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3.2 Arendt og Weber

3.2.4 Byråkrati

Computadores, celulares, fios, ar-condicionado, quadro branco e cadeiras constituíam a sala onde o Centro de Autoacesso Do It Yourself funcionou. Lá era o espaço para usar tecnologias digitais para ensinar e aprender conteúdos escolares... pelo menos era assim que as pessoas que não participavam do centro conheciam aquele espaço até então.

Era mais um dia de funcionamento do centro, no período da manhã... Eu caminhava pela escola quando fui parado por Paulo me pedindo para abrir o centro mais cedo, pois ele tinha que fazer um trabalho da escola. Em tom de brincadeira, falei que achava que ele queria mesmo era jogar nos computadores, então ele riu e me falou para anotar o número do celular dele para a eventualidade de eu precisar falar com ele. Continuei a caminhar pelos corredores da escola e encontrei Marcelo e, do mesmo modo que Paulo, também pediu para que eu abrisse o centro de autoacesso mais cedo, por isso eu perguntei se eles realmente precisavam usar o centro. Ele respondeu afirmativamente, então respondi que faria o possível para abrir o CAADIY antes do horário estabelecido.

Naquele dia, consegui abrir o centro antes de seu horário de funcionamento normal. Contudo, eu não consegui fazer o mesmo todos os dias, devido às muitas atividades que realizava. Por isso, durante todo o funcionamento do centro de autoacesso, vários comentários e brincadeiras surgiram em torno de sua abertura, como consta nos trechos a seguir. Afinal de contas, a ansiedade dos participantes e a necessidade que eles tinham para usar o CAADIY os deixaram inquietos quanto ao seu funcionamento.

13:05. Gilmar, você está atrasado!

Uai, ele já chegou no centro??? 12:50. Gilmar, por que veio tão cedo hoje?

“Ó”, chegou mais cedo hoje. Muito bem, continue assim. Será que teria como você abrir o centro mais

cedo para a gente usar hoje, por favor?

Os usuários me “cercaram” pela escola e pediram para eu abrir o CAADIY mais cedo, acho que estão entediados. “Ô” Gilmar, abre aqui à tarde para a gente.

Você pode abrir o centro mais cedo hoje? Eu tenho que fazer um trabalho da escola.

Gilmar, nós não temos aula. Não fecha aqui não!

Você vai dar aula para qual turma agora? Tenho certeza que eles não querem ter aula não. Você pode dar aula aqui mesmo ou deixar a chave da sala conosco. Você não confia em nós?

Fonte: anotações do autor (jun. 2017). Assim que cheguei à sala do centro de autoacesso naquele dia, percebi que os participantes não estavam no corredor ou nas escadas em frente a ele, como costumavam fazer. Por isso, decidi enviar uma mensagem para o celular de Paulo avisando que eu já estava no CAADIY. Poucos minutos depois, os participantes chegaram ao centro e me cumprimentaram, apertando minhas mãos. Marcelo e Gabriel, sentaram-se nos computadores ao meu lado. Iwanow, Pedro e Wadrian se posicionaram na fileira à nossa frente. Paulo, como de costume, sentou-se na primeira fileira de computadores, logo à frente de Pedro. As demais fileiras, à minha direita, com doze computadores, ficaram vazias.

Gabriel iniciou suas atividades no AutoCAD e perguntou se eu havia conseguido desenhar alguma peça no software com base no que ele havia me ensinado anteriormente. Respondi que não, pois não tinha tido tempo. Marcelo, Paulo e Pedro aproveitaram e pediram a ajuda de Gabriel para fazerem uma tarefa em que tinham que desenhar uma peça mecânica, já que ele parecia conhecer bem aquele software. Ele, por sua vez, os auxiliou.

Os participantes ficaram fazendo suas tarefas no AutoCAD por um longo tempo naquele dia. Marcelo, assim que chegou, prontamente me pediu o fone de ouvido emprestado. Pedro, vez ou outra, cantarolava o trecho de algumas músicas e era acompanhado pelos demais participantes. Em certo momento, cantou o refrão da música Riders on the storm, da banda The Doors. Ao ouvi-lo, eu disse a ele que estava surpreso em saber que ele conhecia aquela música, já que era antiga e havia sido lançada antes mesmo do nascimento dele. Ele, então, respondeu que gostava dela e que a conhecia porque ela era trilha sonora do jogo World of Warcraft.

Alguns minutos depois, os participantes acabaram as tarefas que estavam fazendo e imediatamente acessaram o site do jogo Warcraft para fazerem o download do arquivo que era necessário para começarem a jogar. Enquanto aguardavam, alguns acessaram o site do jogo

Diep.io e outros do Agar.io, pois queriam aproveitar o tempo disponível que tinham antes das

aulas do período da tarde, para se divertir. Ao vê-los jogando esses dois jogos, perguntei ao Paulo qual era o objetivo do jogo. Ele, então, me explicou que o objetivo era comer as outras

bolinhas. Portanto, quanto mais bolinhas o jogador comesse, maior ele ficaria e teria mais poder para comer as outras bolas presentes no jogo. Dito isso, ele ressaltou que só estava jogando aquele jogo enquanto aguardava o download do Warcraft e que iria jogar em rede com os demais participantes do CAADIY.

Curioso, acessei os sites dos jogos para jogar também. Afinal de contas, queria entender o porquê de os participantes gostarem tanto deles. Assim que o download do Warcraft foi concluído, começamos a jogá-lo. Imediatamente, aprendi que eu era um nub, ou seja, um jogador iniciante e inexperiente, pois eu ainda não sabia realizar nenhuma ação no jogo. Como de costume, não perdi tempo e comecei a jogar pela experimentação... pressionei uma tecla, depois pressionei outra, cliquei em um lado, depois cliquei em outro. E assim tentei jogar.

Paulo parecia não ser muito experiente também, por isso, frequentemente, nos identificamos quanto às dificuldades no jogo. Marcelo era o jogador mais experiente, pois já jogava há anos aquele jogo. Por isso, os demais participantes pediam com frequência a ajuda dele. Ele, por sua vez, explicava detalhadamente o que cada um precisava fazer, já que cada jogador estava em um nível diferente no jogo e precisava executar ações e completar missões específicas para subir de nível. Não hesitei e logo pedi ajuda para Marcelo, pois eu estava morrendo com frequência no jogo. Ele, prontamente, veio até minha mesa e me deu algumas instruções sobre o que fazer e quais missões eu deveria completar.

Ante às suas instruções, falei que queria muito voar no jogo, mas ele disse que ainda não seria possível porque eu ainda era iniciante. Em seguida, me ensinou que as teclas W, A, S e D eram para eu me movimentar no jogo e que eu poderia usar os números do teclado para colocar os ataques do lutador, enquanto as magias eu poderia colocar nas teclas Shift + \, Shift + z, Shift + x e Shift + c. Assim que ele me instruiu, eu continuei a explorar o mundo do jogo. Para minha surpresa, os demais participantes também tiveram dificuldade em jogar, embora já não fossem

nubs como eu. Portanto, as interações por causa do jogo no centro foram frequentes:

Alguém pode me ajudar? Eu não sei jogar  Escolha a armadura e o tipo de lutador primeiro.

Em qual mundo do jogo vocês estão? Agora é só entrar nesse mundo e completar as missões.

Ah, você ainda não chegou no nível necessário para ter um dragão. Calma, no começo o jogo é meio chato mesmo.

Marcelo, me ajude aqui. Eu também preciso de ajuda.

Estou sendo atacado por um monte de zumbis. Como bato nesses bichos??? Socorro!!!

Eu morri no jogo, e agora? Você precisa clicar na opção

“liberar espírito” e andar até o cemitério para ressuscitar seu lutador.

Estou “tomando um pau” no jogo. Eu não sabia que tinha uma tecla que fazia

o lutador correr automaticamente. Ninguém me ensinou.

Achei uma lista de teclas de atalhos para várias funções do lutador.

Fonte: anotações do autor (jun. 2017). No centro de autoacesso, enquanto jogávamos ou realizávamos outras atividades, os participantes e eu interagimos de diferentes maneiras. Algumas vezes, alguns deles se mostraram interessados com meu bem-estar, com minha saúde e com o andamento de minha pesquisa. Outras vezes, eles compartilharam seus interesses em comum, seus anseios sobre acontecimentos da escola e as dificuldades que estavam enfrentando. No texto a seguir, apresento algumas das interações que estabelecemos enquanto estivemos no CAADIY.

Gilmar, sabe aquele meu familiar que comentei com você?

Sim, sei sim. O que houve? Ele se casou em um salão de festas lá da sua cidade, chamado Honeymoon. Você conhece?

Não, não conheço esse. Talvez já tenha passado em frente. E como você está ‘se saindo’ no doutorado?

Estou indo bem por enquanto. Daqui a alguns meses eu vou viajar para fazer parte de minha pesquisa no exterior. Sério? Que legal. Parabéns.

Obrigado. Estou ansioso. Estou lendo vários anúncios de apartamentos no exterior porque preciso entrar em contato. Que bom, hein? Falta muito tempo para você ir?

Não, faltam poucos meses. Estou achando interessante a diferença cultural quanto à forma direta de expressar os requisitos para a pessoa alugar os apartamentos no exterior. Esse diz “"procuro pessoa limpa,

Que engraçado. Eles são bem diretos. Pessoal, quais músicas vamos escutar hoje? Vou acessar o YouTube para ver se há algum lançamento. Gilmar, o que você quer descobrir com sua pesquisa?

Eu não sei exatamente o que vou descobrir, mas quero pesquisar o que nós fazemos aqui no centro de autoacesso. Ah, entendi. E quanto tempo ela vai durar?

Bastante tempo. O doutorado dura quatro anos, mas eu só tenho mais dois anos para terminar. Quanto tempo você vai ficar no exterior? Você vai voltar para a escola quando retornar de lá? Vou ficar cinco meses, mas não vou retornar à escola depois. Infelizmente. Que pena que você vai sair. Você podia voltar para cá depois.

Nós somos o que mais estamos vindo ao centro de autoacesso? E você está gostando que eu estou vindo?

Sim, vocês estão vindo com mais frequência e eu estou gostando que você está vindo. Gilmar, você pode me lembrar quais são as teclas que fazem o som do computador funcionar?

Claro, são as teclas Fn + F11. “Ô”, Gilmar. Você está muito calado hoje!

Não, só estou pesquisando algumas informações no Google sobre a minha viagem ao exterior. Por isso que estou mais quieto. Faz um favor para mim. Você pode buscar água para mim?

Claro, estou indo. Fique aguardando. Kkk O que você fica fazendo no computador enquanto nós estamos aqui?

Eu fico na internet, no Facebook, e pesquisando questões do doutorado. Como que liga o som mesmo? Eu esqueci.

É só pressionar as teclas Fn + F11. Obrigado. Você já almoçou?

Sim. Sério?

Sério. “Ah, porque estou preocupado com sua saúde”.

“Ooooaaaa”, essa música que vocês estão escutando é antiga, hein? Sim, é a trilha do jogo Warcraft. “Olha”, o cantor X lançou uma música nova.

É sim. Também gostei. Gilmar, você precisa de ajuda em algo aí?

Não, ‘estou de boa’. Você me ensinou tudo que eu preciso saber por enquanto.

Fonte: anotações feitas pelo autor (jun. 2017). Alguns minutos depois, olhei para o relógio e constatei que faltavam dois minutos para as quatorze horas, por isso, informei aos participantes que precisaríamos encerrar as atividades daquele dia, já que haveria aula de outro professor naquela sala. Eles, então, desligaram seus computadores e se despediram de mim. No entanto, enquanto se dirigia à porta de saída do centro de autoacesso, Paulo sugeriu que eu enviasse mensagem para seu celular todas as vezes que abrisse o CAADIY para que ele e seus amigos soubessem que eu já havia chegado. Diante disso, eu balancei a cabeça em sinal afirmativo e disse que faria como ele havia solicitado. Em seguida, desliguei o ar-condicionado e os estabilizadores de todos os computadores, apaguei as luzes do centro e tranquei a sala.

Fonte: relato do autor [notas de campo e conversas com os participantes, jan. 2018]. Na história que acabei de relatar, as experiências que vivi com os participantes durante o funcionamento do centro de autoacesso parecem ter ultrapassado os lugares comuns do ambiente escolar que, comumente, existem entre professores e alunos, e pesquisadores e participantes. Na instituição em que o CAADIY funcionou, eu era professor de língua inglesa. Portanto, mesmo os participantes que não eram ou tinham sido meus alunos, sabiam que eu era professor na instituição. Além do mais, todos os usuários que frequentaram o centro sabiam que ele fazia parte de minha pesquisa de doutoramento.

A princípio, esses aspectos pareceram irrelevantes para minha pesquisa, já que eu não objetivei investigar as possibilidades de interação entre professor-aluno-pesquisador- participante. Contudo, considerando o caminho da Pesquisa Narrativa, sob o qual realizo esta pesquisa, entendi que esses aspectos estavam diretamente relacionados à construção de currículo que considera as vidas, e as experiências vividas, por todas as pessoas envolvidas em um processo de pesquisa. Por essa razão, apresento e discuto, a seguir, as concepções de currículo como um curso de vidas. Logo em seguida, reconto a história narrada anteriormente tendo tais concepções em mente.