A aproximação com os sujeitos da pesquisa se deu inicialmente com os educadores dos segmentos da EJA, de forma individual, no intuito de apresentar e explicar o objetivo da pesquisa para, por fim, solicitar a permissão para a realização da visita em sala de aula. Tal estratégia de aproximação é apontada por Minayo (1993, p. 54), quando diz que:
Devemos buscar uma aproximação com mais pessoas da área selecionada para o estudo. Essa aproximação pode ser facilitada através do conhecimento de moradores ou daqueles que mantêm sólidos laços de intercâmbio com os sujeitos a serem estudados. É fundamental consolidarmos uma relação de respeito efetivo pelas pessoas e pelas suas manifestações no interior da comunidade pesquisada.
Após entenderem, concordarem e se colocarem a disposição para colaboração com a investigação foi iniciada a pesquisa em sala de aula.
A fase de aproximação com os educandos iniciou-se com observações em sala de aula. Triviños (1987, p. 153) ressalta sobre o ato de observar:
“Observar” naturalmente, não é simplesmente olhar. Observar é destacar de um conjunto (objetos, pessoas, animais etc.) algo especificamente, prestando, por exemplo, atenção em suas características (cor, tamanho etc). Observar um fenômeno social significa em primeiro lugar, que determinado evento social, simples ou complexo, tenha sido abstratamente separado de seu contexto para que, em sua dimensão singular, seja estudado em seus atos, atividades, significados, relações etc.
Desse modo, a observação objetivou estreitar laços de interação com os sujeitos, bem como verificar como estes se manifestam em relação ao interesse e motivação, buscando identificar seu compromisso, como egressos do PBA/PFA com a escolarização, uma vez que este tinha como objetivo o incentivo à continuidade dos estudos na EJA.
Assim, tive preocupação em me fazer aceita pelo grupo desde os contatos iniciais com os participantes, envolvendo-me nas atividades, acompanhando in loco as experiências diárias dos sujeitos, uma vez que esta aproximação permitiria apreender a sua visão de mundo, isto é, o significado que atribuem à realidade que os cerca. Esses cuidados foram fundamentais para que obtenção das informações desejadas.
Convém evidenciar que o foco da observação em sala eramoseducandos, principais sujeitos desta pesquisa, e não a observação da prática do professor, embora tal mesma influencie no comportamento dos alunos quanto à permanência e a continuidade nos estudos. Nesse sentido, os educadores das turmas destes educandos também foram ouvidos. Dessa forma, foi possível constituir um olhar mais amplo sobre a realidade investigada.
Durante as observações, foi possível verificar que as salas eram limpas, as carteiras organizadas em filas. Em apenas uma sala, foram encontrados alunos sentados em círculo. Normalmente, as participações dos estudantes na aula se limitavam a responder perguntas ao professor. Somente na turma organizada em forma de círculo, foi percebida a participação, ou seja, o diálogo de forma horizontal entre professor e aluno.
A observação realizada em sala se fundamentou e corroborou com conceito da observação participante, apresentado por Albano Estrela (2015, p.34):
A observação participada corresponde a uma observação em que o observador poderá participar, de algum modo, na atividade do observado, mas sem deixar de representar o seu papel de observador e, consequentemente, sem perder o respectivo estatuto. Convirá, ainda acrescentar que a observação participada
se orienta para a observação de fenômenos, tarefas ou situações específicas, nas quais o observado se encontra centrado.
A título de exemplo sobre o comportamento dos sujeitos, bem como sua relação com o educador em sala de aula, destaco três observações: a primeira, na EJA I; a segunda, na EJA II e terceira, na EJA III.
Na observação de uma sala de EJA I, a educadora iniciou distribuindo cópia de uma atividade a ser realizada durante a aula. Por curiosidade, perguntei se o exercício era do livro da EJA adotado pela prefeitura municipal. A mesma informou que a atividade foi retirada de um livro do Programa Alfabetização na Idade Certa (PAIC), intitulado “Livro de atividades - Lendo você fica sabendo”, de Daniela Macambira. Ressalto a importância de registrar a realização dessa atividade que será comentada no capítulo das análises.
Por curiosidade, perguntei sobre o livro adotado na sala de aula e a educadora cedeu um para que pudesse conhecê-lo. Tratava-se de um livro da Editora Moderna, intitulado EJA Moderna, conforme apresenta a Figura 1.
Figura 1 – Livro Didático adotado pela EJA
Na sala da EJA II, o educador, ao iniciar a aula, distribuiu cópia de uma atividade de interpretação de texto, que tinha como título “Televisão”. Em seguida, explicou que a atividade seria realizada em dupla. Os educandos passaram a realizá-la com interesse e atenção. Aproveitei esse momento para me aproximar das duplas, observar, ouvir e perguntar sobre suas dúvidas. Essa aproximação permitiu um maior conhecimento sobre suas dificuldades na realização das atividades.
De acordo com Ludke (1986, p.26):
A observação permite também que o observador chegue mais perto da perspectiva dos sujeitos. Na medida em que o observador acompanha in loco as experiências diárias dos sujeitos, pode tentar apreender a sua visão de mundo, isto é, o significado que eles atribuem à realidade que os cerca e às suas próprias ações.
Um terceiro momento de contato em sala ocorreu na EJA III. Nesta, a aula se desenvolvia através de diálogo entre educadores educandos, evidenciando uma diferença no comportamento em relação aos alunos da EJA I e II. A sala estava organizada em forma de círculo e a aula teve como tema a “identidade”, que possibilitou o envolvimento interativo e participativo em torno de um diálogo amplo. A partir dessa temática, discutiram preconceito, cultura, diversidade, dente outros.
Concluídas as observações em sala de aula, o próximo momento seria aplicação do questionário. Este instrumento, de acordo com Matos (2001) se constitui hoje uma das mais importantes técnicas disponíveis para a obtenção de dados nas pesquisas sociais, configurando- se como:
Um conjunto e questões pré-elaboradas, sistemática e sequencialmente dispostas em itens que constituem o tema da pesquisa com o objetivo de suscitar, dos informantes, respostas por escrito ou verbalmente sobre assunto que os informantes saibam opinar ou informar. É uma interlocução planejada (CHIZZOTTI,1995, p. 55).
O questionário permitiu levantar dados relevantes para a compreensão do perfil dos educandos e sua situação em relação a leitura e escrita.