UO 2 (8%) closed cycles
5.5 Breeder Systems
O setor do vinho verde Alvarinho enquadra-se na sub-região de Monção e Melgaço onde se produzem monovarietais de Alvarinho sob a denominação de origem
64
vinho verde. No entanto, verifica-se que hoje em dia produz-se monovarietais de Alvarinho em outros locais do país e pelo mundo inteiro o que representa uma nova fase para este setor e em particular para a sub-região uma vez que, como afirma Miguel Queimado da Associação de Produtores de Alvarinho, “já deixamos de ser os únicos a produzir monovarietais de Alvarinho”. Ainda segundo Miguel Queimado este problema agrava-se pela “decisão tardia de associar a comunicação do Alvarinho ao território o que se revelou um erro estratégico tal como o é a organização de concursos para dar visibilidade a outras regiões que produzem Alvarinho. Ana Paula Vale do Instituto Politécnico de Viana do Castelo afirma mesmo que “sendo o Alvarinho um produto de referência da região não se pode de maneira nenhuma perdê-lo” e que para isso seja possível “é fundamental a associação ao território para facilitar a sua defesa”. As limitações resultantes da sub-região onde está inserido não permitem assim ao seu Alvarinho ter empresas com dimensão internacional e por isso não consegue ter alavancas de negócio que suportem o seu crescimento. Não é por isso surpreendente, tal como afirma Manuel Pinheiro da CVRVV, “que nos últimos anos as vendas de vinho verde Alvarinho tem vindo a descer em contraposição com outros vinhos Alvarinhos de outros pontos do país”. Esta opinião é partilhada por Tânia Oliveira da ViniPortugal para quem “o vinho Alvarinho é uma das grandes bandeiras dos vinhos de Portugal” mas para quem “a ligação do Alvarinho à região de Monção e Melgaço tem vindo a ser esbatida”.
A dicotomia entre a quantidade e a qualidade produzida assume especial relevância e por causa disso começa-se agora a discutir a extensão da designação DOC, atualmente confinada à sub-região, a toda a região dos vinhos verdes.
A casta de Alvarinho é reconhecida de forma unânime por todos os entrevistados como possuidora de características extremamente interessantes o que se traduz num vinho branco que, enquanto casta branca, é muito interessante ao nível do nariz e da boca. Para Miguel Queimado é “sempre complicado ao nível das castas brancas fazer um monovarietal de uma casta só e que essa casta produza bom nariz e boa boca”. Esta situação leva a que geralmente se compense a produção de lotes com outras castas o que não acontece com o Alvarinho. Para Tânia Oliveira estas
65
características tornam o Alvarinho “um vinho top of mind com uma relação preço/qualidade invejável e uma casta que tem muita facilidade em agradar a profissionais e a consumidores”.
O Alvarinho da sub-região de Monção e Melgaço é assim um produto de excelência e identificativo da região classificado por Augusto Domingues como “o melhor vinho branco do mundo”. Manuel Pinheiro afirma que para além da casta “também a qualidade da uva e da viticultura permitem conseguir-se o melhor de uma casta que já por si é muito boa”. De facto, o monovarietal de Alvarinho desta sub- região é diferente e tem caraterísticas únicas. Esta diferenciação deve-se ao facto de as populações destes municípios trazerem esta casta há cem anos sendo por isso uma região inteiramente dedicada à casta. Para Miguel Queimado é nesta sub-região que “a casta atinge as suas potencialidades uma vez que se desenvolveu nesta região e na qual está adaptada a que se aliam a tradição e toda a experiência que esta região tem na produção desta casta ”. Por outro lado, esta sub-região tem características únicas uma vez que está inserida num vale que tem barreiras a oeste, este, a norte e a sul que proporcionam um clima mais continentalizado e menos mediterrânico o que origina verões quentes e frios e invernos frios e algo chuvosos. Este contexto natural é reforçado pela presença de uma massa de água muito interessante que permite alguma termorregulação da temperatura proporcionando noites frescas no verão que é o ideal para produzir estes vinhos, extremamente aromáticos e muito interessantes.
A performance do vinho Alvarinho no mercado nacional, onde é consumido a sua maior parte, tem vindo a decrescer com destaque para uma perda de mercado e de volumes bem como uma redução dos preços médios. De facto, segundo Manuel Pinheiro o vinho Alvarinho tem em Portugal uma grande imagem mas não tem por trás um volume de negócios que corresponda a essa grande imagem. Miguel Queimado afirma por outro lado que “os consumidores continuam a procurar muito o Alvarinho de Monção e Melgaço e que não existem problemas de stock. Este agente refere ainda que “esta crise, que se espera conjetural, tem impacto na procura e daí a necessidade de algumas marcas internacionalizarem”. Um excelente barómetro da performance são as revistas nacionais e internacionais onde os Alvarinhos desta região estão
66
sempre em posições de destaque. No mercado internacional o Alvarinho tem a vantagem de ser uma casta que também é promovida pela região espanhola da Galiza.
Os agentes entrevistados são também unânimes a reconhecer que atualmente se observa uma situação em que a oferta é superior à procura e perante a qual Manuel Pinheiro constata que um aumento da produção “só pioraria o problema”. Aprofundando ainda mais este assunto Miguel Queimado “não acredita na ideia da necessidade de escalas” até porque “nem todos os produtores juntos conseguem ter escala quando comparados com os grandes produtores mundiais”. Neste sentido a solução passará acima de tudo pela capacidade das empresas em profissionalizar-se, em perceber o seu caminho, os mercados que vão atacar e a sua forma de distribuição. De qualquer forma verifica-se que a produção de uva está a 50% do seu potencial produtivo.
As políticas públicas locais existentes, levadas a cabo pelos municípios da sub- região, são consequência da importância que é atribuída a esta fileira existindo um investimento considerável. A autarquia de Monção, por exemplo, colabora na potenciação deste produto com a execução de algumas medidas tais como a criação do Museu do Alvarinho para o qual já existe financiamento e que estará concluído até ao final de 2014 e a organização da Feira do Alvarinho de Monção na qual são investidos 100 mil euros anuais e onde 90% desse investimento é da responsabilidade do Município. Augusto Domingues refere no entanto que a feira é ainda um “certame popular e não profissional” pelo que urge investir no sentido da sua profissionalização. O município de Monção está ainda a trabalhar na modernização da produção do vinho através do emparcelamento e para o qual existem dois projetos neste sentido.
Miguel Queimado, embora reconheça que é sempre possível melhorar, afirma que “se há setor que pode estar feliz com a forma de organização que tem e como utiliza todos os dinheiros públicos para a sua promoção é o setor do vinho”. Numa perspetiva global é entendimento dos agentes que os agentes políticos não têm que estar em lado nenhum à exceção da promoção. Neste tema, Ana Paula Vale destaca o papel dos Municípios na promoção até porque é fundamental apostar naquilo que os caracteriza e que tem qualidade contribuindo assim para atrair público e turismo
67
valorizando em simultâneo a paisagem e a gastronomia “tal como fez o Município de Ponte de Lima com o Sarrabulho”.
Apontando ao futuro, Ana Paula Vale refere que a Comissão de Coordenação os Municípios devem reforçar os apoios aos pequenos produtores no sentido de os convencer a associarem-se. A profissionalização dos produtores é também apontada como uma necessidade pelo que são urgentes políticas para dar mais formação aos produtores.
Em sentido contrário é também reconhecido por vários agentes o erro estratégico que resultou do facto de se promover o Alvarinho sem a ligação ao território. Parte desta responsabilidade é atribuída aos Municípios criaram no consumidor a ideia que Alvarinho tem valor induzindo ao investimento na casta pelo país fora. Para Manuel Pinheiro “ao prescindir da relação ao território perde-se o argumento do este é o original os outros são cópias”.
A informação recolhida permite confirmar que as políticas públicas vigentes são de facto adequadas para a sustentabilidade do setor uma vez que existem medidas para o setor dos vinhos quer ao nível da sua organização, quer ao nível dos investimentos em diversas atividades, que contribuem para o seu crescimento e notoriedade. Inclusivamente, o erro estratégico cometido, no passado, pela ausência de políticas que associassem a comunicação do Alvarinho ao território e a mudança de orientação entretanto verificada confirma também a adequação das decisões políticas neste setor. Assim, estes agentes parecem validar a primeira proposição (P.1).
Foi ainda objeto de estudo no âmbito desta investigação identificar a importância da investigação e desenvolvimento, do conhecimento e da inovação para o crescimento e competitividade do setor. Importa aqui destacar um projeto, em fase de concurso do loteamento, para a criação do Minho Parque em Monção que é um investimento estruturante para Monção na ordem dos 13 milhões de euros. Neste parque existe o objetivo de criar uma incubadora de empresas onde que incluirá uma área do vinho e onde se prevê a criação uma linha engarrafadora comum a vários produtores de pequena dimensão. Este investimento de acordo com Augusto Domingues “permitirá a criação de uma marca única de valor acrescido e com stock
68
considerável que exponencie a internacionalização”. Verifica-se de resto a necessidade de reforçar o número de parcerias nesta área tendo por base a dicotomia necessidade- conhecimento uma vez só com o conhecimento é que é possível inovar e colocar produtos de qualidade no mercado. Ana Paula Vale destaca o papel das instituições de ensino superior e de outras unidades de investigação na potenciação das características do produto e na apresentação dos vinhos, nomeadamente a garrafa e a rotulagem. A formação é outra área onde o papel destas entidades deve ser relevante uma vez que não é possível falar em desenvolvimento do setor sem termos bons enólogos no mercado. Esta mudança de paradigma constata-se ao verificar a aposta nos jovens produtores que já tem outro conhecimento e outra forma de trabalhar.
As respostas obtidas sugerem a validação da segunda proposição (P.2) uma vez as entidades do sistema científico e tecnológico podem contribuir para a valorização dos processos produtivos e dos produtos, nomeadamente ao nível da garrafa e da rotulagem. Desta forma, afigura-se como válida a P.2.
Outro aspeto que importa analisar prende-se com o potencial de penetração de mercado das diferentes marcas sendo que importa distinguir, desde logo, a notoriedade das marcas do seu volume de vendas efetivo. É assim fundamental trabalhar as marcas existentes e optar-se por uma estratégia de push. Porém o Alvarinho debate-se atualmente com um problema que resulta da existência de dois segmentos (as grandes superfícies e a pequena distribuição) não existindo níveis intermédios o que leva os produtores de dimensão média a enfrentarem enormes dificuldades uma vez que o Alvarinho já não é um produto de nicho nem um produto de massas. O posicionamento das diversas marcas varia assim entre as que tem um preço de venda ao público entre os 6 e os 10 euros e as marcas de lotes de Alvarinho com outra casta e onde o preço de venda ao público passa para os 3-4 euros.
A possibilidade de criação de novas marcas parece também não representar uma solução no sentido de reforço da quantidade e qualidade do produto dirigido ao mercado externo. Efetivamente, a proliferação das marcas já existentes acaba por dificultar o trabalho dessas mesmas marcas até porque, segundo Tânia Oliveira, “os produtores têm muita paciência na vinha e na adega e depois na venda reina a
69
impaciência onde não existe a preocupação de construir marcas e parcerias”. No entanto, a criação de marcas conjuntas poderá ser um caminho para os produtores de pequena dimensão que, apesar da aversão existente à perda de identidade, deveriam caminhar no sentido da associação por forma a ganharem dimensão.
A segmentação de mercado, embora para os produtores desta sub-região o seu Alvarinho por si só já representar uma segmentação, deverá depender sempre do negócio e da quantidade produzida pelo agente em questão. No entanto, para Miguel Queimado, “embora existam produtores que apresentam uma segmentação bem definida esta não é a regra”. E a complexidade desta questão é reforçada pelo facto porque não sendo o Alvarinho um produto de produção ao longo do ano as decisões que que são tomadas em setembro repercutem-se em todo o ano. Isto assume especial importância nos vinhos brancos que, ao contrário dos tintos, são vinhos para vender no espaço de um ano. Este facto verifica-se, apesar de os Alvarinhos terem a capacidade de estagiar em garrafa por períodos superiores, uma vez que os consumidores parecem preferir o Alvarinho no seu primeiro ano. Neste cenário assume especial relevância a necessidade de uma segmentação correta e clara porque caso contrário obriga os produtores a colocar o produto de qualquer forma e a abdicar da segmentação idealizada.
Por fim procurou-se identificar os meios de comunicação e promoção mais utilizados por estes agentes e dos quais se destacam a educação e a experimentação do produto e as ações de formação. Porém não existe uma comunicação específica do Alvarinho que é comunicado pela região dos vinhos verdes através de spots publicitários, revistas e muppies. Na promoção internacional a presença destes agentes institucionais em feiras do setor tem como principais objetivos o apoio aos produtores quer à realização de negócios quer na identificação de distribuidores. Mais uma vez a dimensão dos produtores é apontada como um obstáculo à sua participação em feiras internacionais até por questões financeiras.
70