• No results found

5. Presentasjon av funn

5.6 Byrådsavdeling B, nivå 2

Prosseguindo nesta discussão, é necessário discutir a exotopia nos discursos autobiográficos. Bakhtin, como já foi citado, percebe, aí, um grau maior de realismo e, consequentemente a presença da exotopia em menor escala. Anteriormente ao que acima foi citado a respeito da biografia, esse teórico assevera que o autor autobiográfico “deve tornar-se outro relativamente a si mesmo” (1992, p. 35); ou restabelecer os pressupostos da exotopia: o distanciamento entre o autor e a personagem. Reunir o herói em um todo, quando a escrita é autobiográfica, torna-se uma tarefa mais árdua, segundo Bakhtin. Isto porque a exotopia demanda uma atividade mais incisiva no sentido desvencilhar a personagem do autor. No primeiro capítulo sobre o narrador, deste trabalho, já foram delineados alguns pressupostos que asseguram essa dualidade entre essas duas pessoas ficcionais. Entre esses, o pensamento de Bakhtin de que o autor e o herói não se fundem, nesse tipo de escrita, porque aquele que conta administra a distância entre si e o herói: “[...] Não sou o herói da minha própria vida” (BAKHTIN, 1992, p. 127). A necessidade de acabamento é pressuposto para que se consiga

circundar o objeto do relato. Dessa forma, o autor, como promotor desse relato, necessita percorrer os limites da história do herói ou envolvê-la dentro de suas próprias fronteiras. Assim, o autor não pode circundar sua própria história, já que esta se encontra em processo, em constante devir. Instaura-se, então, a necessidade de se divisar a história do autor da história do herói, sendo que somente esta última pode ser esteticamente concretizada. Isto, devido à distância em que o autor se coloca em relação ao que será relatado. Como se deslinda no capítulo primeiro desta dissertação, as narrativas autodiegéticas projetam, automaticamente, essa distância entre o narrador e a história narrada: há um efeito pretérito entre o locutor e o relato. A diferença entre essa visão e o que Bakhtin propõe é que, segundo esse teórico, há, além de um distanciamento temporal e espacial, também um distanciamento entre as pessoas ficcionais: entre aquele que constrói o relato e a personagem desse relato. Assim, Bakhtin aduz o conceito de exotopia, tomando como base a distância atestada em narrativas heterodiegéticas e em narrativas autodiegéticas.

Bakhtin coteja a relação do homem com a vida (ou com o homem), com a relação do autor com o herói. Na vida, a preocupação do homem é com o sentido de suas ações, e não com o seu aspecto estético (de acabamento). Dessa forma, é somente com relação ao outro que se torna possível processar uma totalidade significante, e não consigo mesmo. Bakhtin afirma que “para viver minha sensação, devo torná-la objeto especial de minha atividade” (1992, p. 127). Esse é o escopo da autobiografia: transformar o vivido em um objeto manuseável, em um todo significante. Ao contrário da vivência, que pressupõe uma relação direta com o sentido e com o objeto, o estético demanda o abandono dos “limites de minha tensão interna”; ou seja, devo “situar-me fora dela.” (1992, p. 130). É necessário deixar uma atitude passiva para se alcançar o “ponto de vista formal”, por meio de uma atitude ativa sobre o todo do objeto. A partir desse todo é possível urdir o objeto estético, reorganizando os seus elementos constituintes.

O caráter estético nasce, então, desse distanciamento do objeto: com o herói como o “portador da unidade da vida” e o autor como o “portador da unidade da forma” (1992, p. 178). Bakhtin percebe que, na biografia, o princípio da alteridade do herói não se encontra explícito quando se observa apenas a atividade de resgate de um passado. O autor resgata sua função estética, porém, quando se torna “puro artista”: “quando já rompeu seu laço congênito com o herói, quando se tornou cético ante a vida do herói” (1992, p. 180). É essa postura crítica que assegura a distância entre essas duas pessoas ficcionais. Dessa forma, Bakhtin elucida o teor estético das narrativas biográficas, mas, ainda assim, não facilita a análise, posto que declara que: “a biografia não oferece o todo do herói, pois este não pode ser

acabado no âmbito dos valores biográficos” (idem); ou seja, o vínculo entre essas duas pessoas não é totalmente rompido, mesmo enfatizando-se a postura crítica do autor sobre a personagem. No prosseguimento de análise do romance Dom Casmurro, sublinha-se esse embate do autor Dom Casmurro com a personagem Bentinho, com o objetivo de consolidar o teor estético da narrativa que o primeiro escreve.

Como foi adiantado, Bakhtin, posteriormente,147 em seus últimos escritos, permanece fiel ao pensamento exotópico. A diferença que se faz sentir é que, nessa terceira fase, o teórico redefine as funções: do autor na obra e do autor real. O autor e a personagem, dentro da obra, encontram-se em um mesmo plano, o que favorece o dialogismo. A função do autor real como organizador da unidade da obra garante o aspecto de uma horizontalidade assistida desse autor em relação à personagem. Nesses últimos escritos, Bakhtin ainda discute a possibilidade de o homem encontrar-se consigo mesmo, ou coincidir consigo mesmo, como sujeito e objeto da análise. Assim, ele desenvolve essa questão:

Em outras palavras, o homem fica a sós consigo mesmo, isto é, solitário? Não será nesse ponto que se modifica radicalmente todo o acontecimento existencial para o homem? É efetivamente o que ocorre. Aqui surge algo absolutamente novo: um sobre-homem, um sobre-eu, ou seja, um juiz e testemunha de todo homem (de todo eu) e, por conseguinte, não mais um homem, um eu, e sim o outro. Minha própria refração no outro empírico pelo qual tenho de passar para desembocar no eu-para- mim (poderá ser solitário este eu-para-mim?). A absoluta liberdade desse eu. Mas esta liberdade não pode modificar a existência em sua materialidade (poderia, aliás, desejá-lo?), só pode modificar o sentido da existência (reconhecê-la, dar-lhe sua razão de ser, etc.). É a liberdade do juiz e testemunha. Ela expressa-se na palavra. A verdade, o direito seguramente não são propriedades da existência como tal, mas somente da existência conhecida e verbalizada.148

Essa citação é longa, mas mostra-se importante para o desenvolvimento da pesquisa, porque o embate do sujeito com o seu eu, com o seu outro, somente experimenta êxito no plano do discurso. Assim, a grande dificuldade que Bakhtin identificou para se alcançar o todo do herói na biografia mostra-se possível quando projetada pela palavra. O teórico defende que esse encontro do homem consigo mesmo (o desvencilhar do autor em relação à personagem, nos relatos autobiográficos) ocorre por meio de um embate contínuo, construído pelo discurso do autor.

147 Bakhtin. “Apontamentos 1970-1971”. In: Estética da criação verbal. 148 Idem, p. 377.