É de salientar que o cálculo do número de falantes das primeiras 12 línguas da Guiné-Bissau em 2009, baseado na percentagem do Recenseamento de 1979, é um cálculo estimativo e deve ser considerado inferior à realidade no que diz respeito aos falantes do Crioulo Guineense, porque, nos últimos trinta anos, o aumento tem sido bastante elevado. Por isso o valor da percentagem do Recenseamento de 1979 (44,31%) em 2009 tem um valor superior, pelo simples facto de que o número de alunos das 1ª à 11ª classe tem vindo a aumentar constantemente e, para mais, é uma realidade experimentada por todos os professores da Guiné-Bissau que a escola é um dos maiores difusores do Crioulo Guineense,
“porque, de facto, todas as crianças e jovens que frequentam a escola
comunicam entre si em Crioulo Guineense diariamente e sistematicamente. (Scantamburlo, L., 2909: 61)
1.1.4.2.1. Algumas estatísticas sobre o aumento do número de alunos
Refiro alguns dados estatísticos que dizem respeito aos alunos das classes 1ª- 11ª, incluindo também, a partir de 2004-2005, os alunos da pré-escolar (7.503 em 2004-05, 10.733 em 2005-06 e 9.529 em 2009-10):
- 68.151 no ano lectivo 1979-80 (Guterres, A.; Grilo, E. M., 1986: 100); - 80.104 no ano lectivo 1992-93 (INEC, 2005: 16)
- 100.645 no ano lectivo de 1994-95 (INEC, 2005: 16)); - 151.135 no ano lectivo de 1999-00 (INEC, 2005: 16);
- 310.489 no ano lectivo de 2004-05 (Anuário Estatístico MENCC (Gipase, 2009a: 15);
- 334.218 no ano lectivo de 2005-06 (Anuário Estatístico MENCC (Gipase, 2009b: 6);
- 376.811 no ano lectivo de 2009-10 (Informação pessoal do Director do Gipase).
Estes dados mostram que, no ano lectivo de 1992-93, o número de alunos do EB (Ensino Básico Elementar e Complementar) era de 80.104; em 1994-95 atingiu o número de 100.645 e, a partir do fim da guerra civil de 1998-99, os números tiveram uma progressão muito maior ainda: 151.135 (1999-00), 310.489 (2004-05), 334.218 (2005- 06) e 377.811 (2009-10).
Um aumento tão elevado entre os anos lectivos de 1994-95 e de 2009-10 pode ser atribuído a vários factores, entre os quais é preciso considerar:
- a liberalização do Ensino depois dos anos „90, permitindo assim a criação de escolas privadas e comunitárias;
- o aumento da população da cidade de Bissau: acréscimo de 245,91% entre os anos 1979 e 2009, passando de 112.140 habitantes em 1979 para 387.909 no Recenseamento de 2009 (vd. 1.1.1.2.);
- a estrutura jovem da população da Guiné-Bissau: foi documentado que a “49,4% é a incidência de crianças e jovens (0-17 anos) na população total” (vd. 1.1.1.). O Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (INEC, 2005: 15) fez uma “Projecção da População da Guiné-Bissau por faixa etária 1991-2015”.
Esta projecção diz que o número total da população em 2010 será de 1.492.982, número próximo do número do Recenseamento de 2009 (1.520.830 habitantes) e que no mesmo ano o número de crianças e de jovens das três faixas etárias em idade escolar (5-9, 10-14 e 17-19 anos) será de 654.070 (43,81% do total da população).
Eis a tabela que apresenta as três faixas etárias em idade escolar:
Etários 1991 1995 2000 2005 2010 2015
5-9 170.700 191.327 220.651 254.469 293.470 338.449
10-14 119.886 136.560 160.700 189.108 222.538 261.877
15-19 93.073 101.129 112.187 124.454 138.062 153.158
O gráfico da pirâmide etária da população da Guiné-Bissau, (CPLP, 2012: 46), mostra a mesma percentagem (41%) nas três faixas etárias (vd. “Anexos no CD: G.6.”):
Um tão grande número de alunos e a alta percentagem de população jovem significam também o aumento dos falantes do Crioulo Guineense, enquanto que os alunos, pertencentes a vários grupos étnicos, são obrigados a utilizar o Crioulo Guineense como língua de comunicação, uma língua com estrutura gramatical muito próxima das estruturas gramaticais das línguas africanas: lembro-me que, em 1979, quando ajudei o Ministério de Educação Nacional a abrir as primeiras três escolas primárias na Ilha de Canhabaque, onde quase ninguém falava o Crioulo Guineense, os três professores verificaram que os seus alunos, depois de seis meses de aulas, já entendiam e falavam esta língua.
A percentagem de falantes do Crioulo Guineense está a aumentar também pelo acréscimo dos aglomerados urbanos, dos comerciantes Mauritanos, os quais ocuparam a maioria do pequeno comércio, e dos outros imigrantes de negócios vindos dos países vizinhos, Senegal, Nigéria e Guiné Konakri, que são obrigados a aprender e a falar o Crioulo Guineense para comunicar com a população nas suas actividades do dia-a-dia.
Em conclusão, a percentagem em 1979 dos falantes de Crioulo Guineense (44,31%,), em 2009 precisa de ser corrigida para documentar melhor a realidade dos falantes desta língua: o Crioulo Guineense está a ser adoptado como língua materna (L1), língua segunda (L2) e língua terceira (L3) por todas as camadas dos jovens e dos estudantes do país.
1.1.4.2.2. Uma estatística sobre o aumento da percentagem dos falantes de Crioulo Guineense
Na sua tese de Doutoramento sobre a experiência de “Ensino do Crioulo Guineense” nalgumas escolas da Guiné-Bissau entre os anos de 1986 e 1993, projecto implementado pelos Centros Experimentais de Educação e Formação (CEEF) integrados no INDE, o Instituto Nacional para o Desenvolvimento da Educação, Carolyn Benson fez uma comparação entre os dois Recenseamentos de 1979 e de 1991 no que diz respeito aos locutores que utilizam o Crioulo Guineense como língua materna (L1), língua segunda (L2) ou língua terceira (L3).
Ela verificou que a percentagem tinha aumentado de 44% em 1979 para 51% em 1991 (1994: 162):
Informação L1 L2 L3 TOTAL
Recenseamento de 1979 15% 28% 1% 44%
Recenseamento de 1991 20% 29% 2% 51%
Outra pesquisa efectuada entre os alunos do Projecto e os seus pais e professores deu estes resultados:
Pesquisa (1992-93) L1 L2 L3 TOTAL
Alunos Escola primária: 1227 31% 59% 1% 91%
Pais: 2.864 7% 69% 9% 75%
Professores: 45 24% 64% 9% 97%
Analisando os dados, C. Benson define como indicador da expansão do Crioulo Guineense a diferença notável entre os estudantes e os seus pais no que diz respeito ao Crioulo Guineense como L1 (respectivamente 31% e 7%).
C. Benson fez outra pesquisa entre grupos de estudantes das áreas rurais e urbanas que falam o Crioulo Guineense como língua materna (L1), língua segunda (L2) ou língua terceira (L3). Significativos são os dados estatísticos por ela apresentados:
Informação L1 L2 L3 TOTAL
Áreas rurais: Cufar, Bará, Ilha de Uno 11% 69% 1% 81%
Áreas semiurbanas: Buba, Bubaque 27% 72% 1% 100%
Carolyn Benson apresenta algumas explicações desta expansão do Crioulo Guineense como língua materna:
“As razões certas do fenómeno não são conhecidas, mas provavelmente estão ligadas à emigração rural-urbana e ao aumento da mobilidade na Guiné- Bissau. Um dos resultados é o casamento mais frequente entre os grupos étnicos. Se os pais de grupos étnicos diferentes tiverem o Crioulo como língua comum, o Crioulo será a língua materna ou a língua principal dos filhos... Também é possível o caso de muitos estudantes de língua materna indígena serem obrigados a utilizar o Crioulo como língua principal na comunicação com os colegas. “ (1994: 164)