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Como demonstrado ao longo da análise, a pergunta de investigação deste estudo quer perceber como se articulam os enunciados românticos com os padrões abusivos, e de que forma a propagação do relacionamento, como biografia única de vida para as mulheres, as coloca em segundo plano em um relacionamento. Julga-se que essa retórica de discurso possa ser mais recorrente do que se constata em uma observação cotidiana, o que é visto como uma normalização dos relacionamentos abusivos e violentos na sociedade. Para dar seguimento a essa análise, foram criados os quadros D.18, D.19, D.20, D.21 e D.22, (Apêndice D) em que este último tem particular relevância, pois cruza as referências dos conceitos de amor romântico com os de padrões de relacionamentos abusivos.

Entende-se que devido às transformações sociais na pós-modernidade o sujeito se tornou mais fluido, plural, e individualizado, o que não coincide propriamente com o formato de um relacionamento romântico tradicional – modo como muitas vezes ainda é posto nos dias de hoje. Mesmo pelas decorrências das transformações na intimidade (Giddens, 1992) que trouxeram um novo entendimento sobre o se relacionar – o relacionamento puro abordado no capítulo II – observa-se que os índices referentes à pós-modernidade se

concentram nos enunciados que fazem referência a um relacionamento sem compromisso. Ou seja, a primazia do indivíduo que foi constatado como uma aspiração do sujeito contemporâneo, da maneira como é percebida, não condiz com o estabelecer um relacionamento, o que se pode concluir que o relacionamento puro ainda não é um conceito absorvido e entendido pela sociedade.

O relacionamento considerado perfeito é situado, como já proposto, no estado da paixão, ao passo que também está ligado à ausência de planos a longo prazo. Nesse momento, ao se julgar o blog como um formador de opinião, este perde uma oportunidade em não expandir a discussão para as questões decorrentes da construção do relacionamento, que consequentemente também envolve a relação sexual. Seguindo os títulos dos textos, poucas vezes é observado o uso do termo “mulher” para designar esposa, ou um status de relacionamento estabelecido. Por exemplo, no texto intitulado “Minha mulher tem vários orgasmos no sexo, mas nunca ejaculou. É normal?” (Anexo A.24), há presença de uma preocupação masculina quanto ao prazer sexual da mulher, mas o trabalho editorial decide por normalizar esse “não ejacular” da esposa ao optar por uma resposta que atribui à ejaculação feminina aos artifícios de conteúdos pornográficos.

No texto “Como convencer minha mulher a fazer sexo anal comigo?” (Anexo A.77), observa-se novamente o termo “mulher” designando esposa, mas a problemática geral do sexo na vida desse casal está em convencer a mulher a fazer algo que não é de seu próprio desejo; ou seja, não é necessariamente que o casal tenha problemas quanto à vida sexual, mas a questão recai sobre a mulher não estar disposta a fazer algo que seria do agrado do marido; abaixo é mostrado o início da resposta dada pelo blog:

Para conseguir sentir prazer com sexo anal, a mulher precisa ultrapassar a barreira da dor, que é inevitável. Quando se introduz algo em um buraco que é destinado para expelir, o corpo reage sinalizando que há algo de errado – é preciso concentração e determinação para continuar tentando, até que o corpo se acostume e o prazer se sobressaia mais do que a dor. (Editorial, 2012).

O trecho acima é de certa forma inconcebível ao passo que normaliza a dor no corpo da mulher, em função do prazer sexual masculino. Em um aparente contraponto, o texto “Porque toda mulher goza primeiramente, pela mente” (Anexo A.78) – o que dá margem à uma discussão interessante sobre o estado de excitação feminino, que historicamente foi invisibilizado – o autor, que também é psicólogo, opta por fazer uso do espaço para justificar, ou amenizar, as possíveis carências físicas masculinas, ou dificuldades que tenham nas

relações sexuais. No trecho abaixo se observa que além de apaziguar as inseguranças masculinas, ele menospreza e nega o prazer sexual feminino, como se o pensamento erótico e o prazer sexual para mulheres fossem indiferentes, ou não existissem:

A mulher transa com uma narrativa que vai sendo tecida para além do desejo sexual – ela não é fisgada pela potência genital do homem, mas pela sua capacidade de penetrar o mundo. Não é da broxada, da falência e do erro que ela foge, mas dá incapacidade de reagir, retomar e se soerguer. A possibilidade de poder viver uma jornada ao lado de um homem incrível, a excita mais do que bombadas dadas por um cara de pinto grande. É por isso que, na maioria das vezes em que uma mulher recusa o sexo, ela está procurando o algo mais naquele homem. É um desafio para que ele tire a venda que está em seu coração e a penetre com o corpo todo, não só com o pénis. (Mattos, 2012, grifo do autor).

Nos textos “O segredo das relações felizes está em aceitar o homem e a mulher que existem dentro de nós” (Anexo A.41) e “Mulheres com filhos – o terror das sogras dos comerciais de margarina” (Anexo A.63) observa-se um alargamento na forma como a temática é abordada. No texto A.41, o Casal Sem Vergonha enquanto autores mostram uma possibilidade, e uma saída, quanto à atual constituição dos casais, calçando-se até mesmo na filosofia oriental – em uma referência à fusão de culturas, própria da pós-modernidade (Hall, 2015). Enquanto o texto A.63 aborda a temática da maternidade no relacionamento, e dos novos arranjos familiares, um tema pertinente e condizente com a realidade atual dos casais jovens. Porém, no geral esse tipo de texto é pouco visto ao longo da existência do blog.

O relacionamento abusivo, foco deste estudo, é muito notado nos enunciados em que não se observa a intenção de planos a longo prazo pelos indivíduos. Como proposto, essa situação também é observada nos enunciados machistas, em que o relacionamento romantizado é situado no estado da paixão, ou seja, os relacionamentos abusivos podem se apresentar figurados nos relacionamentos românticos. O relacionamento perfeito também é mais presente nos enunciados em que há confusão dos conceitos de amor e paixão. Esse estado de relacionamento violento também se articula com a ideia da primazia do indivíduo, ou seja, em que somente o desejo e as demandas de um dos pares é considerada. Supõe-se, de certa forma, que seja a da parte masculina, pois assim é historicamente, e também porque o conceito de primazia do indivíduo está atrelado ao índice da realização de objetivos próprios sem considerar os do parceiro, que foi uma referência extremamente observada nos textos assinados pelo editorial, e/ou por autores homens, e pouquíssimo vista em textos de autoras mulheres.

Os padrões abusivos se articulam de tal forma que não são muito observados nos mesmos enunciados em que há o relacionamento descartável, ou seja, o indivíduo que abusa quer se manter em um relacionamento com o outro, e insiste na continuidade deste. Os indícios abusivos são observados nos mesmos enunciados em que são abordados conceitos pós-modernos difusos com os românticos, demonstrando se tratar de uma problemática contemporânea, em que as transformações da intimidade e sociais ainda não foram capazes de transgredir. Na delimitação do relacionamento abusivo se observa também os conceitos clássicos do romantismo, como a mulher idealizada, a formação de um par perfeito e o romance que vence tudo, como observado no trecho a seguir retirado do texto “O sonho da mulher dos seus sonhos” (Anexo A.65):

Ela me espera. Ela fica ansiosa para me ver. E me liga só para dizer que está com saudades. Ela diz que ama e que morre de tesão por mim, também. Ela me faz carinhos e arranhões que nunca tive. E me beija o corpo inteiro. E quando briga comigo por ciúmes é por medo de me perder. Ela é perfeita, mas não sabe. O meu lado possessivo até acha isso bom. Porque no dia que ela perceber que ela é dez mil vezes melhor do que qualquer mulher nesse mundo, vai querer outro cara dez mil vezes melhor do que eu. E há vários caras perfeitos por aí. Mas não sei como, ela se encantou por minha barba malfeita, por minhas piadas sem graça e por meus olhos cansados. (Rodrigues, 2012).

Apesar do autor conferir certa liberdade à mulher – como a presença do tesão feminino, e o “arranhão”, que é um ato agressivo – nota-se descaradamente os elementos clássicos do relacionamento abusivo, como a possessão do homem, a anulação da realidade para a mulher, a mulher invisibilizada e a superioridade masculina. O padrão abusivo mais visualizado nos textos é quanto ao ditar normas de comportamento para a mulher, que é um argumento muito explorado pela assinatura do próprio editorial; seguido da culpabilização da mulher pelas situações e resoluções do casal.

Outros índices relevantes são quanto à valorização da vida a dois – em que se inscreve o casal perfeito – ou o relacionamento amoroso como única possibilidade de biografia de vida para as mulheres, mesmo na contemporaneidade. A liberdade individual, quando percebida, é possivelmente conferida ao homem na relação. O que se nota é que as referências encontradas nos enunciados que fazem alusão a um relacionamento não abusivo, ou seja, considerado “normal”, são as mesmas das encontradas nos relacionamentos abusivos. Ou seja, ditar normas de conduta para a mulher, primazia da vida a dois, culpabilização da mulher, e ainda um agravante que é a proposição da ideia da mulher mudar algo para conquistar um relacionamento amoroso – em que se nota mais alusão a um

relacionamento ideal, do que a características que poderiam ser valorizadas em um homem; como observado no texto “10 atitudes que deixam qualquer mulher sexy por Adaline Bowman” (Anexo A.7).

Nada de evitar a piscina para não estragar a chapinha, ficar cheia de “não me toque” na hora do sexo, sair para uma hamburgueria e pedir um prato de alface só porque não foi à academia no dia, muito menos recusar aquele convite para o rock simplesmente porque você prefere um samba. Gostoso demais é ter do lado alguém “pau para toda obra”. Que está disposta a conhecer, acompanhar, descobrir, que aproveita as oportunidades, que interage com o ambiente mesmo não estando na sua zona de conforto. Se a gente emana uma alegria de existir que contagia as pessoas ao nosso redor, muito mais pessoas de bem se sentem atraídas pela nossa maneira espontânea de ser feliz. Ser sexy também é isso, saber viver. (Editorial, 2015b).

Neste trecho se observa novamente a invisibilização da mulher, que deve conter ou mudar seus gostos às custas de agradar o homem. O curioso é que no enunciado desse mesmo texto as dicas abordadas se referem a “como ser uma mulher mais sexy para você arrasar na arte da conquista e da sedução” (Editorial, 2015b), mas ao longo do conteúdo, a mulher é punida por ser vaidosa, ou seja, esse artifício que ela dispõe para lidar com suas particularidades físicas, e que poderia lhe conferir certa “segurança”, também é condenado. As imposições observadas nos textos são de tal forma postas que a mulher não pode ter inseguranças quanto a sua sexualidade, beleza, e nem ao menos expressar seus gostos pessoais, denotando claramente um abuso de poderes. Corroborando com esse discurso opressor, observa-se que a sexualidade, temática central no blog, é colocada sob o ponto de vista da liberdade, mas em detrimento do prazer sexual masculino – tanto em relacionamentos considerados propriamente abusivos, como nos não abusivos. Nos relacionamentos não abusivos observa-se também a mulher como responsável pelo próprio prazer – pelo incentivo à masturbação por meio do “sentir prazer sozinha” – bem como pela satisfação sexual do casal.