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4 Bakgrunnsforhold, 1999- og 2001-kullet

4.6 Botid i Norge

Na sala D, não há regras claras sobre o que deve/pode ou não ser realizado pelas crianças, apesar de Renata, em diversos momentos da rotina, remeter-se a supostas regras que deveriam orientar seus comportamentos. Falas do tipo: “Vocês sabem que

aqui na sala não tem esse negócio de lugar marcado!” e “Eu já disse mil vezes que ou pega livro ou pega brinquedo, que os dois não pode!” induzem à ideia de que as

crianças têm a obrigação de conhecer determinadas regras de conduta, apesar de não haver qualquer indício (cartaz contendo as regras da sala, por exemplo) de que essas normas foram alvo de discussão entre a professora e as crianças.

A discrepância observada nas posturas de Renata e Carla, que costuma exigir atitudes diferentes das crianças77, certamente contribui para tornar o ambiente ainda mais confuso, gerando insegurança nos pequenos, que, muitas vezes, agem na tentativa de agradá-las, mas acabam obtendo o efeito contrário.

O desejo de Renata em ser obedecida a faz criar determinadas regras no sentido de manter o controle das crianças e demonstrar quem está no poder, como leva a crer o exemplo abaixo:

Ao chegarem à sala após o lanche, Renata solicita que as crianças sentem em círculo no chão. A maioria das crianças obedece, mas algumas permanecem em pé. Renata diz que só vai distribuir os brinquedos quando todas estiverem sentadas. Todas sentam, e Renata enfatiza que só é para levantar quando ela mandar, apesar de não explicar o motivo para tal. A professora, então, le vanta e começa a espalhar os brinquedos pelo chão. À medida que vai espalhando, algumas crianças levantam e correm para pegá-los. Quando ela percebe o que está acontecendo, para de espalhar os brinquedos e diz de forma ríspida:

“Voltem! Eu ainda não disse que podia!” As crianças obedecem e assim que todas voltam a sentar, Renata, com ar de satisfação, diz: “Agora pode!”.

(NOTAS DE CAMPO, 11/5/2009)

Certamente na tentativa de exercer o seu papel de boa professora, comprometida, responsável pela ordem estabelecida na sala, Renata provavelmente não consegue

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Lembrar do momento da escovação dos dentes, em que Carla solicita às crianças que fiquem de cócoras, enquanto Renata reprova essa conduta.

perceber que está sujeitando as crianças ao seu domínio e à sua vontade. Como lembra Foucault (1986), o disciplinamento opera-se em “processos contínuos e ininterruptos que sujeitam os corpos, dirigem os gestos, regem os comportamentos etc.” (p.182).

Diversas outras situações, assim como essa, que exigem das crianças o controle dos seus corpos e a contenção dos seus desejos, foram observadas na sala D, entre as quais estão:

Andreza diz à Renata que quer ir fazer xixi. Renata diz que é para ela fazer xixi depois da escovação dos dentes e não antes. A criança obedece, mas fica quietinha como se esperando ansiosamente por esse momento.

(NOTAS DE CAMPO, 14/4/2009) Em um momento de brincadeira, algumas crianças vão até onde estão suas chinelas a começam a calçá-las. Renata percebe e manda que as tirem. Antônio se recusa. Renata o pega pelo braço, o leva para o lugar onde ficam as chinelas e ordena, mais uma vez, que ele tire. Ele se recusa novamente e ela mesma tira a chinela do pé dele, dizendo: “É hora de tirar a chinela. A

hora de calçar é a hora de ir embora”. Ele fica calado.

(NOTAS DE CAMPO, 19/5/2009) Renata distribui revistas entre as crianças, que estão nas mesas. Rana sai da mesa e vai olhar a sua revista sentada no chão. Renata percebe e manda que

ela volte para a mesa, dizendo: “Rana, você sabe que é pra olhar os livros na mesa e não no chão!”. Rana não obedece de imediato. Diz alguma coisa que

não compreendo e permanece sentada no chão. Renata, ent ão, levanta da sua cadeira e se dirige a ela. Rana percebe, se levanta rapidamente e volta ao seu lugar à mesa. Renata vai até ela e encosta mais ainda a cadeira na mesa, como se esse ato reforçasse a sua ordem.

(NOTAS DE CAMPO, 3/6/2009)

A preocupação da professora com o controle, que parece ter implícita a busca pela uniformidade das condutas das crianças, também se expressa no estabelecimento de horários iguais e fixos para toda a turma realizar cada atividade, até mesmo aquelas relacionadas às necessidades fisiológicas. De acordo com Foucault (1987, p.131), “é característica do poder disciplinar anular os efeitos das repartições indecisas, o

desaparecimento descontrolado dos indivíduos, sua circulação difusa”.

Foram raras as vezes em que Renata “quebrou” as regras estipuladas por ela,

como foi o caso da situação descrita a seguir:

Carlos acaba de comer e diz à Carla que quer fazer xixi. Ela diz que ele tem que esperar os coleguinhas. Ele insiste, mas Carla não lhe dá atenção. Ele levanta para pedir novamente à Carla, mas ela o pega pelo braço, o leva ao lugar em que estava sentado e lhe dá suco. Ele toma o suco de pé. Ao acabar vai, mais uma vez, onde está Carla e diz que quer fazer xixi. Ela o olha, mas não diz nada. Continua servindo o suco para as outras crianças. Passados

alguns instantes, o olha e diz: “Daqui a pouquinho você vai”. Renata chega

ao refeitório e senta em uma das cadeiras. Carlos vai até ela e pede duas

não?” Ele diz que não com a cabeça. Ela diz: “Pois então vá.” Ele corre ao

banheiro.

(NOTAS DE CAMPO, 8/4/2009)

Observa-se, pois, que regras desse tipo, sem objetivos explicáveis, são comuns no cotidiano das crianças da turma investigada. Situações como essa, em que elas são obrigadas a esperar ociosas para satisfazer necessidades básicas, são, no mínimo, desrespeitosas, para não dizer desumanas e humilhantes. Como, então, esperar que as crianças construam uma imagem positiva de si mesmas? Como acreditar que elas podem desenvolver sua cidadania, seu senso crítico, em um ambiente em que são coagidas e hostilizadas?

Além disso, é necessário ressaltar que várias das regras impostas às crianças pela professora são inconstantes e desprovidas de critérios claros, como é o caso das situações descritas abaixo:

Ao voltarem à sala, Gabriel diz à Renata que Beatriz sentou em seu lugar.

Renata responde: “Gabriel, eu já falei que aqui não tem lugar marcado!”.

Gabriel volta com semblante triste, talvez decepcionado, e senta em outra cadeira.

(NOTAS DE CAMPO, 24/3/2009) Joana vai correndo ao banheiro e quando volta Maria está sentada no lugar em que ela estava. Ela chora empurrando Maria, que começa a gritar. Renata

olha de longe e diz à Maria que Joana já estava naquele lugar antes.

Maria não contesta e sai. (NOTAS DE CAMPO, 2/4/2009)

A contradição observada na ação da professora diante dos episódios descritos sugere que as regras de convivência não estão claras para ela, dificultando-lhe perceber qual é a posição mais justa diante de cada situação. Também chama a atenção a passividade com que as crianças aceitam as determinações da professora, mesmo que a contragosto. Pelo estilo de interação que vem sendo observado entre ambas (baseado no autoritarismo) supõe-se que as crianças já perceberam que é a vontade da professora que prevalece no final, o que induz a maioria delas a não contestar as suas decisões.

Outro exemplo da arbitrariedade com que as regras são vivenciadas na sala D,

acontece no momento da brincadeira “livre”, quando as crianças costumam correr,

utilizar os brinquedos de forma não convencional e brincar embaixo das mesas, como foi descrito anteriormente. Muitas vezes, Renata observa tudo sem nada dizer, como se não atribuísse importância ao fato. Em outros momentos, faz inúmeras intervenções,

mesas?!”; “Lucas, esses brinquedos são pra usar desse jeito?”; “Se vocês ficarem correndo pela sala, eu vou tomar os brinquedos!”.

A postura de Renata diante das supostas regras da sala, às quais as crianças apenas obedecem sem qualquer tipo de reflexão, vai na contramão da construção da autonomia moral infantil que, segundo Piaget (1977), refere-se à capacidade de tomar decisões sobre o que é certo ou errado levando em consideração fatos relevantes, independentemente de recompensa ou punição. Tomando todas as decisões, decidindo todas as regras e utilizando recompensa e punição para impor essas regras, a professora acaba reforçando a heteronomia infantil.

Para a criança ter a possibilidade de ir construindo gradualmente sua autonomia moral, faz-se necessário que ela conviva com adultos e outras crianças, em um ambiente em que exista o respeito mútuo. Visto que as raízes da autonomia moral encontram-se nas relações democráticas, esse ambiente deve propiciar oportunidades para as crianças assumirem algumas responsabilidades, tomarem decisões, discutirem seus pontos de vista, expressarem livremente seus pensamentos e desejos, investigarem e estabelecerem relações etc. Assim, não há respeito mútuo se a criança não experienciar relações de cooperação; e a cooperação ocorre necessariamente a partir da convivência da criança com seus pares e com adultos (KAMII, 1990).

Faz-se necessário ressaltar, no sentido de compreender a postura de Renata, que segundo Kamii (ibidem), a maioria dos professores também é manipulada pela lei da recompensa e punição. Esses profissionais são criticados pelas instituições das quais fazem parte e até mesmo pelas famílias que as frequentam, por exemplo, se não conseguem resultados considerados satisfatórios em relação à aprendizagem, pelas crianças, dos conteúdos julgados importantes. Esse tipo de postura contribui na formação de professores heterônomos, o que é preocupante tendo em vista que não se pode colaborar na formação de um sujeito autônomo sendo heterônomo. Assim, a atmosfera moral presente na sala D deve ser compreendida de forma contextualizada, como atestam os estudos de Bronfenbrenner (1996).

Apesar da conquista da moral autônoma só começar a ser possível a partir do momento em que a criança atinge o chamado pensamento operacional (aproximadamente aos sete anos), sendo o alcance da autonomia plena uma conquista possível na adolescência, o professor não deve reforçar comportamentos heterônomos

das crianças. Ao contrário, precisa ter consciência da sua responsabilidade nesse processo, que está em curso.

Segundo Devries e Zan (1998, p.137), “o objetivo mais amplo de envolver as crianças nas tomadas de decisões e estabelecimento de regras de sua classe é contribuir para uma atmosfera de respeito mútuo, na qual os professores e crianças praticam a auto-regulagem e cooperação”. Agindo, assim, o professor contribuirá para o desenvolvimento da autonomia moral infantil.

Essa, contudo, não parece ser a atmosfera dominante na creche Semente do Amanhã. Em nome de regras rígidas e inquestionáveis até mesmo pelas professoras, as crianças são, muitas vezes, prejudicadas em seu desenvolvimento, como está relatado na situação a seguir:

Após uma longa noite de chuva, Fortaleza amanheceu inundada. Ruas estão completamente alagadas; rios e canais de esgoto transbordaram; pessoas estão desabrigadas, como não param de noticiar os jornais locais. Chego à creche atrasada, por volta das 8h30min. Todos estão no refeitório. Para minha surpresa, encontro as crianças, como sempre, de calção e descalças. O forte vento que ecoa pelos corredores faz algumas delas se encolherem na provável tentativa de se aquecer um pouco. Meu coração se entristece diante daquela situação. Olho para as professoras e constato que algumas delas, assim como eu, estão usando blusa de mangas compridas. As outras, de calças jeans, friccionam seus braços e reclamam da temperatura relativamente baixa. Aproximo-me, comento sobre isso e pergunto se elas não acham que as crianças também estão sentindo frio. Elas se entreolham com ar surpreso e

uma responde: “Realmente!”, mas não faz nada a respeito.

(NOTAS DE CAMPO, 24/3/2009)

Como foi mencionado no capítulo referente à descrição da rotina da creche, sempre que chegam à instituição, as crianças são solicitadas a trocarem suas roupas por calções coletivos. Essa regra da instituição parece ter sido incorporada pelas professoras

de tal forma que, mesmo diante de situações inusitadas, elas repetem o que “deve” ser

feito cotidianamente, sem qualquer tipo de questionamento. As crianças, como sempre, são as mais prejudicadas diante disso.