Ao estudarmos os salmos de lamento, percebemos claramente a presença de uma crise intensa vivenciada pelo orante, fruto de algum conflito. Este conflito torna-se mais traumático à medida que o prolongamento do sofrimento leva o salmista a eleger Deus como seu principal adversário, o que pode ser percebido facilmente, por exemplo, no salmo 13 onde dos quatro pungentes (até quando) os dois primeiros referem a Deus. Deve-se compreender que a problemática causa-efeito do sofrimento é o ponto central da teologia do lamento. Pois, como aceitar e entender a dor se o salmista é integro. Certamente, não se questiona que ele seja pecador, mas sim a relação direta de um pecado com a sua responsabilidade no sofrimento. Por isso, não devíamos estranhar que, no desenrolar da trama do lamento, a crise assuma uma conotação teológica.
A questão enfrentada pelo salmista é como continuar a sustentar à aliança com Deus, se não há nenhuma evidência da ação divina? Além disso, este problema é agravado porque o orante e seus adversários comungam da teologia da retribuição (ou barganha). Teologia esta que se apresenta tão bem exposta nos diálogos entre Jó e seus amigos. A questão é: Como pensar diferente? Não tinha a teologia da retribuição ampla fundamentação na Torah? As Escrituras não eram tão claras em prometer as bênçãos sobre o justo e as maldições para o desobediente? Portanto, aparentemente, toda a questão pode ser resumida a um mero silogismo. Assim, o salmista é levado a concluir de que Deus precisa ser convencido de sua inocência, porque parece que isto não está tão evidente a Ele.
9AMORESE, op. cit., p.12
Apesar da teologia da retribuição encontrar certa legitimidade nas Escrituras, ela deixa transparecer uma relação utilitarista, pois “é uma teologia que leva o homem a buscar e servir a Deus pela recompensa que pode receber e não pelo amor e afeto desinteressado que tem pelo Senhor”10. Por isso, a crise do salmista é essencialmente teológica, tendo em vista que sua teologia lhe serviu durante anos para interpretar sua prosperidade, mas agora lhe não oferecia respostas para seu conflito.
A crise do salmista é levada a sério por Calvino, em parte pela sua abordagem literal, em parte porque ele tem como chave hermenêutica a abordagem espelho da alma11. Desta forma, Calvino foge da espiritualização da dor, antes pelo contrário, no seu comentário do salmo 13, admite que o salmista fala motivado, sobretudo pela “angústia de sua própria mente, queixando-se de ser negligenciado por Deus”12. Ele segue argumentando que quando nos encontramos “sobrecarregados com calamidades”, e não visualizamos nenhum sinal do auxílio divino, por longo tempo, o pensamento de que “Deus se esqueceu de mim” se impõe sobre nós. Logo, ele não tem nenhuma dificuldade em reconhecer que Davi “até onde possa ser julgado à luz do real estado de suas atividades estava de fato esquecido por Deus”13. Calvino, então, assim como os salmos de lamento, admite que a teologia da retribuição não seja suficiente para dar resposta à crise do justo.
Já o protestantismo brasileiro tem esboçado claramente uma tendência em que “o mercado é quem decide a agenda da igreja”14. Nesta agenda, em que transforma a religião em mais um dos artigos da concorrida prateleira do consumo, a teologia da retribuição é reinterpretada sob a teologia da prosperidade15. Esta visão teológica, baseada fortemente na filosofia e na ética neoliberal, encontra adeptos fiéis e ardorosos defensores, praticamente, dentro de todas as denominações. No entanto, parece que Valle tem razão, quando elege a IURD e o bispo Macedo, “por sua obra e seus escritos, como seu principal porta-voz e divulgador na América Latina e no Brasil”16.
Obviamente, neste trabalho, não temos nenhuma condição de analisar esta teologia. Apenas queremos ressaltar um aspecto, dentro de vários, que os críticos desta teologia vêm
10
SOUZA, O caminho do coração, 2004, p.33
11 Ver nota no início do capítulo I. 12
CALVINO, op.cit, (v. 1), p.262
13Ibid, Idem
14SOUZA, op.cit., p.18
15Conforme Ramos, a teologia da prosperidade surgiu nos E.U. A, entre as décadas de 60 e 70. Kenneth Hagin
seria seu mais famoso formulador, ela “prega o direito do cristão à plena saúde e riqueza (prosperidade se torna em aval do abençoado por Deus), do ponto de vista capitalista, com direito a toda a acumulação e ostentação inerente ao sistema. Pobreza e enfermidade são subprodutos da falta de fé”. E ver Ramos, Nossa igreja
brasileira, 2002, p.25. 16
apontando: a fragmentação e perda da autoridade das Escrituras. Pois, a teologia da prosperidade relativiza a “Palavra de Deus, quando sempre e somente se anuncia a saúde e a conquista, a benção e a prosperidade”17. Deixa-se, portanto, de pregar as implicações e perspectivas da cruz de Cristo para a igreja e a humanidade que necessita de reconciliação com Deus.
Calvino, diferentemente, reconhece que os vários gêneros nos salmos servem para “estruturar nossa vida”, mas, principalmente, “nos ensinarão e nos exercitarão para podermos levar a cruz; e levar a cruz é uma genuína prova de nossa obediência”. O compromisso de Calvino com a cruz é tão evidente na leitura dos Salmos que Selderhuis sustenta a tese de que para o reformador: “A marca da eleição é opressão, desgraça e exílio forçado, em resumo, a marca da eleição é a cruz”18. Considerando que para Calvino a cruz é instrumento não só de justificação, mas também, de santificação (mortificação), não é de se admirar que ele seja tão enfático. Portanto, tendo em vista, o lugar que ocupa as Escrituras na hermenêutica de Calvino, entendemos que ela seja pertinente ao protestantismo brasileiro que necessita resgatar a autoridade da Palavra de Deus. Autoridade que deve ser levada a sério, não só quando faz promessas de bênção e prosperidade, mas ainda, ao deixar patente que a espiritualidade do justo passa pelo “vale da sombra da morte”, por conflitos e crises. Espiritualidade que convida o justo ao exercício da fé mesmo diante do mistério do sofrimento.