Não é inédito que figuras da cena portuguesa tenham chegado a lugares de grande notoriedade sendo provenientes do teatro amador e por vezes nem isso. Eduardo Brasão, por exemplo, testemunha de que forma fizera da sala da casa paterna um “teatro volante”, onde representa com as companhias da sua idade juvenil uma série de comédias em um acto (BRAZÃO, Filho 1924: 22). Mais tarde estreara-se no Teatro Baquet, no Porto, na peça Trapeiros de Lisboa (BRAZÃO, Filho 1924: 35).
Carlos Santos, filho de artistas do Teatro D. Maria II e formado pela então Escola Superior de Letras, ingressa no principal palco de Lisboa pela mão de Augusto Rosa. Este, atento desde há algum tempo às “assíduas visitas” ao D. Maria II do filho de José Carlos dos Santos, entendia que a atenção do jovem a tudo o que no teatro se passava, “havia de ter por conclusão lógica este desfecho de agora” [de ingressar no D. Maria II], conclusão que achava naturalíssima e facto que entendia digno de ser acarinhado (SANTOS 1950: 1943).
António Pinheiro, por seu lado, afirma que se interessa pelo teatro com treze anos de idade.
Aos 13 anos, a doença – o sarampo do teatro – declarou-se-me, e apresentando certa gravidade, contagiou um primo meu e mais quatro ou cinco rapazes, quasi da mesma edade […] e que eram todos, ao tempo, estudantes do Liceu. (PINHEIRO 1924: 18)
Assim, na casa deste seu primo representa pela primeira vez num teatro improvisado – tal como no referido caso de Eduardo Brazão – num espectáculo que tinha por programa dois dramas em um acto e duas cenas cómicas53 (PINHEIRO 1924: 20). Pinheiro, fortemente atraído pelo teatro – daí o gracejo do sarampo – mantém uma actividade de actor dramático ao mesmo tempo que prossegue os estudos no Colégio Luso-Brasileiro, depois no Liceu Passos Manuel e, finalmente, na Escola Politécnica.
Mas a sedução pela arte dramática tem por parte do próprio a seguinte análise:
Naquelas juvenis idades, a imaginação da creança ao assistir a um espectáculo, fica deslumbrada, entontecida, e ao voltar a casa revê, como num caleidoscópio maravilhoso e falante, os scenarios, os actores, os vestuários que mais directa e
imediatamente lhe feriram a retina e lhe impressionaram o cérebro. Sonha com aquele país de maravilhas – o teatro! – e quási que, por instinto, reproduz simiescamente, a atitude trágica que os seus olhos apreenderam, e lançando mão de uma colcha, de uma saia, de um chapéu, de um avental, de um reposteiro, procura reconstituir a indumentária do herói do drama. (PINHEIRO 1924: 17)
Em sintonia com esta análise, Pinheiro, naquele primeiro espectáculo, serve-se de uma caixa de graxa para sapatos para se caracterizar (PINHEIRO 1924: 21). A este detalhe sobre caracterização, porventura relevante para entender o teatro amador de finais do século XIX, há que juntar uma outra consideração, que está relacionada com a composição das personagens:
Os amadores têm todos a mania de fazerem… tipos […] Fraque velho […] colete […] lenço preto em volta do colarinho branco, um barrete preto de malha na cabeça, óculos grandes, azuis. Suíças e muitos traços na cara […] completavam a identificação da personagem do Empresário […] (PINHEIRO 1924: 38)
Testemunho significativo é também o da vivência no teatro amador conhecido como Therpsicore54, onde António Pinheiro representa várias vezes e onde se despede da qualidade de amador dramático. “Teatrinho de amadores muito afamado”, tem a plateia ao nível da rua e os camarins no primeiro andar. O acesso destes para o palco faz-se através de uma íngreme escada de estreitos degraus. Possuía também um “quintalão” onde se realizam bailes e festas (PINHEIRO 1924: 33). Da atmosfera habitual da sala do Therpsicore, recorda Pinheiro:
Não escapava récita alguma em que não houvesse grande tourada, troça bravia, coroas de alhos e cebolas atiradas para o palco, piadas, gritos, gritinhos, assobios, pateada, palmas em barda, repetições sem fim de números de música, etc! Ninguém escapava a estes sacramentos. Raro era não se soltarem frases insolentes e indecorosas da platéa para o palco e dos amadores-actores para o ilustrado e respeitável público [sic]. (PINHEIRO 1924: 34)
A 2 de Maio de 1886, António Pinheiro actua pela última vez como artista amador, no Therpsicore55, altura em que, diz, “a tarântula do teatro me mordia a valer”. Com as comédias O Dente da Baronesa e Ciúmes, Amor e Cozinha despede-se do
54 O Teatro Therpsicore situava-se na Rua Marcos Portugal em Lisboa Lisboa (transversal à Rua da
Imprensa Nacional).
55 António Pinheiro trabalhou como amador, segundo o próprio, nos seguintes locais: Colégio Luso-
Brasileiro, Teatro Castilho, frente ao anterior, Teatro Therpsicore, Teatro das Trinas e Teatro Taborda em Almada.
Therpsicore (PINHEIRO 1924: 55), local a propósito do qual o futuro actor e encenador revela um episódio onde se pode ler uma tímida influência para a vida de teatro.
Sendo o seu pai absolutamente contra as suas práticas teatrais56, António Pinheiro é apanhado na mentira e o pai aparece-lhe no Therpsicore. Deixa que o filho tome parte na récita, não sem antes o repreender pesadamente perante os colegas (PINHEIRO 1924: 39). Todavia, no fim e já na rua, diz o pai:
- Foste bem! Não desgostei!
Pudera! Ele era meu pai! Aquilo vinha de família. Ele, em pequeno, na sua terra natal – Tavira – tinha desempenhado um dos filhos da Inês de Castro, na tragédia Nova Castro, de João Baptista Gomes […] desempenhando meu avô o Príncipe D. Pedro. (PINHEIRO 1924: 41)
Deste modo, António Pinheiro é filho e neto de amadores dramáticos. Pode presumir-se que este facto é susceptível de ter – também – o seu quinhão de responsabilidade na opção vocacional de Pinheiro.
Estes primeiros passos, estas primeiras experiências de palco, não são, segundo o próprio Pinheiro, bases suficientes para que o actor – ou o aspirante a actor – possa prosseguir uma carreira artística de nível profissional. É verdade que variadíssimos são os praticantes de teatro que passam directamente do amadorismo ao profissionalismo, tendo atingido os superiores patamares de admiração do público e reconhecimento da crítica.
A época em questão é de pleno funcionamento do Conservatório Dramático e do Teatro Nacional D. Maria II que, apesar de instituições que sofrem um constante burilar nas suas aptidões, a verdade é que formam actores e põem-nos a representar no principal palco português. As sementes dos competentes [Émile] Doux no D. Maria e Paul no Conservatório, são basilares na transformação do paradigma teatral português durante a segunda metade do século XIX.
Por outro lado, quando António Pinheiro defende a insuficiência da escola do amadorismo, é já um actor que vai sobressaindo e a quem a crítica vai tecendo elogios pelo rigor que aplica às personagens que compõe, impregnadas de doutrina naturalista. Além disso, Pinheiro é, a partir de 1902, director de cena auxiliar da Companhia Rosas & Brasão, posição que lhe confere uma clarividência sobre as falhas de muitos actores
56 O pai de António Pinheiro quer que o filho siga Medicina, razão pela qual frequenta – sem êxito – a
escola Politécnica. Todavia, essa frequência acaba por ser relevante para as reflexões de Pinheiro sobre plástica teatral. V. supra “Ensino”, pp. 62-64.
que não passam, como ele próprio, pelo Conservatório, nem pela posterior Escola da Arte de Representar de que é ideólogo57.
Isto é, António Pinheiro não é contra o teatro amador, mas reconhece a sua insuficiência na formação do artista dos novos tempos, que já não são os de João Anastácio Rosa, Emília das Neves, José Carlos dos Santos ou mesmo Taborda. Pinheiro é actor naturalista, é director de cena, é formado pelo Conservatório – cuja reestruturação formula – e fora amador de teatro, além de possuir a dura escola do teatro itinerante e “mambembe” a que à frente se aludirá.
Esta conjugação de visões de que Pinheiro é possuidor, permite-lhe afirmar:
[…] se muitos dos nossos artistas tivessem por ali [pelo Conservatório] passado, se alguns dos que começam, ali tivessem ido buscar as primeiras noções de uma arte tão complexa, os ensaiadores não teriam, na vida prática do teatro, em vez de ensaiar [sic] peças, de ensinar os artistas a articular, a andar, a colocar a voz, o tom, o modo, inflexões, expressões, atitudes, etc. E, ai! Do ensaiador que não ensinar. É porque não sabe! Mas para ensinar há uma Escola com professores! É ali que se vai aprender. O Ensaiador ensaia, o professor ensina! Assim é que está certo! (PINHEIRO 1924: 63)