5 APPLYING THE THEORY
5.2 BOSNIA HERZEGOVINA
Nos trabalhos de R. Feuerstein (1991), encontramos algumas referências para pensar a interação professor-aluno com valor de mediação. Para esse autor, a mediação consiste numa qualidade específica da relação interpessoal, constituindo fator essencial para a aprendizagem, embora não seja o único. Uma parcela do que aprendemos resulta de nossos contatos diretos com a realidade, tanto com os estímulos externos como com os internos, mas nenhum ser humano se constitui como tal sem a aprendizagem mediada por outro.
Em sua proposta, ele situa a importância e define as características de uma experiência de aprendizagem mediada (EAM). Numa EAM, o educador se interpõe entre a realidade e o indivíduo de modo a:
- selecionar e ampliar os estímulos, focando-os das mais diferentes formas, para obter a compreensão do mediado para com as intenções do mediador e a sua reciprocidade;
- interpretar os estímulos, de acordo com a idade da criança, conferindo-lhes valor e significado diante dos valores culturais de uma comunidade, de uma família e de uma nação, de modo que as ações ganhem sentido e que se crie a necessidade de tomada de consciência e de análise crítica da realidade;
- garantir a transcendência dos conhecimentos para além da experiência presente e da satisfação das necessidades imediatas, procurando estabelecer ligações com outras situações, ampliando as relações de tempo e espaço, desde um contexto imediato e projetando para o futuro, de modo a garantir a generalização e a aplicação dos conhecimentos para situações novas com autonomia. O que é vivido com transcendência encontra-se inserido numa rede de relações, como um modelo que pode ser reutilizado em situações similares. A percepção da realidade deixa de ser fragmentada e episódica e o mediado se descobre num contexto mais integrado;
- regular a conduta do mediado (nem impulsiva nem retraída), simultaneamente com o ritmo da transmissão e com o grau de dificuldade das tarefas, de modo a garantir o sucesso do desempenho;
- garantir o senso de competência do mediado, através de apreciações objetivas (e não apenas afetivas) de sua produção.
Feuerstein (1991) considera que, para poder realizar as funções de mediação de modo efetivo, o adulto regula suas intervenções de um modo consistente com alguns critérios. Ele identificou dez desses critérios, sendo que a maioria deles é pertinente a contextos específicos de interação e variam conforme os valores culturais de uma sociedade, podendo comparecer ou não em uma EAM. No entanto, segundo esse autor, três deles existem em todas as culturas, constituindo-se como fundamentais para se promover uma interação com características de uma mediação. São eles:
• critério da intencionalidade/reciprocidade pelo qual se busca despertar o interesse
do aluno e estabelecer um foco comum numa atividade. Com a mediação da intencionalidade/reciprocidade, o professor busca meios para mobilizar o aluno para a atividade, compartilhando com ele um foco comum. Para isso ele deve deixar claro, primeiro para si mesmo e depois para o aluno, qual é a meta que está valorizando naquele momento. A reciprocidade “ é uma relação dialógica6, na segunda pessoa, em que toda a ação vai do eu ao tu, e volta de novo ao eu em uma dinâmica espiralada e interminável” (TAVARES, 2001, p. 36.). Analisando o valor da reciprocidade nas relações interpessoais numa escola reflexiva, diz Tavares: “As relações pessoais terão de funcionar nos dois sentidos e ser incondicionalmente positivas” (2001, p. 36.). Para conseguir uma reciprocidade, o professor modifica o estímulo e se modifica (em seu ensino), na interação com o aluno. No lugar de uma relação linear, em que o professor é a fonte única das informações e o controlador dos processos, não se envolvendo na relação que o aluno estabelece com a atividade - a não ser para avaliar os seus resultados –, busca-se uma relação da qual o professor é parte; configura-se uma triangulação
6 Dialogia, para E. Morin, significa que “duas lógicas, dois princípios, estão unidos sem que a
entre o professor, o aluno e o objeto de conhecimento, na qual o compromisso do professor é com o aluno na sua aprendizagem.
• critério da transcendência, pelo qual se procura ampliar o aprendido e o sentido
da atividade para além da experiência imediata. Macedo, Petty e Passos, destacam a necessidade da tematização da experiência vivida pela criança que “possibilita a transposição das aquisições para outros contextos” (2000, p. 23, grifos da autora), de modo que esta possa ganhar consciência sobre aspectos implícitos no jogo (habilidades, obstáculos, atitudes e valores, por exemplo). No modelo da EAM, proposto por Feuerstein (1991), o termo usado para essa operação é transcendência7, para indicar que há um novo patamar de aprendizagem sendo elaborado, pois a experiência agora: 1) é representada e refletida, portanto, transcende o vivido concretamente; 2) dessa forma, orienta-se para o passado ou para o futuro.
• critério do significado, mediante o qual se confere um sentido às aprendizagens,
em torno de valores e atitudes. Numa EAM, são valorizadas as implicações de significado presentes numa atividade de ensino-aprendizagem, sendo que essas implicações encontram-se discriminadas em níveis progressivos de abstração, conforme um processo indutivo-dedutivo de pensamento. Desse modo, transcendência e significado estão interligados: discutem-se inicialmente as aplicações do aprendido, através de exemplos, dos mais concretos aos mais abstratos, relacionando-os com a vivência cotidiana nas atividades de estudo, de trabalho, familiares, de lazer, etc., para favorecer a construção do significado do aprendido em contextos mais amplos e sua formalização em princípios generalizadores, normativos para a ação do mediado.
Outros aspectos da mediação foram também identificados pelo autor citado, tais como a mediação do senso de competência, de partilha dos conhecimentos e da regulação da conduta, mas estes, como já dissemos, seriam variáveis conforme a cultura em que se encontram.
7 Transcendente: que revela perspicácia; agudo, penetrante, sagaz; que está acima das idéias
e conhecimentos ordinários; na fenomenologia e no existencialismo, o termo refere-se à percepção mediatizada dos objetos e realidades do mundo externo, em oposição ao que a consciência percebe imediatamente de si mesma. Fonte: Dicionário eletrônico Houaiss da língua portuguesa.
Pensamos que uma EAM, baseada nos critérios citados, facilita a identificação da qualidade do processo de interação professor-aluno, objetivando algumas competências docentes no sentido de:
- orientar o pensamento para níveis de maior abstração, promovendo um distanciamento na interação do indivíduo com o ambiente e seus estímulos, de modo que essa interação passa a ser mediada internamente por processos cognitivos e externamente por sistemas de representação codificada;
- planejar as estratégias de ensino em função da tríplice interação entre mediador, mediado e tarefa, atentando particularmente para a interação verbal e a não verbal;
- desenvolver recursos para a diferenciação psicológica dos alunos, em termos de avaliação dos processos e dos progressos das aprendizagens e
- promover a reciprocidade dos alunos para com os objetivos da ação educativa, “implicando os alunos na sua aprendizagem e no seu trabalho” (PERRENOUD, 2000).
Em nosso estudo, adotamos como referencial para as competências na função mediadora, os critérios de mediação, no quadro da teoria da experiência de aprendizagem mediada (EAM). Entendemos que eles cumprem de modo satisfatório os requisitos para a definição de competências na função mediadora do educador porque 1) orientam a prática docente para competências mais específicas e 2) mantêm explícito o seu vínculo com um quadro de referência (PERRENOUD, 2000).