Um elemento importante a contemplar, quando se estudam opções no âmbito da saúde, é a literacia em saúde. Literacia em saúde é definida pela OMS como: “as
competências cognitivas e sociais que determinam a motivação e a capacidade dos indivíduos para aceder à informação, compreenderem e usarem essa informação de forma a promover e manter um bom estado de saúde” (WHO,1998, p.10 - glossary). Já
o Consórcio europeu para a literacia em saúde, refere que:
“a literacia em saúde está ligada à literacia no geral e envolve
o conhecimento das pessoas, motivação e competências para aceder, compreender, avaliar e aplicar informações de saúde, de modo a julgar e tomar decisões na vida quotidiana, relativamente a cuidados de saúde, prevenção da doença e promoção da saúde para manter ou melhorar a qualidade de vida.”
(HLS-EU Consortium)
A literacia constitui uma ferramenta de empowerment que inclui variáveis como a motivação e interesse, autoestima, autoeficácia, capacidade crítica, perceção de controlo e de intenções para agir (Hubley et al, 2002 ; Kickbusch et al, 2006).
A literacia em saúde integra um conjunto de competências individuais que podem ser agrupadas em quatro domínios (Nutbeam et al, 2007): o conhecimento cultural e conceptual; a capacidade de ouvir e falar; a capacidade de escrever e ler e, por fim, a numeracia.
Estes domínios incluem ainda várias competências: competências básicas em saúde com aplicação de medidas de promoção da saúde, comportamentos de proteção da saúde e prevenção da doença, bem como de autocuidado; competências do doente para se orientar no sistema de saúde e agir em parceria com os profissionais;
competências como consumidor para tomar decisões de saúde na seleção de bens e
serviços e eventualmente agir de acordo com os direitos dos consumidores; competências como cidadão, através de comportamentos informados para votar, conhecimento dos seus direitos em saúde, advocacia para assuntos de saúde e participação como membro de organizações de saúde e de doentes (Kickbush et al, 2006; Loureiro et al, 2010).
Pode considerar-se a literacia como dotada de carácter dinâmico, na medida em que pode aumentar ou regredir, de acordo com o meio. Nutbeam (2008) elaborou um modelo, o Modelo de literacia de Nutbeam, 2002, que considera três níveis de literacia em saúde:
Nível I – literacia funcional ou básica, que inclui a capacidade de aplicar um nível básico de literacia à análise de materiais relacionados com a saúde, como por exemplo, ler e compreender informação básica transmitida. Uma pobre literacia funcional origina dificuldade em seguir e compreender indicações para uma boa saúde, nomeadamente para decifrar o conteúdo de brochuras e materiais informativos.
Nível II – literacia interativa ou comunicativa, que já encerra algum nível de capacidades cognitivas e para tomar atitudes num ambiente social. Os doentes são capazes de avaliar a informação, podendo inclusivamente “negociar” o tratamento com o médico. Envolve uma utilização independente da informação, com motivação e autoconfiança.
Nível III – literacia crítica, que corresponde a um estádio já bastante funcional e interativo. Comporta capacidades de análise e permite o empowerment. As pessoas com este nível de literacia são capazes de promover o desenvolvimento da comunidade Estes indivíduos conseguem ponderar vantagens, desvantagens e tomar decisões informadas.
Os níveis de literacia, conforme vão sendo mais elevados, vão permitindo maior autonomia e maior empowerment. Mais recentemente, foi proposto um quarto nível de literacia em saúde, a literacia holística, integrando as dimensões da tolerância, compreensão da cultura como uma vertente ampla e multidimensional, consciência ambiental e análise multifatorial do contexto mundial. (Rask et al, 2013).
Detentoras de um bom nível de literacia em saúde, as pessoas são capazes de tomar decisões relacionadas com a saúde, fundamentadas, em qualquer contexto do quotidiano. Assim, os indivíduos identificam, tomam consciência das suas necessidades em saúde e, consequentemente, desenvolvem competências no sentido de promover ambientes saudáveis, conduzindo as suas próprias opções e mudanças de comportamento.
Os determinantes de saúde relacionados com a literacia integram, entre outros, a educação, capacidades individuais, desenvolvimento na primeira infância, envelhecimento, condições de vida e de trabalho, género e cultura.
Contribuem para a literacia, os contextos sociais e culturais em que as pessoas se inserem. A escola, o sistema de saúde, a família, os amigos, grupos de pares e os
mass media são importantes na construção desta capacidade (WHO, 2013; Loureiro,
2010).
Mas grande parte delas pode explicar-se por baixa literacia. Neste sentido, Pollard et
al (1998) referem que os estudantes parecem assumir mais facilmente um
comportamento alimentar adequado, relativamente aos não-estudantes. No entanto, Lappalainen et al, 1998 referem que grande parte dos europeus acreditam não necessitar de alterar os seus hábitos alimentares, considerando-os suficientemente saudáveis o que mostra que, só por si, o acesso à informação não é suficiente para a implementação de hábitos saudáveis.
A consciencialização da relação entre os hábitos saudáveis e o bem-estar é fundamental para o desenvolvimento de hábitos adequados (Conner et al, 1995). As razões que levam as pessoas a apresentar lacunas a este nível podem ser a falta de motivação relacionada com a perceção da pouca relevância do conhecimento, a falta de interesse ou más experiências anteriores, o custo e disponibilidade de tempo e, em alguns casos, obstáculos como o domínio da língua dominante na comunidade em que se está inserido (WHO, 2013).
As intervenções, com estratégias combinadas, de múltiplos intervenientes relevantes, em “rede” e participativos, são especialmente benéficas na promoção da literacia em saúde. (WHO, 2013).
Rudd (2007) considera que os indivíduos que apresentam maiores capacidades de literacia geral têm maior probabilidade de apresentar, também, maiores capacidades de literacia em saúde, registando haver associação entre literacia, fatores sociais e estado de saúde.
A literacia afeta também a perceção de autoeficácia. O nível de literacia afeta diretamente a capacidade para aceder à informação e apreendê-la no sentido de agir preventivamente. Com estas capacidades comprometidas, estará condicionada a adesão aos tratamentos, a procura de ajuda e a capacidade para se movimentar, comunicar e negociar (HLS-EU Consortium, 2012; Mancuso et al, 2008).
Da mesma forma, um bom nível de literacia pode considerar-se uma mais-valia para o indivíduo, gerando melhor qualidade de vida e, por isso, deve ser um elemento a reforçar através de atividades no âmbito da educação para a saúde (Loureiro et al, 2010).
De salientar que a pessoa que possui uma boa literacia em saúde, apresenta também potencial para influenciar os outros e a sociedade em geral (Mancuso et al, 2008). O modelo KAB (knowledge, attitudes, behaviour - conhecimento, atitude e comportamento) foi usado para caracterizar a corrente individualista de educação em
saúde e defende que quanto mais o indivíduo adquirir conhecimento, mais pode existir mudança de atitude e de comportamento. No entanto, a literacia constituirá apenas um dos fatores, apesar de essencial, a ter em conta (Kemm et al, 1991).
A literacia em saúde pode assim ser entendida não como uma condição suficiente para mudança de comportamentos mas como uma condição necessária para que tal aconteça (Santos et al, 2010).
Mais recentemente, surgiu a referência a uma literacia alimentar, que inclui a compreensão da informação contida nos rótulos e conhecimentos de nutrição (Rudd, 2007).
Atualmente, faz sentido falar também de eHealth literacy, uma vez que a sociedade tecnológica trouxe consigo múltiplos meios para aceder a informação online. Neste caso, fala-se na capacidade para procurar, encontrar, compreender, avaliar a informação disponível nos meios eletrónicos, aplicando esse conhecimento para a manutenção e resolução de problemas no âmbito da saúde. Os jovens, de um modo geral, possuem acesso facilitado a fontes de informação e apresentam elevada capacidade para usar os meios disponíveis. No entanto, o facto de ter a possibilidade de aceder facilmente à informação eletrónica de saúde (eHealth), não garante que os mesmos sejam capazes de a selecionar e utilizar adequadamente. Num estudo de Stellefson et al (2011) verificou-se que, apesar das evidentes competências para procurar a informação, a perceção que os jovens apresentavam quanto às suas capacidades de literacia eHealth apresentavam incongruências, não correspondendo ao registo de capacidades reais.
A literacia eHealth combina as capacidades-base ou tipos de literacia: literacia tradicional, literacia em saúde, literacia informacional, literacia científica e literacia computacional (Stellefson et al, 2011).