7. I NTERINDUSTRIELL FLYT AV TEKNOLOGI
7.3 Bruk av kryssløpsdata
CORPOREIDADE
E se as histórias para crianças passassem a ser de leitura obrigatória para os adultos? Seriam eles capazes de aprender realmente o que há tanto tempo tem andando a ensinar?
José Saramago
A literatura infanto-juvenil é fenômeno recente e remonta suas origens no país há apenas um século, aproximadamente. A literatura infantil, ou seja, essa produção artística cultural destinada à criança – o livro infantil - aqui chamada de “narrativas para crianças”, ocupa seu espaço no mundo ocidental no século XVIII com a Revolução Industrial. Com a ascensão da burguesia, principalmente na França e na Inglaterra a família e a criança assumem um lugar de valor e a criança passa a ser vista com as suas necessidades próprias, específicas. A escola assume um direcionamento maior para atender a essas necessidades da criança e, também, se idealiza que essas instituições ofereçam o de melhor e mais específico para crianças.
Na nossa realidade brasileira a literatura infantil (ou Infanto-juvenil) surge no final do século XIX e começo do século XX. O livro chega ao Brasil através da imprensa régia, com o advento da Proclamação da República e a Abolição da Escravatura (LAJOLO; ZILBERMAN, 1984). Desde sempre, mesmo sendo de cunho nacional, a literatura para crianças primava pelo compromisso em ensinar os bons modos, bons costumes, higiene, o cuidado com a saúde e todos os temas que envolvessem o corpo. Interessante destacar que essa literatura de cunho educativo teve como foco principal sempre o corpo, pois era nele onde se concentravam as atenções para aquisição e reprodução da cultura, dos valores burgueses. Isso a caracterizou como uma literatura de caráter utilitário e didático.
O livro como instrumento criado pela classe burguesa deveria priorizar os valores burgueses e estar e serviço dessa classe para reprodução da sua cultura e crenças. Sem dúvida era no corpo onde o olhar recaía mais, pois este representava o individuo, o cidadão com toda a sua carga de representações32, especialmente de classe social. Como
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Serge MOSCOVICI preocupa-se em definir representações sociais na sua obra: Representações Sociais: investigações em psicologia social. Tradução Pedrinho A. Guareschi. Rio de janeiro: Vozes, 2003.
negar a classe social de um adolescente que não sabe sentar-se, usar os talheres à mesa, ou mesmo sorrir na medida certa? A burguesia definia nos livros Infanto-juvenis o que era certo, o que deveria ser ensinado, com a preocupação de difundir as suas ideias e criar um contingente de pessoas universalmente/internacionalmente com as mesmas tendências. De fato, assim acontece deixando-se de considerar qualquer outra forma de ser e estar no mundo. O importante era manter-se a supremacia e status de pertencer a uma classe social
– a elite econômica ou se fingir que pertence a essa classe usando os seus mesmos modos
e costumes.
Acompanhei de perto os debates sobre a Literatura Infanto-juvenil Brasileira e Internacional (final dos anos 70, 80, 90 e 2000), isso me permitiu identificar o crescimento da qualidade, seja do ponto de vista literário, seja da abertura e abrangência dos temas, ou mesmo da sutileza e delicadeza com que cada vez mais se oferece a criança suporte para enfrentamento dos seus conflitos sociais através das narrativas escritas para crianças e pude perceber que a instrumentalização das narrativas perdurou até os anos de 1970. Somente ao final dos anos 1970 é que as narrativas escritas para crianças começam a romper com compromisso pedagógico e exercem a sua essência de arte, ou discurso artístico, a sua função lúdica e estética, e não mais prioritariamente moralizante e educativa. Isso em hipótese alguma apaga o caráter formador que existe naturalmente em uma narrativa de cunho literário, essencialmente como arte, abre a perspectiva de representar inúmeras verdades, ou melhor, verossimilhanças . Porque não dizer, as narrativas podem ser um lugar onde se expandam todas as possibilidades de existir no real e no imaginário. Essa é a fluidez que necessitamos para transitar os caminhos e dialogar com a criança. Bauman33 (2004) em entrevista a Pallares-Burke (2004), explica como alguns escritores de literatura foram fundamentais para compreensão da realidade humana:
Aprendi a considerar a sociologia uma daquelas numerosas narrativas, de muitos estilos e gêneros, que recontam — após terem primeiramente processado e reinterpretado — a experiência humana de estar no mundo. A tarefa conjunta de tais narrativas era oferecer um insight mais profundo do modo como essa experiência foi construída e pensada, e
Para Moscovici (2003) as representações sociais não são as mesmas para todos os membros da sociedade, porque dependem do senso comum e do contexto sociocultural no qual os indivíduos estão inseridos. A representação é uma espécie de conhecimento construído socialmente, e partilhada, que tem como visão a elaboração de uma abordagem comum a um conjunto social.
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dessa maneira ajudar os seres humanos na sua luta pelo controle de seus destinos individuais e coletivos. Nessa tarefa, a narrativa sociológica não era "por direito" superior a outras narrativas, pois tinha de demonstrar e provar seu valor e utilidade pela qualidade de seu produto. Eu, por exemplo, me lembro de ganhar de Tolstoi, Balzac, Dickens, Dostoievski, Kafka ou Thomas More muito mais insight sobre a substância das experiências humanas do que de centenas de relatórios de pesquisa sociológica. Acima de tudo, aprendi a não perguntar de onde uma determinada ideia vem, mas somente como ela ajuda a iluminar as respostas humanas à sua condição — assunto tanto da sociologia como
das belles-lettres (BAUMAN, 2004).
Tenho clareza de que a literatura é uma presença imprescindível na formação do seres humanos e, portanto, luto para que todas as crianças tenham acesso a uma produção literária de qualidade, assim, também, luto para que se abram as portas do conhecimento dos mediadores /professores, aqueles que farão com que ocorra o acesso da criança às narrativas. Com a finalidade de aproximar estes mediadores e criar familiaridade, conhecimento, assim como o desvendamento das narrativas escritas para crianças estabeleci algumas categorias de análise, as quais apresento a seguir:
4.1 Categorias gerais e específicas de análise das narrativas
As categorias gerais e específicas de análise foram criadas a fim de apresentar ao/à leitor/a os elementos significativos do universo simbólico de cada obra que compõe o corpus. Pretendo também alcançar os objetivos dessa pesquisa, os quais foram: 1) revelar os achados através de categorias de análise, tais como: raça, etnia, sexo e gênero; (2) identificar os bens culturais e simbólicos transmitidos através do conteúdo das narrativas.
Os quadros abaixo aglutinam os dois grupos de categorias de análise -gerais e específicas - e os achados desvendados a partir das narrativas, referendados nos textos e ilustrações (anexas) que as narrativas apresentam.