Conforme mencionado anteriormente, as comunidades apresentadas nos teen
dramas são predominantemente brancas e de classe média. Personagens de outras classes
sociais ou etnias frequentemente rodeiam o grupo de protagonistas, porém mesmo quando o integram tais fatores são amplamente marginalizados nas narrativas.
Nos cinco seriados analisados, apenas cinco protagonistas não são brancos152 e
desses, três pertencem ao elenco de Glee e dois ao de PLL. Tomando dados do censo norte americano de 2010153, contabiliza-se cerca de 63% de brancos na população deste
país. Entre os não brancos, os principais grupos são os afrodescendentes (12%), os latinos (16%) e os asiáticos (4,7%). Destes cinco personagens dos programas analisados, Mercedes de Glee é negra, Santana é latina e Tina é asiática (de origem coreana). Em
PLL, tanto Mona quanto Emily têm ascendência miscigenada (de diferentes etnias
asiáticas)154.
Apesar desta maior representatividade étnica em seriados de anos mais recentes – provavelmente uma busca por maior apelo a diferentes grupos – em nenhum dos seriados
152 Embora a classificação racial seja um tema de amplo debate, tomo neste trabalho a forma classificatória
conforme aparece nos seriados, baseadas nos conceitos dominantes americanos. Isto significa que “hispânico” ou “latinoamericano” serão consideradas origens étnicas unas e a mestiçagem racial é menos subjetiva do que no Brasil.
153 USA Gov. Census, 2010. Disponível em https://www.census.gov/quickfacts/table/RHI125214/00. 154 Em termos de referência, nas mesmas cinco séries, contamos cinco personagens centrais de origem
este aspecto da diversidade toma uma proporção temática. Glee, que tem de longe o grupo com identidades mais heterogêneas entre as séries analisadas, inclui fragmentos destas identidades étnicas em diferentes episódios155 ou em estilos de vida dos personagens
(como as escolhas musicais de Mercedes, por exemplo). O seriado também topicalizou elementos étnicos com personagens secundários156. Porém não existe um
comprometimento na narrativa com este elemento de diferença que, de certa forma, cai em uma “vala comum” de diversas diferenças dos personagens do seriado – um dos elementos que caracteriza o grupo de “excluídos” de Glee.
Tais pequenos fragmentos de identidade ou problematização da diferença étnica na narrativa de Glee, no entanto, representam mais do que o discorrido sobre o tema em
PLL. Emily é uma das quatro protagonistas centrais, porém sua diferença étnica em
relação às outras protagonistas não é apresentada em quase nenhum elemento narrativo ou diálogos157. Tal qual Mona, sua diferença é perfeitamente inserida no universo branco,
anglo-saxônico e protestante (WASP158) do programa. A homogeneização dos traços
raciais em PLL se dá de tal forma que, mesmo os atores que possuem ascendência étnica não branca159, passam por um branqueamento. As próprias Shay Mitchell e Janel Parrish
(Emily e Mona, respectivamente), apesar de darem diversidade racial ao programa, têm traços bastante próximos a um padrão europeu de beleza160.
Este apagamento étnico de PLL contrasta com a simples negação de tal diversidade em alguns dos programas da década de 1990. BH90210, BTVS e DC não contam com nenhum protagonista não branco. BTVS, que se passa na Califórnia, um dos estados norte-americanos com a maior proporção de diversidade racial (especialmente de população de origem latinoamericana), jamais aborda a questão racial e nem a mostra como tópico. DC topicaliza tal questão com o preconceito velado que a comunidade de Capeside demonstra com a família racialmente miscigenada de Joey e particularmente
155 No episódio Spanish Teacher (3x12, Ian Brennan), por exemplo, Santana questiona os métodos de
ensino de espanhol de Will (que também é professor de espanhol da escola), repletos de estereótipos sobre a cultura latino-hispânica. No entanto, no episódio, a identidade latinoamericana é utilizada especialmente como pretexto para a participação especial do cantor Ricky Martin.
156 Jake, da segunda turma de alunos do Glee club, na 4ª e 5ª temporadas, mostra-se desconfortável em ser
mulato. Mike, que é de família chinesa, enfrenta a pressão do pai em desistir da dança por desejar que o filho siga uma carreira tradicional.
157 Somente em um episódio (4x05, Gamma Zeta Die!) em uma breve passagem, Emily confirma sua
ascendência parte filipina, parte coreana, parte irlandesa-escocesa, diz a personagem.
158 White, anglo-saxon protestant.
159 Os intérpretes dos protagonistas Spencer e Caleb, Troian Bellisario e Tyler Blackburn também têm
origens raciais miscigenadas.
160 Shay Mitchell é descendente de mãe filipina e pai europeu e Janel Parrish descende de chineses e
com os eventos que levam à demissão do diretor Green da escola dos protagonistas. O programa consegue demonstrar algumas nuances do preconceito racial e hierarquias de poder social quando Green, um homem negro, expulsa um aluno (branco e rico) por ter vandalizado um mural escolar feito por Joey, uma garota branca e pobre. Tal fato repercute e é levado ao conselho escolar, Joey tenta defender a posição do diretor perante um grupo liderado pelo pai do garoto expulso – marcantemente caracterizado por homens brancos e engravatados – e é imediatamente rechaçada por este que condescendentemente lembra a Joey e ao resto do público do conselho a não conformidade de sua família com os “valores tradicionais” da comunidade. Quando Joey fala sobre o caso com sua irmã e cunhado, este imediatamente toca na questão racial denunciando que a comunidade não teria tantos problemas com a decisão do diretor se este não fosse negro. Nikki, a filha do diretor (e amiga de Dawson) também levanta tal ponto. Ainda que o diretor Green admita apenas indiretamente a relevância da questão racial em sua demissão, o programa deixa clara uma postura crítica neste ponto, mas sem chegar a de fato tematizar este potencial contra hegemônico, uma vez que tal questão nunca mais é abordada (BINDIG, 2008).
A despeito do fato da opulência ser uma marca de BH90210 e de ter o grupo de protagonistas mais homogêneos – em todos os aspectos – entre as séries analisadas, é este o programa que mais aborda questões raciais e de classe, com diversos episódios discutindo-as topicamente – conforme mencionamos este programa é muito mais episódico do que os demais. Em contraste com o elenco principal totalmente branco, os protagonistas de BH90210 confrontam-se de tempos em tempos com colegas negros ou latinos, envolvendo a questão racial. Assim como outros temas sensíveis envolvendo minorias ou problemas sociais, as questões raciais são tratadas com muito cuidado e correção política (para a época, ao menos), porém a diferença é sempre marcantemente “o outro”, neste seriado. Em BH90210 estas questões se apresentam, são discutidas em um nível superficial, resolvidas individualmente e transformam-se em uma lição para personagens e espectadores, logo desaparecendo e tornando-se elemento simplesmente simbólico – e que também posicionava criticamente o programa frente o contexto sociocultural da época161.
161 Na 2ª temporada (2x09, Ashes to Ashes, Darren Star, Charles Rosin) o programa fez um episódio que
envolvia a mudança de uma família negra para a vizinhança dos Walsh, em uma trama que fazia referência ao então recente caso envolvendo Rodney King, um homem negro brutalmente espancado por policiais. Na temporada seguinte, após os eventos que ficaram conhecidos como “L.A. Riots”, em que a absolvição dos policiais que espancaram King gerou uma série de revoltas na cidade, outro episódio (3x10, Home and
Away, Chip Johannessen), em que a violência nas comunidades pobres da cidade afeta a vida escolar em
Os exemplos apresentados em BH90210 e PLL mostram dois pontos “extremos” da identidade racial: o distanciamento quase que completo do primeiro dá espaço para a integração altamente calculada do segundo. Em BH90210, a discussão episódica mostra e problematiza diferenças, de forma a reconhecer certas questões – no caso as minorias étnicas, mas o mesmo poderia ser dito de várias outras questões sociais apresentadas no seriado – sob um ponto de vista tolerante e liberal, mas mantendo-as a determinada distância, de maneira a reforçar a hegemonia de um status quo de “normalidade” aos personagens – branco, heterossexual etc (MCKINLEY, 1997). Já a abordagem de PLL apaga qualquer problematização da questão, de forma a normalizar e certa maneira também “embranquecer” a multirracialidade.
Figura 19: Diferença de abordagens. Enquanto em PLL, Emily (dir., frente) ser de origem étnica diversa
dos outros personagens não faz diferença em sua representação, em BH90210 (esq., Brandon conversa com Jordan), as diferenças raciais são claramente marcadas em sua “diferença”.
Fonte: Captura de tela gerada pela autora (2016).
A classe social é tratada de forma ainda mais tabu nos seriados analisados, sendo diferenças sociais ou culturais proporcionadas pela riqueza ou pobreza simplesmente desconsideradas em todos eles. BH90210 novamente é o que mais aborda esta questão, considerando que nas primeiras temporadas a diferença de estilo de vida entre os Walsh e seus amigos era uma das temáticas gerais do programa. Assim, apesar de um tanto “açucaradas”, havia na trama certa consciência sobre as diferenças em estratos sociais (ROCKIER, 1999). Os irmãos Brenda e Brandon conversam sobre a vida de classe média à qual estão acostumados e a realidade de seus colegas, e mesmo ainda sobre aqueles
menos privilegiados162. Porém não se trata aqui de uma disputa entre “burguesia versus
classe trabalhadora” por avanço econômico, mas entre classe alta versus classe média – média alta, vale lembrar – por valores morais, nos quais o segundo grupo era claramente superior, com virtudes como ética de trabalho, honestidade e justiça.
Nos demais programas, a falta de dinheiro como problema familiar é abordada, como o desemprego dos pais de Sam em Glee que leva a família a perder a casa onde moram, refletindo a crise econômica contemporânea à série. Em DC, todas as caracterizações de personagens ricos são bastante negativas, o que pode configurar, assim como em BH90210, uma crítica aos “valores corrompidos” da classe alta. Contudo, parece mais consistente fazer uma leitura de tal abordagem como parte de uma crítica a um ideal de sucesso, seja ele na forma de status econômico ou escolar, conforme veremos no capítulo 5.
É generalizada, entretanto, uma grande inconsistência com relação à situação econômica, familiar e pessoal, e bens de consumo. Por exemplo, em PLL, Hanna e sua mãe recorrentemente passam por problemas financeiros mas, à exceção de alguns episódios ainda na 1ª temporada, o ímpeto consumista da menina jamais necessita ser freado.
A classe social é, de acordo com Lawler (2010), um dos grandes tabus na cultura americana. Presente, mas não considerado, o que se reflete nas identificações televisivas. Indo mais além, Gillan (2008) fala como a TV teen tende a achatar as diferenças sociais, corroborando para a manutenção de uma fantasia cultural que põe os EUA como país onde todo mundo é da mesma classe, ou ao menos aparenta ser163. Mesmo quando um
personagem é devidamente apresentado como pertencente às camadas sociais mais baixas, este parece ter hábitos de consumo similares aos personagens pertencentes às classes mais altas. Joey em DC, por exemplo, embora sempre se lembre das dificuldades financeiras de sua família, tem em seu estilo pessoal um apagamento de sua classe de origem, de tal forma que sua realidade de classe somente entra em questão quando relacionada a sua família (BINDIG, 2008).
162 Um exemplo que mostra a introdução do tema pelo seriado é a personagem Andrea, que não mora no
distrito de Beverly Hills (e por isso não poderia frequentar a West Beverly High School), o que traz à tona as diferenças entre as oportunidades educacionais de diferentes classes sociais. Andrea finge morar com a avó para poder estudar na West Beverly, que tem uma qualidade de ensino superior às demais escolas públicas do condado de Los Angeles.
163 Apesar de ser necessária maior investigação, esta não parece ser uma característica somente da TV teen,
Ao contrário de alguns temas, tais quais sexualidade e gênero, que foram gradualmente ganhando maior espaço nos teen dramas, raça e classe social continuam sendo majoritariamente apagadas. Não apenas há pouca diversidade neste sentido, como mesmo quando tal diversidade existe é diminuída e desproblematizada. Em nenhum dos seriados analisados etnia configura um tema amplo, e em algumas (BTVS, especialmente) este não é nem topicalizado. Mesmo que apresente peculiaridades especiais, classe social é um tema recorrente em BH90210 (ao menos em suas primeiras temporadas), o que não acontece no restante dos programas, onde a importância social do dinheiro pode ser reconhecida, porém rapidamente deixada de lado.
Entretanto é conveniente apontar que, ao menos no que se refere a etnias, há hoje uma maior representatividade de grupos minoritários, ainda que predominantemente desvinculada de problematização ou tomando forma de tokenismo164, existe um
apontamento em direção à integração. É interessante também assinalar que outros seriados do gênero podem mostrar lados diversos ou mesmo ser mais incisivos em suas abordagens a tais questões, como por exemplo, South of Nowhere e 90210 (spin-off de
BH90210), que lidam com adoções inter-raciais, ou Veronica Mars e The O.C., que
evidenciam uma separação social entre classes. Contudo, tais questões ainda são amplamente interditadas na televisão teen e dificilmente extrapolam limites culturais já estabelecidos.