonho”. (GARCIA-ROZA 2008 p. 66).

O desejo move nossas vidas. O ser humano quer desejar e quer que se lhe reconheça o direito de desejar. Freud define desejo utilizando o exemplo do bebê faminto que chorará até que uma presença externa possa satisfazer sua necessidade; somente assim ocorrerá uma mudança na qual a vivência de satisfação cancela o estímulo interno. Assim,

um componente essencial dessa vivência de satisfação é uma percepção específica (a da nutrição, em nosso exemplo) cuja imagem mnêmica fica associada, daí por diante, ao traço mnêmico da excitação produzida pela necessidade. Em decorrência do vínculo assim estabelecido, na próxima vez em que essa necessidade for despertada, surgirá de imediato uma moção psíquica que procurará recatexizar a imagem mnênica da percepção e reevocar a própria percepção, isto é, restabelecer a situação da satisfação original. Uma moção dessa espécie é o que chamamos de desejo; o reaparecimento da percepção é a realização do desejo, e o caminho mais curto para essa realização é a via que conduz diretamente da excitação produzida pelo desejo para uma completa catexia da percepção. (FREUD, 1900, p.602-603)

Tanis (1995 p. 59) afirma que esta citação é paradigmática da noção de desejo para a psicanálise, pois não só indica o momento fundante do desejo, como também alude ao importante papel desempenhado pela memória na constituição do mesmo. O desejo se constitui como desejo-memória; a memória é matéria da condição desejante. Por isso memória e desejo não são variáveis independentes no psiquismo, elas constituem-se numa relação de interdependência.

Aí reside uma das principais contribuições que a psicanálise tem a oferecer ao professor, esse profissional que, influenciado pela pedagogia, muitas vezes pensa existir um método infalível que garantirá a aprendizagem, assegurando-lhe, portanto, o trono daquele que não falha, o trono daquele que sabe ensinar. Para aprender temos que desejar fazê-lo, em outras palavras, nosso desejo tem que ser fisgado por alguma isca. Assim, o bom professor é um bom pescador, aquele que, de alguma maneira, estimula e alimenta a curiosidade da criança, conseguindo despertar-lhe o desejo de aprender. (SPELLER, 2004, p. 25)

Para Lajonquière (2002 p. 119), não há fórmula para germinar o desejo nas crianças. Em outras palavras não há uma receita a ser seguida metodicamente para fabricar realidades psíquicas sujeitas à lei do desejo. Enquanto as psicologias se articulam graças à ilusão de sua possibilidade, a psicanálise não informa como se proceder em matéria

educativa. Porém, a psicanálise nos esclarece sobre aquilo que não devemos fazer, ou seja, traz à cena escolar a questão da “ética” no ato educativo.

O ser humano deseja, pois, sendo um ser de cultura, do simbólico, a satisfação de suas necessidades biológicas passa por um apelo dirigido a um outro, condicionado pela cultura, o que altera o pedido de satisfação da necessidade em uma demanda de amor. Qualquer pedido, qualquer demanda é, sempre, no fundo, uma demanda de reconhecimento por parte do outro de um lugar para a expressão de seu desejo inconsciente, que nunca se satisfaz, só querendo ser realizado, muitas vezes bastando ser falado, escutado, reconhecido, enfim. (SPELLER, 2004, p. 25-26)

Quando ensinamos algo a uma criança, afirma Lajonquière (2002 p. 123), colocamos, por um lado, em ato nossa fantasmática, isto é, a iniciativa do ato cai na conta do desejo do adulto em função educativa. Por outro lado, transmitimos a lógica operativa que transcende o campo fantasmático no interior do qual estamos singularmente tomados como sujeitos desejantes, uma vez que se trata de um pedaço da cultura, um universal, um fragmento de liame social.