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Ao olharmos para os cultos de exorcismo da Igreja Universal do Reino de Deus e traçarmos um paralelo entre as primeiras fases e a atual, fica clara sua estratégia de adaptação ao novo perfil dos fiéis que a ela recorrem. Se a compararmos com igrejas mais antigas, veremos uma brutal diferença entre a capacidade de adaptação da IURD com estas. Uma análise mais minuciosa mostrará que alguns elementos são fundamentais no culto, como é o caso do demônio. Porém, a forma como se lida com este e também outros elementos do culto é bastante flexível.
Ao traçarmos um paralelo entre os cultos de exorcismo nas diferentes etapas, destacamos os seguintes elementos:
3.1. Centralidade do elemento demônio nos cultos.
Neste sentido, faz-se necessário ponderar que, embora o lugar do demônio seja diferente nas distintas fases, não há pregação ou culto que a ele não faça referência. O
demônio é o grande elemento catequizador nos cultos da IURD. Até mesmo ao transmitir aos fiéis valores positivos, o discurso do demônio, obtido nas entrevistas, demonstra a atitude que eles não devem adotar. Assim, a Pomba-Gira que leva a trair o marido, na realidade está afirmando que Deus quer que as mulheres sejam-lhes fiéis. Outro grande destaque nesse sentido é a insistência no tema do dízimo: é o demônio o responsável por semear no pensamento a recusa em se pagá-lo; ele faz com que se acredite em todas as (falsas) acusações de corrupção e desvio de dinheiro que são feitas à Igreja. Assim, o demônio se apresenta como o melhor “modelo às avessas” de atitude moral.
3.2. Menor visibilidade do demônio nos cultos.
Afirmar a centralidade do demônio nos cultos não significa que sua figura ocupa o mesmo eu lugar que outrora. Certamente haveria um desgaste da figura demoníaca e do próprio exorcista se assim o fosse. Desta forma, excetuando-se os cultos de libertação da sexta-feira às 23 horas, o demônio não sobe mais ao palco nem é entrevistado. Os casos de manifestações de entidades presenciados nos cultos são “resolvidos” ali mesmo pelos próprios obreiros espalhados pela assembleia. Estes se aproximam dos que manifestaram entidades afro-brasileiras e os imobilizam, sussurrando orações de libertação em seus ouvidos de forma que não haja interrupção do culto pelos gritos do demônio, bem como pela oração de exorcismo.
3.3. Mudança do Lugar do Demônio no Espaço Físico.
Diferentemente das primeiras fases da Igreja, onde o demônio manifestado era levado para o centro do palco, agora os que não são exorcizados ali mesmo no meio da assembleia, são levados para o palco sim, porém, permanecem na lateral do mesmo. O centro é agora ocupado pelo pastor que não é mais o encarregado de controlar todos os demônios – cada entidade manifesta fica sob a guarda de dois ou três obreiros (fiéis que desempenham funções dentro dos cultos) que são encarregados de mantê-los ali, caso o pastor necessite deles. Somente quando entrevistado – e geralmente só um o é – ele é convidado a ocupar o centro do palco para que, após a entrevista, seja exorcizado pelo pastor.
3.4. Mudança do Lugar do Culto de Exorcismo.
Sexta-feira era dia de exorcismo nas IURDs. Era comum que toda igreja promovesse seus próprios cultos de exorcismo. O culto das 23 horas era, por excelência, o momento de se combater o demônio em todas as igrejas. Não é mais assim: o culto de exorcismo das sextas-feiras às 23 horas só acontece na igreja principal de cada região. Mesmo na chamada “catedral da fé” à Rua Celso Garcia, bairro do Brás, tais cultos não acontecem mais. Apenas a igreja da Avenida João Dias, na região de Santo Amaro é contemplada com tais cultos. Houve, portanto, uma centralização dos cultos de exorcismo.
3.5. Mudança dos Protagonistas do Culto.
No início da Igreja Universal do Reino de Deus, expulsar demônio em culto era algo destinado somente aos bispos, ao menos nas igrejas pesquisadas. Pastores protagonizavam cultos de exorcismo apenas em igrejas menores. Nos cultos atuais há uma maior partilha do ofício de exorcizar: também os obreiros o podem fazer. Já no papel principal não mais está o bispo, mas sim o pastor. Ele coordena perfeitamente o culto. Podemos ver os bispos coordenando os cultos dos finais de semana, destinados às questões familiares e as orações de louvor. Com a ampliação das estruturas da Igreja, estes têm que se dedicar mais às questões administrativas, deixando o culto de exorcismo aos pastores.
3.6. Intensificação do Demônio Feminino.
Embora não haja um levantamento feito nas primeiras fases da Igreja, é notória a ênfase da manifestação de entidades femininas nas mulheres durante o culto. Se antes, muitos exus manifestavam-se, agora são as pombas giras que irrompem na assembleia. Houve reuniões em que, de dez pessoas manifestas levadas ao palco, nove eram mulheres. Em uma época onde alguns dos grandes males combatidos são a inveja e a insubordinação das esposas aos maridos como causa de destruição dos lares, é natural que o alvo dos exorcismos sejam as mulheres, aparentemente as mais atingidas pelo demônio nesses aspectos.
3.7. Do mal material ao mal moral.
Nas primeiras fases da Igreja Universal do Reino de Deus o demônio era o responsável por todo tipo de males que atingiam os fiéis. Predominantemente eram as doenças os males mais impostos aos fiéis pelo demônio, além do “trancamento” dos caminhos. O demônio ainda é considerado o culpado pelos males infligidos ao ser humano. Porém há um deslocamento para outra categoria de mal: o mal moral. Assim, a inveja, o ciúme, a traição e a insubordinação são males bem distintos dos causados pelos primeiros demônios exorcizados e estão sempre presentes nos cultos de exorcismo. Além desses, o demônio é responsabilizado também pela avareza, pois impede o fiel de depositar seu dízimo na Igreja. E as coletas dão-se ao menos duas vezes em cada culto, o que implica em muitas ações demoníacas a serem exorcizadas.
Assim, podemos ter uma visão mais aproximada do culto de exorcismo na Igreja Universal do Reino de Deus, o que permite acompanhar também sua evolução nos diferentes períodos. Fica a certeza de que a Igreja tem forte capacidade de adaptação aos novos desafios que a sociedade lhe apresenta. É também capaz de ressignificar os diversos elementos que compõem seu universo simbólico, de acordo com a demanda dos fiéis que a ela recorrem.
Feitas estas constatações, buscaremos analisar quem é o demônio exorcizado pela Igreja e o que o processo de demonização das entidades afro-brasileiras revela sobre a institucionalização da Igreja Universal do Reino de Deus.