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5 DATA FINDINGS AND ANALYSIS

5.2 Broken families and a bare life of shame

Atualmente novos processos de trabalho e novas formas de gerenciamento de pessoas invadem o mundo da produção. Programas como Desenvolvimento Organizacional (D.O), os Círculos de Controle de Qualidade (CCQ), a Qualidade Total (QT), a Reengenharia, 5S, Kanban25, dentre outros, foram introduzidos no Brasil com o propósito de envolver todos os níveis hierárquicos da empresa, aplicados dentro de princípios que norteiam e contribuem para melhorar os resultados organizacionais.

A pseudopreocupação com o clima das organizações empresariais e com a qualidade de vida dos funcionários constitui outra falácia do capital, que vislumbra uma espécie de mudança cultural e a implementação de novos valores e crenças nas empresas.O tema da qualidade de vida no trabalho, desde a década de 1970 gradativamente ganha relevância, em face das exigências impostas ao trabalhador nesse novo contexto. Entram em cena também os chamados programas de redução do estresse e técnicas de treinamento, dentre outras estratégias que funcionam como mecanismos de manipulação do trabalhador perante os novos quesitos de qualificação e aprimoramento de habilidades cognitivas.

Cabe destacar o fato de que o discurso de valorização das pessoas é pauta constante em encontros e debates sobre gestão, em que o ser humano aparece como o grande foco das mudanças, evidenciando-se como necessário o desenvolvimento das pessoas em busca da qualidade no processo de produção, como salienta Gurjão (1996). Assim, a chamada gestão da qualidade divulga a necessidade de envolvimento do corpo e da mente de todos os funcionários, pretendendo canalizar a motivação, promover o trabalho em equipe e favorecer o bom relacionamento entre os funcionários.

O atual discurso enfatiza a necessidade de o trabalhador incorporar todo o seu potencial subjetivo, suas motivações, iniciativas e criatividade, como fonte de mais- valia – redução dos custos com capital e constante melhoria da produtividade e da qualidade dos produtos. A partir da década de 1990, houve propagação desses discursos gerenciais, buscando favorecer maior envolvimento do trabalhador com a empresa, para

25 O kanban é uma ferramenta utilizada no processo de acumulação flexível como um método de

transmissão de informações que impede a superprodução, de forma para atingir o just-in-time, ou seja, a produção no tempo certo (OHNO, 1997).

que este incorporasse habilidades necessárias às novas demandas do mundo da produção.

Conforme citado por Moura (2003) e Brito (2005), revela-se nas organizações uma preocupação com o aspecto da subjetividade humana no trabalho, destacando-se uma necessidade das empresas favorecerem o desenvolvimento de potenciais intelectuais, emocionais e espirituais nos trabalhadores, de forma direcionada para os interesses da produção. Assim, a gestão do conhecimento constitui, atualmente, elemento relevante dentro das grandes organizações empresariais. Como destacado por Brito (2005), a gestão do conhecimento ou gestão das competências implica focar a gestão da empresa, do trabalho e o processo de educação dos trabalhadores na gestão do conhecimento necessário para a consecução da missão organizacional.

A aprendizagem organizacional refere-se, ainda, à elaboração e organização de conhecimentos e rotinas em torno de sua competência essencial, de forma a permitir a eficácia organizacional pela melhoria da utilização do conhecimento e das habilidades de sua força de trabalho. Esta temática encontra-se intimamente ligada ao conceito de

capital intelectual, ou seja, o conhecimento que está nas pessoas e que envolve

elementos como talento, criatividade, intuição, inteligência, dentre outros fatores. Este conceito influencia diretamente a mudança que caracteriza um novo sistema da gestão nas empresas. Convém lembrar que, como expressa Brito (2005)

(...) a lógica do modelo não é exatamente nova, pois o capital sempre procurou transformar o conhecimento em mercadoria e direcionar a educação profissional em seu benefício. (...) A diferença da forma de compartilhamento natural do conhecimento e as novas formas de compartilhamento do conhecimento, promovidas pelas organizações, são o gerenciamento, manipulação e controle rigoroso do processo de aprendizagem a partir unicamente dos interesses do capital, fato que significa uma mudança sem precedentes na forma de gestão e educação de pessoas para o trabalho nas organizações ao interferir direta e claramente na cultura organizacional (...) (P. 18).

Portanto, é válido dizer que agudização do estado alienante e exacerbação do caráter de explorador dos trabalhadores se expressam como conseqüências da necessidade do capital de ampliar a produtividade do trabalho e a extração de mais- valia. Assim, a necessidade de se investir na gestão do conhecimento faz parte de uma lógica maior de apropriação do saber do trabalhador. Segundo Frigotto (2003), o atendimento às necessidades do mercado implica uma crescente necessidade de formação humana, sob o lema do aprender a aprender, na chamada Sociedade do

Conhecimento, de fato exigida por organismos internacionais, como Fundo Monetário Internacional – FMI, BIRD, Banco Interamericano de Desenvolvimento.

Ainda sobre a utilização do conhecimento pelo capital, Duarte (2003) defende a tese de que a assim chamada “Pedagogia das Competências” é integrante de uma corrente educacional contemporânea chamada por ele de “pedagogias do aprender a aprender”26, lema que sintetiza uma concepção educacional voltada para a formação e para uma constante adaptação dos indivíduos à sociedade regida pelo capital. Brito (2005) corrobora essa idéia, quando acentua que, dentre os princípios que orientaram as empresas a sobreviverem no mercado, destaca-se o de aprender a aprender; um conhecimento que se tornou um dos principais diferenciais da competitividade.

Dessa forma, as mudanças implementadas pelo capital em seu processo de produção podem ser percebidas como nova forma de domínio do capital sobre o trabalhador, realizando verdadeira reforma intelectual27 e também moral, que visa à constituição de outra cultura do trabalho. Tais estratégias de dominação supõem a socialização de valores políticos, sociais e éticos e a produção de padrões de comportamento compatíveis com as necessidades de mudança na esfera da produção e na reprodução social.

Segundo Antunes (1995),

Se Gramsci fez indicações tão significativas acerca da concepção integral do fordismo, do ‘novo tipo humano’, em consonância com o ‘novo tipo de trabalho e de produção’, o toyotismo por certo aprofundou esta integralidade. O estranhamento próprio do toyotismo é aquele dado pelo ‘envolvimento cooptado’, que possibilita ao capital apropriar-se do saber e do fazer do trabalho. Este, na lógica da integração toyotista, deve pensar e agir para o capital, para a produtividade, sob a aparência da eliminação efetiva do fosso existente entre elaboração e execução no processo de trabalho. (P. 34).

Parece evidente que as novas formas da gestão organizacional, que se deram, em grande parte, não só pela necessidade de concorrência intercapitalista, como também pela própria necessidade de controlar as lutas sociais oriundas do trabalho, são expressas como nova forma de domínio do capital sobre o trabalhador, em que a

26

Como assinala Brito (2005), observa-se uma apropriação, pelo capital, da teoria desenvolvida por Vigotsky do “aprender a aprender”, que se torna um instrumento da classe dominante para agudizar a exploração do trabalhador.

27 Vale ressaltar que o incremento das atividades cognitivas anunciadas pela atual fase do capital, não

significam o desenvolvimento pleno da inteligência em virtude da condição do trabalho e do trabalhador na sociedade regida pela lógica do capital.

formação de competências, juntamente com a falácia do desenvolvimento das atividades cognitivas, se tornam exigências anunciadas pela atual fase do capital.

Nota-se, contudo, o fato de que dadas às condições de estranhamento e subsunção do trabalhador à lógica do capital, os investimentos em qualificação do trabalhador, as novas propostas administrativas e educacionais com foco na gestão do conhecimento e das competências organizacionais e profissionais, ou, ainda, na gestão do conhecimento teórico e prático, não se traduzem no desenvolvimento pleno da inteligência dos indivíduos, mas se desvenda como necessidade de adequação dos sujeitos aos novos ditames da produção.

Importa salientar que as mudanças evidenciadas no mundo do trabalho revelam novas estratégias de subordinação e controle do trabalho, que supõem a socialização de valores políticos, sociais e éticos e a produção de padrões de comportamento compatíveis com as necessidades de mudança na esfera da produção e na reprodução social. Desta feita, as estratégias de apropriação da capacidade de reflexão e criticidade do trabalhador, e as muitas inovações do mundo da produção, compõem um novo cenário e um “novo” perfil de trabalhador, necessários à atual fase de acumulação capitalista.

Nesse sentido, percebe-se que as mutações no mundo do trabalho afetam diretamente a classe trabalhadora, implicando sua subjetividade e forma de ser, repercutindo também na consciência política e ideológica do trabalhador. Dessa forma, é necessário não somente conhecer como também questionar as implicações objetivas e subjetivas do fenômeno da reestruturação produtiva na vida dos trabalhadores, procurando perceber essa nova investida do capital na formação do trabalhador, seja na educação formal ou em outros processos educativos, como capacitações, treinamentos e outras formas de qualificação para o trabalho.

Assim, considerando o atual estádio da sociedade capitalista, torna-se imperativo compreender em que condições e de que forma os trabalhadores exercem o direito à educação. Neste sentido, ao situarmos o momento histórico em que se implementa profunda reestruturação produtiva, na qual se impõem as idéias neoliberais e significativas mudanças em diversos âmbitos da sociedade, notadamente no cenário educativo, faz-se imprescindível aprofundar a reflexão sobre o subjugo da educação ao capital, retomando a questão do dualismo educacional e das contradições e conflitos que a classe trabalhadora vivencia em busca de sua escolarização.

4 A SUBORDINAÇÃO DA EDUCAÇÃO À LÓGICA DO CAPITAL -