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Na realidade nós podemos ser a única barreira entre a terra e sua destruição total. A terra está (definitivamente) condenada.

Rupert Giles82

Entre os seriados analisados neste trabalho, BTVS é o mais reverenciado pela sua estrutura narrativa, sendo um caso exemplar de como programas que envolvem o modelo “caso da semana” (muito comum especialmente em séries policiais) podem trabalhar a narrativa mais profundamente. O enredo de BTVS se desenvolve com arcos que percorrem toda uma temporada com um grande vilão ou problema. Cada episódio individualmente conta com uma trama coerente própria, com um “monstro da semana”, por assim dizer – que pode ter ou não relação com o grande vilão a ser enfrentado, – e sua própria resolução interna, sem, no entanto, deixar de avançar o arco da temporada ou mesmo questões que acompanharam toda a série (MITTELL, 2012-13). As subtramas dentro do arco narrativo de temporadas e episódios funcionam como uma maneira de explorar o desenvolvimento dos personagens – uma das principais características dos dramas de narrativa complexa, que utilizam o longo período de apresentação para desenvolver a construção e a evolução dos personagens. Podemos dizer que cada episódio semanal tem uma trama própria e faz parte de um enredo maior dentro da temporada e, por fim, do desenvolvimento dos personagens e da trama da série por completo.

BTVS também se destacou pelo que Mittell (2012-13) chama de episódios

“narrativamente espetaculares”, que subvertem a normalidade da narrativa à qual os espectadores estão acostumados. É o caso de The Zeppo (3x13, Dan Vebber), em que toda a narrativa é centrada em um único personagem, Xander, e o que acontece com o resto do grupo é relevado à subtrama, invertendo a ordem natural em que a série é regularmente contada. Em Hush (4x14, Joss Whedon), quase todo o episódio é construído sem diálogos, quando um grupo de demônios rouba as vozes de todos na cidade, forçando a história a ser comunicada de forma não verbal. Em Once more, with feeling (6x07, Joss Whedon), um demônio transforma os moradores da cidade em personagens de musical, o que os faz cantar e dançar sobre situações cotidianas. Com canções originais, o episódio ainda desenvolve várias das tramas que se constroem durante a temporada, como a depressão de Buffy após ser ressuscitada, a preocupação de Tara com a magia de Willow saindo do controle, os medos de Xander e Anya quanto a seu iminente casamento, entre outros.

Em BTVS pode-se ver um exemplo do que Mittell (2012-13) chama de “efeitos

especiais da narrativa” quando, no começo da 5ª temporada, é introduzida uma nova

personagem, Dawn Summers, irmã de Buffy. Dawn é um elemento crucial do enredo

desta temporada e sua presença é explicada em coerência com os diversos elementos sobrenaturais da trama. Os roteiristas exercitaram sua precisão narrativa encaixando retroativamente a personagem na biografia de Buffy e de sua mãe, Joyce. Vale lembrar, no entanto, que nem sempre tais estratégias estão à prova de “furos”. Apesar do esforço narrativo para inserir Dawn, a verossimilhança interna da construção da personalidade de Buffy como filha única é ferida com a adição da personagem.

Outra característica presente na narrativa de BTVS são os detalhes – muitas vezes aparentemente desimportantes em termos de enredo – que se intercruzam muitos episódios depois. Alguns podem servir como uma forma de pista sobre desenvolvimentos futuros, como em Doppelgangland (3x16, Joss Whedon). No episódio, uma realidade paralela na qual Willow é uma vampira cruza-se com a realidade narrativa, causando diversas situações cômicas com o encontro entre as duas “Willows”. Por fim, ao falar sobre sua dublê vampira, Willow diz: “Ela era tão má, e vulgar… e também um pouco gay”. Buffy rapidamente busca “tranquilizar” a amiga dizendo que a personalidade vampira não tem nenhuma relação com sua personalidade humana, ao que Angel tenta corrigir: “Bem, na realidade...”, mas é interrompido pelo olhar de reprovação de Buffy, e se cala. Na temporada seguinte, Willow descobriria e assumiria sua homossexualidade, possivelmente validando o argumento que Angel não pôde completar83.

Tais elementos narrativos demonstram uma espécie de planejamento da trama como um todo e apelam especialmente à fãs, que se divertem dissecando cada episódio. Aqui entra em jogo uma espécie de interatividade serial, uma vez que nem todos os espectadores irão perceber tais detalhes e, por não serem elementos-chave da narrativa, tais detalhes não serão futuramente discutidos no enredo. Mas com a troca de informações em espaços online de fãs, forma-se, para parte destes, um conhecimento em conjunto – e interpretações – sobre detalhes que poderiam passar despercebidos.

83 Outros elementos ilustram a riqueza do universo de fundo da série. Em Fool for Love (5x07, Douglas

Petrie), assistimos Spike contar sua história de vida e sua dor quando ainda humano. Ele foi rejeitado por Cecily, sua contemporânea na sociedade londrina em cerca de 1880. Na temporada seguinte, em Older and

far away (6x14, Drew Z. Greenberg), vemos que Cecily transformou-se no demônio da vingança Halfrek,

através de uma única referência, jamais repetida ou mencionada novamente, de reconhecimento entre ela e Spike.

Figura 4: O elenco de BTVS na 2ª temporada: contraste entre os trajes de Buffy e Cordelia em relação à

Willow é uma constante no marketing e na série.

Fonte: Divulgação.

Figura 5: Buffy resgata Angel após ele ser torturado por Drusilla, em uma das muitas cenas em que o

vampiro acorrentado e torturado.

Fonte: Cena capturada pela autora do episódio What’s my line, part 2 (2x10).

BTVS misturou melodrama adolescente, terror, ação, comédia, todos costurados

em maior ou menor nível nos mesmos episódios. Para Esquenazi (2011), esta mistura é mais do que simples procedimento narrativo, relaciona-se com a temática mais ampla do seriado de inversão de papéis de gênero e transposição de limites entre masculino e feminino. Na primeira cena do primeiro episódio, tal subversão de expectativas de gênero

já é apresentada. Um jovem casal invade uma escola à noite, ela se porta com insegurança e demonstra medo, ele com segurança e um ar de rebeldia, parecendo querer “se aproveitar da ingenuidade” da moça. O contraste acentua-se ainda mais com o traje colegial usado por ela. Logo, a imagem da “presa” transforma-se em predadora, ao vermos a face da garota transformar-se, revelando-se uma vampira e atacando o rapaz. Tal cena já alude ao fato de que em BTVS as coisas não são o que parecem. Ao contrário do clichê dos filmes de terror, adolescentes não são (apenas) vítimas, mas são eles que atuam contra os monstros; garotas inocentes não são presas, mas caçadoras.

A mistura de gêneros narrativos combina-se, assim, a uma inversão de papéis de gênero no seriado e se revela com mais força na figura do vampiro Angel. Embora, principalmente nas primeiras temporadas, Buffy e Cordelia tenham a imagem bastante erotizada – ainda mais nas imagens promocionais do programa, como podemos ver na Figura 4 – Angel é sem dúvidas o personagem mais sexualizado do seriado (OWEN, 1999). O incontável número de vezes em que o personagem aparece sem camisa e/ou acorrentado em cenas que remetem a uma estética sadomasoquista é um dos principais elementos na composição de sua imagem de “homem fatal”, colocando-o repetidamente em uma posição de vítima à espera de que Buffy o salve84. É a ela que sobra um papel

mais estereotipicamente masculino, frequentemente colocando-se em ainda mais perigo para salvá-lo (ESQUENAZI, 2011). De acordo com seu criador, Joss Whedon, esta mistura de gêneros já está indicada no próprio título, em português Buffy, a caça-

vampiros: “[o nome] ‘Buffy’ é intrinsecamente cômico, e leva o espectador a esperar

humor; ‘vampiros’ indicam que o espectador pode esperar elementos assustadores e sobrenaturais; enquanto ‘caçadora’, antecipa ação, e ação tomada por uma heroína do sexo feminino” (MOORE, 2011, tradução nossa). Essas nuances do desenvolvimento narrativo do seriado oferecem subsídios para a compreensão do contexto e, desta forma, para a análise do texto narrativo da série.