No texto Escritores criativos e devaneio, de 1908, Freud traça uma relação entre o brincar infantil e a criação literária e poética. Tal texto é fundamental para nosso estudo, pois nele, o autor pontua um continuum entre o brincar e a criação literária que tem como ponte a linguagem e a atividade imaginativa.
É importante marcar a expressão ―atividade imaginativa‖, pois, como já assinalado, Freud refere o brincar como primeira expressão da atividade imaginativa em dois de seus textos. Ocorre que, se por um lado, tal expressão qualifica o brincar
freudiano, por outro, ela se mostra problemática, e é no próprio texto Escritores criativos que localizamos essa confusão.
A definição de atividade imaginativa parece-nos, muitas vezes, inexata, pois Freud parece abranger nesta definição várias atividades, tais como o fantasiar, o devanear, o criar e o próprio brincar. Ao lermos o texto, várias vezes nos questionamos se o brincar freudiano implica uma fantasia – inconsciente – ou um devaneio que, como tentamos situar na seção anterior, se diferem pela ação da elaboração secundária.
Rivera (1995) ressalta essa dificuldade de distinguir, nos textos freudianos, a fantasia e o devaneio, e reitera essa pluralidade dos termos ao constatar que a dinâmica de criação de fantasias rege tanto o fantasma preponderante na neurose quanto a atividade de criação em geral.
A autora, ao investigar o que propõe como ―atividade de criação de fantasias‖ (p. 34), compreende que o próprio fenômeno da fantasia se caracteriza como um mundo intermediário, através do qual o sujeito pode tanto trilhar o caminho do adoecimento neurótico como entrar em contato com a realidade material. E é na tentativa de explicar esse esquema, em que a fantasia exerce intermédio, que a autora retoma as formulações freudianas sobre os dois tipos de processo mental.
Rivera (1995) retorna ao texto Formulações sobre os dois princípios do funcionamento mental e destaca que o fantasiar seria o herdeiro do processo primário, tendo sido deste separado quando da introdução do processo secundário. Esse corte, realizado pelo processo secundário, tanto inibe a atividade alucinatória típica do processo primário como também impõe ao sujeito um ―teste de realidade‖ (FREUD, 1911), sendo esta sempre pouco satisfatória para o homem.
Ou seja, para a autora, a fantasia (ou o fantasiar) é um fenômeno que intermedeia um tipo de funcionamento princeps, infantil e ligado ao recalcado, e outro, que implica
outros meios de satisfação que não os infantis, e que caracteriza um trabalho de sublimação.
Ao realizar uma leitura de Escritores criativos, Rivera (1995) indica que esse mundo de fantasia, tanto no universo do escritor literário como no da criança que brinca, estaria a serviço do processo de construção da realidade, e que a fonte de ambos estaria justamente em experimentar as fronteiras entre seu próprio jogo e a realidade construída. Portanto, para a autora, o prazer do escritor ―[...] parece consistir em brincar com os limites entre ‗fantasia‘ e ‗realidade‘‖ (RIVERA, 1995, p. 41), sem adentrar pelo campo da alucinação.
No texto Escritores criativos, o brincar representa justamente esse lugar de limite, de fronteira, de ligação entre aquilo que é imaginado e aquilo que é ―tangível no mundo real‖; e é o próprio Freud quem destaca: essa conexão que vai diferenciar o brincar infantil do fantasiar do neurótico, já que a criança, ao construir um mundo de fantasia no brincar, diferencia-o nitidamente da realidade. Assim, esta nítida diferenciação traçada pela criança é o que dá ao brincar seu valor de ficção17.
É importante ressaltar que, para Freud (1908, p. 135), a criança, quando brinca ―[...] cria um mundo próprio [...] reajusta os elementos de seu mundo de uma forma que lhe agrade...‖. Lembremos que esse valor de retificação da realidade insatisfatória presente no brincar caracteriza tanto a fantasia quanto o devaneio: ―As forças motivadoras das fantasias são os desejos insatisfeitos, e toda fantasia é a realização de um desejo, uma correção da realidade insatisfatória‖ (FREUD, 1908, p. 137).
Outro ponto coincidente entre brincar e fantasia em Escritores criativos é o fato de ambos serem determinados por desejos; e, para Freud (1908, p. 137), o brincar é
17
determinado ―[...] de fato, por um único desejo que auxilia no desenvolvimento –, o desejo de ser grande e adulto‖.
Mas voltemos à problemática oriunda da idéia de atividade imaginativa. Compreendemos que tal idéia pode confundir o leitor por não limitar apenas um fenômeno psíquico. Contudo, há autores, como Santa-Roza (1997), que julgam ser importante localizar o brincar freudiano na topologia do sistema psíquico.
Em um artigo intitulado E agora eu era o herói: o brincar na teoria psicanalítica, de 1993, Santa-Roza (1997) discute a relação entre o brincar, os sonhos e as fantasias inconscientes, e propõe que tais fenômenos se entrelaçam, porém, não compartilham uma mesma identidade.
Para a autora, o brincar não se configura como uma conduta humana através da qual os sonhos e as fantasias inconscientes encontram expressão direta. Aliás, o conteúdo inconsciente, segundo o pensamento freudiano, somente terá expressão na consciência de modo deformado. Logo, podemos pensar que, para Santa-Roza (1997), o brincar infantil está submetido às leis da elaboração secundária, o que implica dizer que o desejo, a fantasia inconsciente e a sexualidade infantil se expressam através do brincar sempre de modo desfigurado. E, diferente do sonho, que é construído ―[...] durante o estado de sono, de alteração da consciência...‖ (SANTA-ROZA, 1997, p. 79) o registro consciente tem papel fundamental no brincar
O brincar é [...] uma atividade consciente, inscrita numa realidade perceptivo- motora, mediatizada por objetos reais, na qual o desenrolar da ação é determinado pela criança. Ela sabe que se trata de algo imaginado, de pura ficção. Ela não alucina. (SANTA-ROZA, 1997, p. 80)
A autora, então, atenta-nos para a existência de um conteúdo latente no brincar e também para o fato deste fenômeno estar regulado pelo sistema pré-consciente- consciente (PCs/Cs). Além disso, apesar de na atividade lúdica haver um relaxamento
da censura, em que a própria fantasia se torna mais maleável, tal atividade estaria, sim, mais próxima do devaneio, ou do sonho diurno.
O texto Escritores criativos (1908), sem dúvida, acende várias discussões, e aquela que se refere à natureza dos fenômenos englobados por Freud no que ele denominou de ―atividade imaginativa‖ merece especial atenção, pois, a compreensão da singularidade de cada um desses fenômenos na vida psíquica pode facilitar, inclusive, o trabalho clínico. Por fim, à parte da discussão do termo, o texto explicita que a atividade imaginativa – e o brincar é situado como sua primeira expressão – é, fundamentalmente, uma atividade criadora da realidade, e, portanto, da própria subjetividade.
3.2.2 O fort-da
O jogo do fort-da, também conhecido como o jogo do carretel, foi proposto por Freud em Além do princípio do prazer, de 1920.
O contexto em que o texto é escrito é o pós-guerra, momento este em que Freud se aproxima do que viria a ser a última teorização freudiana das pulsões, representada pela oposição entre as pulsões sexuais e as pulsões de morte.
Nesse trabalho, Freud reconhece a força dos conteúdos reprimidos como entrave ao processo analítico. E essa dificuldade de resgatar determinados conteúdos reprimidos poderia levar o sujeito a repeti-los de maneira que fossem atuais, e não uma recordação pertencente ao passado desse sujeito.
Essa compulsão à repetição, mesmo que seja vivida como desprazerosa pelo sujeito, sofre influência do princípio de prazer, na medida em que evita o desprazer proveniente da liberação do reprimido, composto, em grande parte, por experiências da vida sexual – fantasias edípicas – do sujeito. É fato, para Freud, que se tais experiências
de sofrimento fossem expressas como lembranças, ou mesmo expressas nos sonhos, seriam menos desagradáveis do que se fossem vividas como experiências atuais.
Já havíamos assinalado que, no momento em que Freud escreve Além do princípio de prazer, ele aponta para o fato de a fantasia se imbricar não apenas à pulsão sexual, mas também à pulsão de morte, formulação esta que terá conseqüências em seu modo de pensar o brincar. As reformulações, como já citamos, apontarão para as seguintes questões: (1) O fato de a criança também brincar com situações que lhe causam sofrimento; (2) a possibilidade que o brincar fornece à criança de adiar satisfações, o que também lhe possibilitaria experienciar o princípio de realidade e uma construção simbólica e; (3) como indica Rabello (2004), o fato de Freud considerar o brincar como a atividade que, na infância, ilustra a compulsão à repetição.
Vamos, então, descrever a cena construída pelo um menino de um ano e meio e observada por Freud (1920, p. 18-19):
O menino tinha um carretel de madeira com um pedaço de cordão amarrado em volta dele. [...] O que ele fazia era segurar o carretel pelo cordão e com muita perícia arremessá-lo por sobre a borda de sua caminha encortinada, de maneira que aquele desaparecia por entre as cortinas., ao mesmo tempo que o menino proferia seu expressivo ―o-o-o-ó‖. Puxava então o carretel para fora da cama novamente, por meio do cordão, e saudava o seu desaparecimento com um alegre ―da‖ (―ali‖).
Freud conclui que a brincadeira possui dois atos: o primeiro remete ao desaparecimento da mãe, e o segundo, ao seu retorno. Para o autor, não haveria dúvidas de que o prazer maior estava no segundo ato.
A brincadeira do fort-da é de extrema importância para os estudiosos que se interessam pela clínica psicanalítica, em especial, obviamente, pela clínica psicanalítica com crianças, pois, ao empreendê-la, a criança mobiliza complexos fenômenos psíquicos que se entrelaçam e que são fundamentais para a constituição de sua subjetividade.
É nesta brincadeira que a criança se lança à possibilidade de separação de seu primeiro cuidador. Para Freud (1920, p. 19), esta possibilidade de separação é ―[...] a grande realização cultural da criança, a renúncia ao deixar a mãe ir embora sem protestar‖, realização esta que expressa a própria capacidade de elaboração simbólica da criança.
Freud ainda observou outra problemática que se apresentava no jogo do carretel: a possibilidade de a criança transformar sua própria experiência. Ora, é fato que a experiência de separação é desagradável, ou mesmo aniquiladora, quando nos referimos especialmente às pequenas crianças, porém, a possibilidade de brincar com experiências de sofrimento já demonstra a capacidade da criança de sair de uma angustiante posição de passividade para assumir um papel ativo em determinada situação.
Esta problemática é especialmente importante, pois, como já assinalamos, a criança leva a sério sua brincadeira, e, através dela, pode construir um mundo próprio. Neste mundo, a criança é senhor, podendo imprimir sua marca singular ao reordenar a sua história, assim como a de todos os personagens que lhe são significativos.