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Como até agora constatado, a hipótese de que os textos considerados românticos são, na verdade, conteúdos machistas que normalizam e se articulam de certa forma aos padrões constatados em relacionamentos abusivos, foi uma conjuntura observada independente da autoria do texto, mas prioritariamente nos considerados até então neutros, e também nos propriamente machistas. Neste momento, quer se perceber que estereótipo de mulher está mais enredado aos padrões românticos e abusivos disseminados nos textos.

Primeiramente se nota que a mulher que se encaixa nessa nova ordem regida pelos imperativos da pós-modernidade – como visto no quadro D.13 – é a independente financeiramente, liberal sentimentalmente, e claramente idealizada. Essa mulher também está presente nos enunciados que propagam a ideia de um relacionamento descartável, e

sobre ausência de planos a longo prazo. O fator da idealização, além de dialogar com os conceitos românticos, situa-se no grande fluxo de informação próprio da contemporaneidade, ou seja, esse conceito chega aos indivíduos por diversas formas e canais. Quanto aos outros estereótipos, não há números expressivos que indiquem alguma outra imagem proeminente.

A mulher de atitude é expressivamente vista atrelada à ideia da ausência de planos a longo prazo, o que é curioso ao passo que há um discurso incentivando a mulher a ser ativa quanto à conquista amorosa, mas não que necessariamente dessa forma ela conquistará um relacionamento proveitoso, ou resultará para ela em um final feliz. O mesmo número de vezes que se nota a mulher de atitude ligada à ausência de planos a longo prazo, enxerga-se a mulher insegura, mas essa é justificada pelos textos por meio de seus enunciados, pois o fator de insegurança seria supostamente uma condição formulada pela própria “mulher”, ou seja, ela é a própria culpada por sua falta de segurança no relacionamento.

Outros números que contradizem as suposições sobre os estereótipos trabalhados nos textos são os da mulher segura, a sexy, e opostamente o da sem comprometimento com a aparência, e até mesmo da romantizada, que são postos atrelados aos enunciados que acusam a ausência de planos a longo prazo, ou seja, independente dos requisitos que essa mulher esteja disposta a corresponder, não são suficientes para atender as exigências de um relacionamento duradouro.

Quanto à mulher idealizada, neste momento se elucida de quem se está falando de fato, assim como que essa mulher é substancialmente um produto da imaginação do homem. Há praticamente uma impossibilidade dessas imagens corresponderem a qualquer característica real que uma mulher possa ter. No trecho abaixo retirado do texto “Você vai encontrar uma mulher incrível. E vai perdê-la” (Anexo A.22), há obviamente um exagero por parte do autor, mas ao mesmo tempo figura muito bem o que seria considerável que a mulher contemporânea atendesse quanto a sua pluralidade de características.

Ela quase ter sido sua é muito pior do que ela nunca ter sido. O que é ter do seu lado tudo aquilo que sempre desejou que Deus fizesse daquela parte da sua costela. Loira, sarcástica, cheia de frases, definições e comportamentos. Atrevidos, apaixonantemente tímidos, quando lhe convém. Impõe sua presença. Conhece as regras tanto de um jantar cinco estrelas como de uma trepada num pulgueiro qualquer, alta madrugada. Ela é um tratado. Ela é rock and roll. Ela é uma Zelda Fitgerald moderna. Por ela até eu, coração alvinegro, fiquei com mais simpatia pelo Palmeiras. (Petillo, 2014).

Esse trecho diz expressamente sobre como as demandas sociais, e afetivas, recaíram sobre a mulher contemporânea, e a impeliram de tal maneira, que esta tem de ser capaz de lidar com antigas exigências – como a maternidade – e absorver novas – como a dinâmica profissional – e, ainda atender aos padrões de beleza previamente estabelecidos. A possibilidade de uma identidade plural, para as mulheres então, não é vista como uma oportunidade de expansão e conhecimento, mas sim de um aumento de expectativas para atenderem – dos outros e de si próprias. A primazia do indivíduo conforme apresentada nos textos, parece ser um índice crucial à autoidentidade, e articula-se com a ideia de uma mulher independente sentimentalmente e, com a mulher liberal sexualmente, que se insere na máxima do blog: “falar do tema sem tabus nem preconceitos”.

O que não se nota, praticamente, é a ideia da mulher independente financeiramente ligada à primazia do indivíduo; ou seja, conferem certa independência à mulher em relação a seu corpo, mas não quanto a sua situação social. Como visto no capítulo I, a inserção da mulher no mercado de trabalho, a correção das desigualdades entre gêneros sobre oportunidade, e a possibilidade de independência financeira são índices básicos para a superação das disparidades e a conquista real da autonomia pelas mulheres. O fato de se considerar a realização de objetivos próprios, sem ponderar os do parceiro – que é um conceito muito encontrado sob autoria masculina – articula-se com a ideia de uma mulher idealizada, e/ou liberal sexualmente – o que se entende que para que o homem consiga atender suas próprias demandas, necessita -se de uma mulher que corresponda com suas exigências, ou seja, formada em sua imaginação e liberal quanto a sua sexualidade, para que também seja garantido seu prazer erótico.

Essas mesmas mulheres idealizadas, e também a romantizadas, estão atreladas a um relacionamento perfeito; enquanto que a mulher independente sentimentalmente – que se articula com a ideia de primazia do indivíduo, é observada vinculada aos relacionamentos casuais – ou sem compromisso pelas partes; assim como a mulher promíscua é notada vinculada ao mesmo conceito, só que em menores números. A mulher difícil de ser conquistada – que seria considerada a mulher virtuosa no romance clássico – é pouco visualizada, mas quando presente ainda faz parte do relacionamento perfeito; mais um indício de como os conceitos clássicos do romantismo ainda estão presentes na sociedade como um todo. Em contraposição, a mulher independente, que também pode ser uma mulher difícil de ser conquistada segundo os conceitos românticos, quase não é notada nos enunciados sobre relacionamentos.

Quanto aos conceitos inerentes ao amor romântico, é basicamente a mulher idealizada que aparece vinculada a todos eles, ou seja, é somente a mulher fruto da imaginação masculina que corresponde aos padrões românticos clássicos. Assim como a mulher romantizada é obviamente atrelada à ideia de um par perfeito, como também presente na confusão do conceito de amor e paixão; ou seja, é situada e corresponde com as primeiras fases do relacionamento, pois conforme observado nos textos, pouco se nota relatos e problemáticas próprias do decorrer da relação. Assim como o homem provedor só corresponde à mulher romantizada, pois essa é vista como passiva da ação de amar do homem, em que somente este é capaz de prover amor que ela “necessita”. Também assim é vista a mulher insegura, atrelada à ideia do homem provedor, que é quem lhe proverá a segurança que lhe falta. No trecho abaixo do texto “O Último Romântico – O que as mulheres esperam de um homem” (Anexo A.52) é possível averiguar essa ideia tratada até aqui:

Homens precisam passar segurança. Não precisam ser fortes ou algo assim. Podem ser baixinhos, gordinhos e com pouco talento para as artes marciais. Mas precisam passar segurança ao entrelaçar os dedos na gente, meio que como nos gritassem que tudo vai dar certo. Homens precisam ter um colo paterno, mas saber que não são nossos pais. Homem é um misto de irmão mais velho cuidadoso, irmão mais novo implicante e primo safado do interior. (Rodrigues, 2013).

Esse, em particular, é um dos textos que foram considerados machistas ao assumirem a voz feminina para difusão de ideias que fazem parte do ideário masculino. Nos relacionamentos abusivos, em parte da retórica da superioridade e necessidade masculina, observa-se que a mulher insegura também é culpada pela conjuntura, ou seja, como se sua insegurança fosse uma escolha, um atributo inerente a sua personalidade. A mulher insegura também está presente nos enunciados que ditam normas de comportamento, o que supostamente deve ser como o não exemplo a seguir, pois a presença da mulher segura é observada praticamente o mesmo número de vezes nesses discursos.

A mulher segura aparece como uma imposição da nova ordem, pois é visualizada nos enunciados sobre normas de conduta. Assim como a mulher de atitude, a independente sentimentalmente, a liberal sexualmente e a sexy, que são estereótipos que foram mais observados nos enunciados redigidos pelo editorial, ou por mulheres. Os autores homens, que abordaram mais os estereótipos da mulher idealizada e da mulher romântica, pode-se observar que são os responsáveis pelos enunciados que ditam as normas para que a mulher assim se mostre. O fato de a mulher mudar algo para conquistar um homem também aparece

atrelado ao estereótipo da mulher romantizada, e curiosamente da mulher de atitude, denunciando que esta aclamada atitude é em função de um relacionamento, e não um atributo da independência conquistada pela mulher.

Nesse sentido, também se nota uma desvalorização do plano de vida da mulher em função de ser sexy, ou seja, as narrativas apresentadas, em sua essência, conduzem a mulher por esse caminho, em que sua biografia se concentra em se tornar uma mulher desejável segundo os padrões vigentes de beleza na sociedade. Os enunciados considerados negativos sobre a relação da mulher com seu corpo, giram em torno dessa retórica da mulher sexy, que em muitos é percebida como a mulher natural, sem maquiagem, desapegada da vaidade. O que se pode concluir como uma forma de ocultar a mulher na sociedade, de modo que ela não chame a atenção em espaços públicos, e se mantenha atenta às demandas do espaço privado, como o desejo sexual do parceiro. Quando a mulher expõe certa liberdade com o corpo em espaços públicos, é vista como a mulher promíscua, que é o xingamento mais observado nos textos, e proferidos pelas próprias autoras mulheres, em um movimento de antagonizar umas às outras.