Existem três tipos de coleccionadores: os profissionais ou proprietários de colecções, os mecenas e os coleccionadores amadores.
Os profissionais contam com o apoio de alguém que conhece e acompanha o mercado, que tem uma estratégia de aquisição e conservação e que faz opções que se revelem as melhores e as mais oportunas em matéria de valorização segura.
Os mecenas, adquirem as peças, despendendo, por vezes, de quantias exorbitantes para protegerem os criadores e as suas obras.
Os coleccionadores amadores ou natos são aqueles que adquirem, peça a peça, a sua colecção fazendo com que esta forme uma espécie de rede de conhecimentos e memórias que reflectem a sua própria personalidade. São colecções constituídas com paixão para deleite do próprio coleccionador.
João Carlos Abreu é, sem dúvida, o coleccionador nato. Como o próprio refere:
“Coleccionar tem de ser uma coisa sentida, entusiástica (…) O facto de eu
coleccionar tem a ver com a minha alma, com a ocasião – estava ali, gostei da peça, vou comprar para me fazer companhia. Aqueles que têm dinheiro e encomendam as peças através de especialistas são, do meu ponto de vista, mais investidores do que coleccionadores. Eles não compram aquilo que gostam e sentem mas aquilo que ceratamente vai, com o tempo, valorizar e consequentemente rentabilizar. Quando se colecciona por encomenda as peças valem pelo dinheiro e não pelas vivências, não pelas histórias que contam. Um coleccionador rico que encomenda as suas peças, tem dinheiro para fazer tudo legalmente. Eu não. Comprei coisas quase na clandestinidade. Algumas vezes nas alfândegas dos países perguntavam-me o que tinha a declarar, onde tinha comprado esta ou aquela peça, se tinha sido, por exemplo, adquirido
Divulgação – há que ter em conta o tipo de públicos aos quais apresentamos e expomos, o sítio onde a colecção ficará exposta (associações, instituições, media, empresas, museus, feiras) e o “passa-palavra”.
num convento…Na generalidade respondia que tinha sido um amig. Nunca sabia onde ele estava nem muito menos o seu nome…
As cruzes da Rússia, por exemplo, que me prenderam no aeroporto e fui sujeito a um longo interrogatório…Acabei por ficar a saber que uma das cruzes tinha mais de 1000 anos…Essas histórias é que são importantes porque fazem parte das minhas vivências.
E isto os “pseudo-intelectuais” não entendrão nunca. Ao contrário os verdadeiros intelectuais, porque são pessoas simples, grandes e despretensiosas, entendem, admiram e louvam.
Que gozo é que tem, pegar no telefone e encomendar peças sem nunca as ter visto? Não há histórias nem vivências. Entre o coleccionador e o objecto, tem de haver empatia, tem de existir uma relação humana.
Comprar uma peça por 1000 contos e às prestações é outra coisa! É por isso que a minha colecção, hoje no “Universo de Memórias”, tem muito valor para mim…tem alma, história, vivências e sobretudo muito entusiasmo.”
Não obstante a tudo o que foi dito, João Carlos Abreu por vezes aconselha-se acerca de determinadas peças que pretende adquirir, não para que se rentabilizem no futuro mas para se certificar se aquilo que gosta vale o preço que custa.
“Tenho um amigo que tem um antiquário em Roma, na Praça Navona, que conhece bem as peças. Por exemplo as urnas de Sèvres da “Sala de Jantar” foi ele que mas vendeu. Custaram cerca de 4000 contos e estavam certificadas, tal como os lampadários com reflectores em prata que também vieram certificados e custaram 5000 contos. Com o tempo fui conhecendo muitos antiquários que por vezes aconselham-me sobre a qualidade de determinadas peças, evidentemente mediante as minhas posses. Se tivesse dinheiro teria comprado peças fabulosas. Um dia um antiquário em Paris disse-me uma coisa curiosa – “nenhuma peça é original, porque foram todas elas copiadas de outras. Elas têm anos, são mais ou menos antigas”.”
Coroline Clifton-Mogg, no seu livro “ A Passion for Collecting”, sistematiza os coleccionadores em nove géneros - antiquários, exploradores, herdeiros, perfeccionistas, naturalistas, utilitários, entusiastas, decoradores e miniaturistas. Tendo por base esta seriação, vamos tentar classificar o tipo de coleccionador que é João Carlos Abreu.
Sabendo de antemão que é um coleccionador de memórias, perguntamos-lhe se ele se identificava com algum desses tipos de coleccionadores.
Quanto aos “Antiquários”, definidos por Caroline como aqueles que descendem directamente dos coleccionadores do renascimento e do século XVIII, João Carlos Abreu identifica-se na totalidade com eles até porque, durante algum tempo, adquiriu peças com o intuito de criar um antiquário.
Os coleccionadores “Exploradores” procuram algo diferente do seu habitat natural. João Carlos Abreu também é explorador na medida em que colecciona objectos étnicos e outras curiosidades de todo o mundo.
No que diz respeito aos “Herdeiros”, João Carlos Abreu disse-nos que não se identificava com este tipo de coleccionador. No entanto, nós não somos da mesma opinião uma vez que duas das colecções, hoje no “Universo de Memórias”, foram oferecidas por amigos seus – as máquinas de escrever e os chapéus. São portanto, duas colecções herdadas mas que não deixam de ser memórias de um coleccionador.
Os “Perfeccionistas” querem somente o melhor e o mais perfeito. João Carlos Abreu não tem qualquer paralelismo com este tipo de coleccionador. Aliás, ele próprio respondeu-nos quando o interrogamos acerca do seu perfeccionismo como coleccionador: “Nunca, Deus me livre!”.
Por coleccionadores “Naturalistas”, Caroline define aqueles que extraem os seus objectos do mundo natural, sejam minerais, flora, fauna ou obras de arte. Podemos identificar João Carlos Abreu como sendo um pouco naturalista, na medida em que na definição da autora também estão incluídas as obras de arte.
Os “Utilitários” vêem a beleza dos objectos práticos e funcionais, usados normalmente no nosso dia-a-dia. Este tipo de coleccionador é, sem sombra para dúvidas, o género de João Carlos Abreu.
Os “Entusiastas” são coleccionadores versáteis, que não podem resistir a tudo o que lhes apela, desde livros a banjos. São os descendentes de todos aqueles proprietários dos Gabinetes de Curiosidades26. João Carlos Abreu identifica-se com este tipo de coleccionadores, desde que tenha dinheiro.
26 Os Gabinetes de Curiosidades eram uma espécie de galerias de arte um tanto indisciplinadas e pouco organizadas,
vocacionadas tanto para mobiliário, escultura, joalharia, como para história natural e ciência. Apesar da indisciplina e desorganização, os Gabinetes de Curiosidades correspondiam a espaços privilegiados do conhecimento sem o espartilho das disciplinas imposto pelo homem moderno do século XVII. Podemos dizer que os Gabinetes de Curiosidades deram origem, por um lado ao gabinete de história natural que culmina no museu de história natural e por outro ao atelier do artista e consequentemente ao museu de arte. Nestes espaços aparecem já preocupações associadas à colecta, classificação e preservação do objecto natural ou artificial.
Os “Decoradores” têm a habilidade especial de transformar todo o espaço com as suas essências decorativas. Quando questionamos João Carlos Abreu acerca da sua aptidão para transformar os espaços com os seus objectos, respondeu-nos: Sim, desde
muito novo. Desde a altura em que transformava tudo em casa dos meus pais.
Finalmente, os “Miniaturistas”, fascinados pelo diminuto – pinturas minúsculas, medalhinhas, caixas de rapé e de comprimidos, ou peças em cerâmicas. João Carlos Abreu é sem dúvida igualmente um Miniaturista.
2.4.A vocação do coleccionador
Segundo Jean Poirier (1998:150), para se ser coleccionador também é preciso ter vocação. Há quem nasça coleccionador e a tradição aqui pode ter um papel importante, na medida em que há famílias de coleccionadores como há famílias de médicos, músicos ou de pintores. A propensão de coleccionar por vezes está também ligada ao ofício e ao acaso. O ofício pode incitar às séries profissionais e o acaso despertar a vocação adormecida dentro de alguém.
Quisemos saber se estes três factores foram importantes ou mesmo decisivos para João Carlos Abreu ao longo da sua vida de coleccionador.
Quanto à vocação, respondeu:
“Meu pai coleccionava moedas, selos, isqueiros, livros, principalmente livros policiais já que, para além de jornalista, também era oficial de investigação da Polícia de Segurança Pública. Esta leitura contribuía para a sua formação profissional. Eu achava essas suas colecções chatas, muito organizadas e infindáveis. Minha mãe “coleccionava” vestidos, sapatos e carteiras…era uma verdadeira doença e não usava a maior parte deles.”
Quando lhe questionamos se o facto de coleccionar estava mais ligado ao acaso ou à profissão, … responde-nos simplesmente: “Ao acaso, às minhas vivências! “Salientou, no entanto, que o acto de coleccionar nasceu consigo mas, “refloresceu naquela viagem
com as gibraltinas27.”.
Destes depoimentos podemos tirar várias ilações. João Carlos Abreu desde pequeno que se familiarizou com a aquisição de objectos e, provavelmente já nasceu
com essa predisposição. A diferença esteve no objectivo dessa aquisição porque, o pai comprava com o propósito de coleccionar de forma organizada, a mãe, num acto de consumismo.
João Carlos Abreu misturou influências paternas e maternas originando um vírus incubado, chamado coleccionismo, que despertou “naquela viagem com as
gibraltinas”.
2.5. A memória
“Cada colecção é um teatro da memória, uma dramatização e uma mise-en- scéne passados pessoais e colectivos, de uma infância relembrada e da lembrança após a morte. Ela garante a presença dessas lembranças por meio dos objectos que evocam. É mais do que uma presença simbólica: é uma transubstanciação.” (Blom 2003: 219)
Apesar da palavra memória28 ter uma série de significados, em várias áreas do conhecimento como a história, a psicologia, a informática e a arquitectura, este estudo vai incidir sob o seu conceito enquanto património do indivíduo.
A pertinência desta estudo, justifica-se pelo facto de toda a colecção do “Universo
de Memórias João Carlos Abreu” ser resultado das memórias vividas pelo do seu doador.
2.6. O coleccionador e o objecto
A aquisição de um objecto, por parte do coleccionador, é uma acção de resgate na qual o objecto passa a integrar novas relações de afecto e pertença num contexto que visa a sua salvaguarda e continuidade. É neste sentido que achamos que essa espécie de usurpação do objecto da sua função original é colmatada pelo estatuto que ele passa a ter a partir do momento que é incorporado numa colecção. O objecto preservado, conservado, documentado e amado é imaculado pelo seu coleccionador e passa a
28A palavra memória, de origem latina, é formada pelos étimos memor, oris (que se lembra, que se recorda, que adverte, que traz à memória, reconhecido, grato) e memoria, ae (memória, lembrança, linhagem, registo, tradição). Na mitologia grega, a memória era, a mãe da poesia e a musa épica, bem como um dom a ser exercitado que necessitava de técnicas para relembrar e guardar o que lhes interessava.
transmitir a sua própria identidade pois traz consigo toda a carga de significados que perpetuarão e transmitirão a sua função original, identidade e memória.
Entre o coleccionador e o objecto estabelece-se uma relação pessoal e única, uma união quase mística.
A colecção de João Carlos Abreu, tal como a maioria das colecções, é o espelho do seu coleccionador. Cada objecto reflecte a alma do coleccionador, a sua essência artística e criativa, os seus gostos ao nível de viagens e livros, o seu sentido de humor.
A relação existente entre o objecto e o coleccionador pode estar, não na peça propriamente dita, mas na carga emocional que ela possa transmitir, seja pelas circunstâncias decorrentes em que foi oferecida ou adquirida, seja pelo que representa ou representou para a pessoa que o ofereceu ou adquiriu.
Das 36 colecções, João Carlos Abreu referiu que a peça mais importante para si é uma mesa, que se encontra hoje na “Sala Roxa” do “Universo de Memórias”. Essa mesa, com cerca de 200 anos, pertenceu ao seu avó materno. Esta é uma peça que passa completamente despercebida à maioria das pessoas, no entanto a carga emocional que ela transmite ao coleccionador faz com que seja uma das peças mais valiosas do seu espólio. Daí que, mais importante para o coleccionador que o valor real de cada objecto, é o valor sentimental, a história que conta, a quem pertenceu, …
Outro aspecto importante é o facto do coleccionador saber exactamente aquilo que gosta e que pretende adquirir, por isso raramente é influenciado por modas, sabendo normalmente remar contra a corrente para ser fiel à sua própria inspiração. Neste aspecto João Carlos Abreu é peremptório:
“Só compro algo que me diga alguma coisa e goste (…) Que deve estar dentro do meu orçamento. Mesmo que eu fosse milionário, as modas e o marketing não me influenciariam. Por exemplo, eu gosto muito dos quadros do Picasso, do Salvador Dali, do Miró, do Giorgio, de Chirico … Mas, mesmo que pudesse
adquirir não os queria todos na minha casa, porque de muitos deles não gosto. Eu só tenho aquilo que gosto, quero e posso.”
O apego às peças é tão forte que o coleccionador raramente se separa delas e só excepcionalmente as vende. Quando essa ruptura acontece acarreta um sentimento de culpa muito grande:
“Vendi uma coroa de prata, grande com pedras semipreciosas encrustadas, do
Senhor Espírito Santo dos Açores… Era linda e tinha comprado a uma amiga açoriana, a Maria Mendonça …Fiquei muito triste. Vendi a uma outra amiga minha da Suiça, que insistiu tanto, tanto que acabei por ceder por 20 contos. Arrependo-me até hoje!”
Não obstante ao apego que sentia pelos seus objectos, João Carlos Abreu acabou por doá-los e é essa dualidade de personalidade que também o distingue da grande maioria dos coleccionadores:
“Apesar de tudo eu tenho um desprendimento material. Na vida nada nos pertence, é preciso ter uma boa filosofia de vida. Eu tinha aquelas peças, mas nunca senti que eram só minhas. Vender também não queria e tão pouco que se dispersassem. Tenho noção do meu estatuto temporal e sei que nada disto nos pertence. Gosto de ver que tudo está bem cuidado e continuo a dar coisas
a amigos meus.”
Poderemos ainda considerar João Carlos Abreu um coleccionador extrovertido, devido à necessidade que tem de se exteriorizar, de mostrar a sua colecção e os seus objectos com uma certa vaidade e exibicionismo. Isto mais uma vez reflecte todo o seu percurso de vida e a necessidade de ser, como quase sempre foi o centro das atenções do seu círculo de amigos, conhecidos ou mesmo colegas de trabalho.
Por outro lado, João Carlos Abreu também tem o seu lado introvertido, mantendo determinados objectos distantes de tudo e todos e minimizando o valor daquilo que possui. Quando o interrogamos acerca de haver uma colecção secreta, só sua, longe dos olhares curiosos, depois de alguma hesitação, disse: “Tenho…algumas pinturas e uma
pequena colecção de anjos.”, Perguntamos-lhe se tinha havido alguma peça que não tivesse tido coragem de doar e, novamente hesitou:
“Houve…uma cristaleira holandesa, rara, com cerca de 200 anos…mas
um dia destes vai para o “Universo de Memórias”. Gostaria que ficasse na “Sala de Jantar” a meio dos “criados mudos”…Mas ainda não consegui me desfazer…”.
2.7.A memória e o coleccionador
No acto de coleccionar há um apelo constante à memória. O coleccionador não se apodera apenas do objecto, mas de todos os significados e memórias a ele ligados, construindo recordações, recolhidas durante uma vida. Ele colecciona a sua própria existência, interrelacionando o passado, o presente e o futuro.
A memória é, antes de mais, recordação e lembrança. E, como lembrar é seleccionar, é escolher, cada indivíduo selecciona e regista aquilo que lhe é mais importante preservar. Neste sentido, o papel de uma colecção enquanto representação de memória do indivíduo é criar algo que possa preservar aquilo que foi definido pelo indivíduo como relevante.
A respeito do significado que as peças representam, João Carlos Abreu defende que estas lhe fazem reviver determinados momentos agradabilíssimos da sua vida alegando que são memórias e emoções que perpetuam as suas vivências: “a minha vida
está ali, feita de muitas histórias. Estão ali muitas etapas da minha vida relacionadas com o turismo da Madeira.”.
Doar uma colecção é a forma de garantir a permanência, do objecto e do seu coleccionador: “Estas peças que enfeitavam a minha vida agora enriquecem a vida dos
outros.”.
O problema está na maneira como esta vai ser gerida por quem recebe, já que o conteúdo do objecto expressa-se no confronto do seu valor de culto com o seu valor de exposição.
A memória do coleccionador não é a mesma daquele que recebe a doação. Se a colecção doada se destinar à exposição pública é imprescindível que os objectos transmitam a personalidade, experiências e vivências do seu doador, caso contrário a colecção perde o seu valor de culto: “Por isso as visitas guiadas ao “Universo de
Memórias” não fazem sentido sem serem contadas as histórias de determinadas peças.”.
2.8.Doação
O verdadeiro coleccionador não se deve alienar do seu acervo, excepto se o mesmo se destinar a integrar outras colecções ou for doado e tenha garantia de que vai ser tratado convenientemente. Com receio que as suas colecções se dispersem após a sua morte, muitos coleccionadores acabam por doá-las. É neste sentido que muitas colecções acabam por ser doadas a museus ou mesmo transformadas em instituições museológicas.
No caso da doação do acervo de João Carlos Abreu, para além dos factores já citados, o factor decisivo foi o pedido que o Presidente do Governo Regional da Madeira, Dr. Alberto João Jardim, lhe fez:
“Ele sempre me disse: “Tu não tens filhos podias juntar as tuas colecções. Não te esqueças que és um homem da escrita e uma casa com as tuas coisas era interessante”. Respondi-lhe sempre: “Sr. Presidente as coisas só valem por aquilo que significam para mim, pela história que elas têm. Cada peça tem uma história…”. Ele sempre me foi falando do assunto. Um dia disse-me: “ Qualquer dia morres e não fazes nada”. Disse-lhe:”Concordo em doar!”. Imediatamente replicou que fosse, no dia seguinte, procurar uma casa para instalar todas as colecções. Assim foi. Primeiro vi uma casa na Zona Velha, mas era preciso fazer muitas obras. Depois visitei uma casa na Rua João de Deus não servia. Por fim encontrei esta casa da Calçada.”.
Como podemos depreender destas declarações, doar não foi uma decisão fácil para João Carlos Abreu. Ao que o próprio afirma:
“Meditei muito, principalmente porque conheço os madeirenses. Infelizmente os portugueses, na generalidade, têm pouco espírito de admiração uns pelos outros. Sabia que alguns iriam me criticar, outros naturalmente louvar. As peças são as minhas memórias por aquilo que significam e valem para mim. Contrariamente aos meus receios o “feedback” foi muito bom tanto de grande parte dos madeirenses como dos estrangeiros…Prova disso é o Livro de
Honra29 do “Universo de Memórias” em que as pessoas louvam a iniciativa do governo de expor uma colecção como esta. O mais interessante é que, algumas vezes, em países estrangeiros, gente que não conheço, de lado nenhum, fala- me da casa. Sobretudo em Espanha onde durante uma semana passou um vídeo sobre o Universo de Memórias. Não há dúvida que eu nunca quis doar, nem tão pouco reunir todos os objectos numa casa para exposição pública.” Considerações finais
A colecção de João Carlos Abreu é, antes do mais, uma colecção de colecções que retrata o percurso de vida, as vivências e memórias do seu coleccionador. A combinação da diversidade dos objectos do acervo leva-nos a apelidar esta colecção de “colecção écletica”.
Como se pode depreender, o objectivo de João Carlos Abreu nunca foi o de formar uma colecção. As coisas, simplesmente, foram acontecendo. Adquire os objectos para lhe fazerem companhia indepingentemente do valor que possam custar, desde que não exceda o seu orçamento. Mas, esse objecto é, também, fruto do consumismo do próprio coleccionador. Podemos dizer que grande parte do coleccionismo actual não só intercepta com consumismo mas também, para o seu incremento, associado ao espírito de posse e ao culto da quantidade.
Apesar deste consumismo, subjacente ao acto de adquirir peças, coleccionar é para João Carlos Abreu uma manifestação de carácter afectivo e emocional. A atracção pela forma harmoniosa dos objectos sobrepõe-se a qualquer explicação racional.
O peso do reconhecimento que anima os olhares daqueles que visitam o