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O primeiro entrevistado foi o professor Ronie que tem 26 anos, é formado em educação física, é casado e leciona educação física na escola desde 2007. Por ser o primeiro a ser entrevistado mostrou-se mais apreensivo e notei que aos poucos ele foi ampliando suas falas, detalhando melhor suas
experiências e lembranças. Em suas falas ele explica sua origem e salienta a valorização do esforço individual:
Eu fui criado em família humilde, meus pais eram feirantes em Matão então na verdade eu não tinha contato direto com a terra, com plantação. Trabalhei muito com eles, tive infância e adolescência de trabalho mesmo. De esforço. E aí no terceiro colegial tive opção de fazer faculdade, fiquei um pouco perdido não sabia o que fazer, fazia capoeira eu me identificava. (entrevista, março de 2008)
Depreende-se desse trecho a valorização do trabalho e do esforço individual como dito anteriormente. Também salienta a busca pela continuidade dos estudos e a importância da família. Quando frisa uma origem “humilde” parece buscar se aproximar da origem dos alunos para os quais leciona. Quando Ronie expressa o sentimento de ter ficado perdido em relação à formação percebi que a docência não era uma opção inicial.
Já a professora Juliane, formada em biologia pela Universidade Estadual paulista e mestrado na Universidade Federal de São Carlos é docente da escola desde 2007 e foi entrevistada em abril de 2008. Demonstrou bastante nostalgia ao rememorar a infância. Também buscou elementos que a aproximassem da vida no campo, da terra ou do meio rural.
Meu nome é Juliane Cavalcanti, sou professora de ciências. Eu sou de São José do Rio Preto, minha família inteira é de lá e meus avós quando eu era criança tinham uma chácara.. Minha infância passei em fazenda, em chácara. Sempre gostei muito dessa parte de terra, de planta, de lugares calmos, tranqüilos. Só que sempre morei na cidade, em São José do Rio Preto. Aí fiz faculdade de Biologia na Unesp, lá em São José e já no estágio de iniciação científica de nível básico parti pra área da botânica. (Entrevista Juliane, abril de 2008).
E interessante perceber que nessas falas, logo após uma breve apresentação de si ou da família os professores já buscaram falar sobre o meio rural ou atividades que estejam a ele ligadas. Ronie citou a função de feirantes dos pais que trouxe à entrevista a idéia do cultivo, do contato com plantação ou algo próximo disso. Juliane também já inicia uma apresentação na qual ocupou posição significativa o fato de passar férias na chácara dos avós. Ela vai além elaborando um discurso que se posiciona positivamente em relação ao meio
rural, ao campo quando disse gostar muito “dessa parte de terra”. Adjetivos como calmos e tranqüilos foram recorrentes nas lembranças sobre o campo. Também adjetivam o campo hoje quando falam do assentamento.
Mas o contato com a terra na infância ficou mais bem vislumbrado nas falas de Miraí e Odete professoras que efetivamente viveram em pequenas propriedades rurais.
Meus pais são camponeses, eles vivem no campo até hoje. É lá no triângulo mineiro. Faz 27 anos que eu moro aqui eu já sou Araraquarense, minhas filhas nasceram aqui. Eu vim para estudar porque não tinha parentes em cidades maiores. Onde nasci tinha uma tia que morava aqui e sempre quis estudar meu sonho era ser professora, pedagoga mesmo. Meu pai tinha seis meninas, as coisas eram muito difíceis. (Miraí, 2008) Mirai já utilizou o termo camponeses para definir a própria família o que relaciona toda sua infância com a vivencia da terra, do cultivo e da criação. Também mostra relação de pertencimento à cidade de Araraquara. A vida no campo é expressa de modo a indicar dificuldades como o acesso à escola, e condições econômicas difíceis para sustentar uma família de seis meninas, mas é expressa de maneira romantizada.
Me lembro do cheiro da terra molhada, das plantações de milho, arroz, algodão e de meu pai sempre cuidando da terra e dos animais. Toda minha alimentação era natural, ar puro, brincadeiras educativas (pula corda, cantigas de roda, pega- pega, esconde-esconde... (Miraí, 2008)
Também busca lembrar elementos da escola rural e é interessante cruzar sua fala com a história da educação rural quando demonstra a distância ou inadequação na formação de seus professores: “(um engenheiro era professor...). sobre a escola Mirai ainda revela mais:
Estudei até quinto ano da escola rural, eu era muito inteligente. Quando era criança. A professora não dava conta de dar resposta. Depois de quinta a oitava eu achava muito ruim a matemática, um engenheiro era professor. E hoje eu não gosto de matemática. Não que os professores sejam ruins, mas aquele que eu peguei não tinha metodologia e minhas duas filhas também não gostam. A Maria Alice, a mais velha, tira só dez de física, mas de matemática ela nunca conseguiu um dez
é no máximo oito e meio... Não sei acho que é hereditário. (Miraí, abril de 2008)
Isso está presente nas histórias sobre a educação do campo quando observei através das leituras realizadas que professores eram profissionais liberais que prestavam algum tipo de serviço aos donos das fazendas nas quais se localizavam a escola. As mulheres professoras das fazendas ou eram leigas ou jovens abastadas que se dedicavam a lecionar. Isso poderia explicar a chamada “falta de metodologia”.
Miraí relembra da primeira professora que foi muito marcante, teria influenciado sua docência:
A primeira professora foi a que mais gostei. Ela era firme e ensinava bem. Ensinou-me as coisas que marcaram a minha vida escolar. Eu adorava o dia da poesia, o dia do Hino nacional e quando ela lia histórias sobre camponeses. Isso era legal. (Mirai)
Odete enviesa sua entrevista inicial pela tentativa de relacionar à infância seu apreço pela educação e pela escola assim como Miraí. A pergunta que utilizei para iniciar todas estas entrevistas foi: “Me conte um pouco de sua história, sua infância” e isso mostra que não houve direcionamento para a questão da terra ou da educação ainda que esperasse indícios dessa relação. Isso confirma a busca pela adequação do discurso, da seletividade da memória que se presta à reflexão dirigida. Inclusive esperava ouvir mais sobre irmãos e brincadeiras.
Eu sempre gostei de estudar. Meu pai morreu quando eu tinha seis anos. Meu cunhado era uma pessoa muita culta. Não que ele tivesse escolaridade, mas lia muito. Ele era sócio do clube do livro e me orientava na leitura. Fiz até a quarta série na escola rural e parei de estudar por muito tempo. Aos dezenove anos fui morar em Jaboticabal para trabalhar na Telesp. Voltei a estudar, mas como era arrimo de família não pude cursar na época uma faculdade. (Odete, 2008).
Percebi assim que os professores, ainda que tenham vivido no meio urbano buscam saberes experienciais que os aproximem da realidade atual. Buscam inclusive adequação do vocabulário. Notei que a escola que
trabalham é denominada escola do campo, mas Odete e Miraí estudaram na “escola rural”. A diferença na nomenclatura se deve às propostas atuais que evocam o termo do campo por acreditar que ele contempla todos os moradores do meio rural: camponeses, assalariados rurais, assentados.
E estas professoras dirigiram seus esforços no sentido de analisar a questão da educação neste espaço invocando informações como os professores e as dificuldades. São elementos que mostram que possuem concepções sobre o campo cujo caminho é o da valorização.
Essas primeiras entrevistas além de mostrarem as origens de cada professor serviram para “quebrar o gelo” durante o processo. Foram entrevistas marcadas por um afastamento respeitoso e uma escuta ativa que os motivava a falarem livremente. Posteriormente a essa etapa não era difícil ouvir: “Olha quem chegou! Tudo bem? Quer conversar hoje?” quando chegava à escola. Aliás, percebi o quão apreciadas eram as entrevistas pelos professores.
Isso me indica que a reflexão detonada pelas entrevistas era positiva como um processo de auto-análise, uma forma de explorar visões e sentimentos adormecidos. Reviver situações preenchendo-as de significados mais amplos preenchê-las de explicações. Assim, pude avançar nas entrevistas. Adentrei o mês de maio de 2008 repetindo o processo com os quatro professores. Alternava visitas para entrevistas, pequenas conversas e outras para assistir e participar das aulas.
Nessa etapa assisti aulas de Odete e participei de uma aula “prática” de Mirai que faz parte de um projeto sobre plantas. Na ocasião os alunos coletaram folhas diversificadas no terreno amplo da escola para fins de catalogação. Coletavam e já registravam dados da planta como: tamanho, cor das folhas se era comestível ou remédio etc.
Em outra ocasião dando continuidade ao projeto fizeram um resumo, uma síntese sobre a experiência de um defensivo à base de melaço que eles mesmo haviam construído e implantado na lavoura do pai de um dos alunos. Usaram fotos, questionários comparando o antes e o depois da experiência. Como a plantação era de goiaba fomos até a cozinha para observar o preparo de uma goiabada.
honrada em ser procurada para ensiná-los. E a goiabada estava de fato deliciosa.
De forma cada vez mais integrada passei a ser figura freqüente na escola e iniciei as entrevistas da segunda etapa que objetivavam desvendar os motivos da opção pela docência de cada um.