A origem e uso dos salmos são questões bastante controvertidas entre os eruditos. Alias, até o termo culto19 é “uma dessas palavras de jargão debatidas nos estudos bíblicos. A maioria das vezes os estudiosos empregam o termo sem dar qualquer conteúdo claro”20. Assim, nossa preocupação não se volta para essas questões, apenas queremos ressaltar algumas implicações, partindo do pressuposto que os salmos sempre estiveram intimamente associados à religião-liturgia em Israel.
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Steurnagel, A Palavra de Deus e a busca por modelos de liderança, in: STEURNAGEL; SOUZA. Nova
liderança - paradigma de liderança em tempo de crise, 2003, p.20 18 SELDERHUIS, op. cit., p. 42
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Conforme Smith, muitos teólogos preferem o uso da palavra “culto” ao invés de “adoração”. Ele menciona como exemplo: Eichrodt, Von Rod, Jacob, Vriezem, Zimmerli e Westermann (Ver Smith, op. cit., p.303)
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Entretanto, a tentativa de relacionar alguns salmos a um contexto templo-culto, certamente, é questionado por alguns. Mas não se pode negar que culto-liturgia transcende em muito a esfera local-tempo do santuário. Assim, a vida religioso-litúrgica se confundiu, em muitos aspectos, com a própria identidade da nação israelita. Ao admitirmos esta evidência, estamos prontos para reconhecermos que havia na vida religioso-litúrgica de Israel um espaço-tempo para o processamento da dor. Na espiritualidade dos salmos há, portanto, lugar para o desabafo, o questionamento, a angústia, o medo e o choro que se torna em grito.
Quando olhamos para o protestantismo brasileiro atual constatamos facilmente, que ao contrário das Escrituras, não há lugar para o lamento na vida religioso-litúrgica. Parece-nos que “o livro de todos os santos”21 é um tesouro perdido. Alguns poderão protestar, evocando exemplos do uso dos salmos na liturgia de certos grupos. No entanto, nossa preocupação não se limita ao uso dos salmos numa liturgia formal, mas chamar a atenção para o fato de que o lamento é um corpo estranho, tanto ao protestantismo influenciado pelo iluminismo, bem como pela teologia da prosperidade.
A influência iluminista sobre a igreja levou-a para uma espécie de racionalização da dor. Sempre que um justo contemporâneo começa o exercício do lamento ele será desestimulado por chavões “piedosos”, tais como: “Deus sabe o que é melhor para você”, ou “tudo coopera para o bem daqueles que amam a Deus”. Sem entrarmos no mérito da hermenêutica, percebemos que não há nenhuma preocupação com a angústia do que sofre, a pretensa solidariedade é apenas retórica. Como Souza se referiu aos amigos de Jó: “Não estão interessados na verdade nem em Jó. Estão muito mais interessados em provar e sustentar seus esquemas teológicos do que em buscar a verdade e compreender a dor e o sofrimento do próximo”. Provavelmente, bastar-nos-ia a experiência de C.S Lewis, pois que diferença é escrever uma obra com “partes notadamente especulativas”, além de partes que julga “estar expondo uma vez mais doutrinas antigas e ortodoxas”22, em que sua tese pode ser maximizada em: “O sofrimento é o megafone de Deus para falar ao coração dos insensíveis”. E outra obra na qual registra sua traumática experiência, a saber: A anatomia de uma dor23.
Aliás, não deveria causar surpresa à racionalização da dor pela igreja sobre a influência iluminista, pois o iluminismo gestou uma sociedade tecno-científica, iconizada no super-homem. É irônico que a crítica ao cristianismo de que a igreja legitimava e cooperava para a perpetuação da fraqueza, receba agora uma versão religiosa às avessas. Porque, hoje,
21 MCCANN, op.cit., p.14
22LEWIS, O problema do sofrimento, 2006, p.16
23 Esta obra é a publicação do diário C.S.Lewis na qual ele expõe a dor, crise e questionamentos que
para muitos, não se concebe mais nenhuma manifestação do sofrimento (fraqueza). Por isso, não é só na teologia da prosperidade que o lamento é visto como falta de fé.
Se a influência iluminista é uma realidade no protestantismo brasileiro, o que dizer, então, da influência da teologia da prosperidade? Ela esta escancarada na mídia gospel, na pregação, nos cânticos “espirituais” e nos livros de missionários, bispos e “apóstolos”. Talvez, não haja nenhum seguimento do protestantismo que não receba fortemente esta influência. Parece-nos que a penetração desta teologia em redutos conservadores (protestantismo histórico e pentecostalismo clássico) tem se dado mais através dos “cânticos espirituais”. Nestes cânticos, evidentemente, não há espaço para dor e o sofrimento, considerando que geralmente são cânticos de vitória que expressam um discurso triunfalista, baseado numa versão moderna da escatologia realizada.
Outro aspecto que nos ajuda a perceber a influência da teologia da prosperidade são, certamente, os testemunhos. Enquanto a palavra testemunho em Atos, por exemplo, nos reporta a ação libertadora de Deus no contexto de grande perseguição e sofrimento em face da pregação do evangelho, os testemunhos modernos falam de prosperidade financeira, numa evidência clara de que, para muitos, a igreja é a versão religiosa do mercado.
Ao pintarmos, sucintamente o quadro litúrgico-religioso do protestantismo brasileiro, entendemos que a hermenêutica calvinista, a partir dos salmos de lamento, torna-se pertinente à medida que enfrenta e expõe a dor do salmista, quando reconhece a legitimidade do justo em verbalizar suas crises e sofrimento, ao sinalizar com a possibilidade, mesmo que momentânea, de que o Senhor nos trata como se tivesse nos esquecido. Provavelmente, a maior pertinência da hermenêutica calvinista seja percebida na preocupação de Calvino com os refugiados. Pois, ele não espiritualizou nem racionalizou o sofrimento de milhares que eram vítimas do conflito religioso de seus dias. Logo, se Calvino não admitisse a dor, e não criasse espaço para o seu enfrentamento, sua diaconia não seria tão expressiva.
Queremos, ainda, ressaltar que nossa discussão pouco tem a ver com uma mudança na forma litúrgica, isto é um problema das denominações que devem levar em conta suas tradições. Além disso, uma mudança litúrgica, meramente formal, apenas serviria para fomentar o que muitas igrejas, fruto de competitividade, estão procurando: “Modelos litúrgicos alternativos, como se fossem “grifes” disputando o seu espaço no mercado religioso. É preciso inovar para competir, para manter-se no mercado”24. Por outro lado, pelo menos para as igrejas que se dizem calvinistas, não seria nenhuma inovação o uso sistemático
dos salmos na liturgia, pois isto foi exatamente o que constituiu uma das marcas distintivas da liturgia de Genebra. No entanto, nossa preocupação é muito mais com uma teologia litúrgico- religiosa, ou seja, faz-se necessário encontrar um local-tempo para a manifestação, enfrentamento e legitimação do lamento.