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A formação graduada em terapia ocupacional dos anos 1970 e 1980 foi marcada pelas reivindicações de mudanças no caráter formativo de uma profissão eminentemente técnica para a preocupação com uma formação humanística, técnica, política e que tinha como necessidade o desenvolvimento de campo de conhecimento próprio para responder às necessidades da população e das instituições (SOARES, 1991).

Como fruto dessas reivindicações, em 1983, instituiu-se o currículo mínimo para os cursos de graduação de terapia ocupacional. Tanto a proposta, como a aprovação desse currículo provocaram inúmeras transformações, com destaque para a mudança na formação de um modelo clínico-biológico para um modelo de saúde, que integrasse o

enfoque psicológico e social ao biológico, e onde a profissão atuasse nos âmbitos da prevenção de agravos à reabilitação (SOARES, 1991).

Diante desse contexto de transformação, a trajetória de graduação em terapia ocupacional das docentes antes do SUS, expõe as diferentes estratégias que as levaram, por parte de seus interesses, a pensar cenários territoriais e comunitários de atenção que contribuiriam para suas formações e para, atualmente, pensar a formação de futuros terapeutas ocupacionais para o cuidado na APS.

Podemos observar essas estratégias nos excertos retirados do material das entrevistas:

Em relação à trajetória da minha formação de [1976-1979] para APS: eu não tive. O que eu tive foram experiências de movimento estudantil. Nós fazíamos discussões sobre a questão da assistência à população na rede pública, íamos na periferia conhecer o que era um centro de saúde. Na época os cursos [TO e FISIO] eram de 3 anos em período integral. Tivemos um estágio em creche, porque queríamos trabalhar com desenvolvimento normal, mas a gente não sabia o que fazer [...] Na época, ficava a dúvida o que um TO faz junto à população no centro de saúde. Era uma dúvida, mas alguma coisa sabíamos que tínhamos que fazer ali, mas não sabíamos o que era. Ai o que ficou disso? Ficou que: quando você está na comunidade, quando você está no território, quando você está perto da população, os problemas aparecem de um jeito diferente do que aquele de quando você está no hospital ou em uma instituição especializada (Docente 6 – IES C).

Olha, eu acho que eu vivi em um período da minha graduação [início dos anos 1980] que nós elaborávamos muito criticamente a própria formação que recebíamos [...] Se eu estiver falando sobre a minha formação em nível de graduação, eu não tive nenhuma aproximação com essa temática [da APS]. Pelo menos não formalmente. Eu me lembro que nos encontros de estudantes que naquela época se chamava ENUR, Encontro Nacional dos Universitários de Reabilitação, tivemos contato com a questão muito fortemente associada entre a atenção básica e a prevenção. A influência [da APS] foi de sempre ficar muito estimulada a buscar uma coisa que tínhamos ouvido dizer que era muito importante e que não estávamos atentas. O que é a reabilitação no campo da prevenção? E a discussão que isso colocava, quero dizer é fazer prevenção primária ou é um trabalho mais perto da realidade das pessoas e que pode até mesmo acompanhar pessoas com um alto grau de incapacidade já instalada. Porque eu acho que essa é uma questão que está posta até hoje (Docente 7 – IES C).

Me formei entre [1983-1986], a única possibilidade de relacionamento com essa área [da APS] foi em um estágio [bem curto] em que eu tive contato com a atenção básica através de uma UBS [...] Participei um

pouco junto com os delegados que foram para Brasília para a 8ª Conferência de Saúde (Docente 2 – IES A).

Eu me formei em 1980, não tínhamos nem a constituição de 1988. Eu tive práticas, não com o nome de atenção primária, mas foram práticas com a perspectiva de atenção primária, em creches para a promoção da saúde com as crianças [...] eu fui também para presídios, para zonas de prostituição para promover a saúde [...] (Docente 17 – IES D).

As docentes tiveram aproximação com o campo da APS por meio de suas experiências e de seus anseios de mudanças para as possibilidades extramuros de atuação territorial e comunitária da terapia ocupacional e viam a APS como um possível cenário de atuação. Além disso, essas experiências perpassaram também a participação nas prévias para a realização da 8ª Conferência Nacional de Saúde e nas discussões do movimento estudantil e dos movimentos sociais, tanto na perspectiva de redemocratização do país, quanto pela conquista de direitos para populações vulneráveis.

A discussão sobre as trajetórias percorre também a inquietação junto à questão social e com a reflexão crítica aflorada também pela Saúde Coletiva, como observamos logo abaixo:

Não discutimos Atenção Primária [na minha formação inicial], mas desde o meu primeiro ano do curso, eu fui convidada para participar de uma atividade que se chamava Oficina de Brinquedos e essa oficina era um pouco dessa possibilidade de pensar, no território, quais eram as crianças que estavam vivendo em uma situação de vulnerabilidade ou de risco social. Então era uma questão não necessariamente de Atenção Primária à Saúde, mas era uma questão de já pensar a questão social [...] Acho que na minha formação o importante foi eu poder ir me identificando com a Terapia Ocupacional social, na compreensão do sujeito no contexto histórico- social (Docente 15 - IES I).

Quando eu estava na faculdade não tinha o SUS, a Terapia Ocupacional ainda era voltada para os serviços especializados, então os meus estágios não eram em atenção básica, mas logo que eu me formei eu fiz um aprimoramento em Saúde Coletiva e ficávamos com uma terapeuta ocupacional na atenção básica [nos anos 1980]. [O aprimoramento em Saúde Coletiva] me ajudou muito a pensar a saúde coletiva como um campo de conhecimento [...] (Docente 1 – IES A).

Percebemos nos relatos acima que a Saúde Coletiva e a Terapia Ocupacional Social, como campos de conhecimento, pesquisa e de práticas, foram abordadas como responsáveis pelo pensamento crítico que permitiram, em parte, às docentes terapeutas

ocupacionais dilatarem o escopo da profissão para além de um modelo clínico- biológico, como descrito por Soares (1991).