Os museus, gabinetes e laboratórios de ensino são mencionados na revista Echos em situações diversas, muitas das quais o assunto central do texto é outro. A
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primeira menção data de 1918 em texto cujo propósito era divulgar o Curso de Comércio oferecido pela instituição:
Quem já teve relações intimas com a directoria do Collegio Archidiocesano de São Paulo, sabe á puridade que toda a iniciativa louvavel, todo o plano util, todo o aperfeiçoamento proveitoso, venha de quem vier, sugira-o quem sugerir, ha de ser logo bem aceito, e logo posto em pratica” (Echos, 1918, p. 24).
Assim começa o texto, destacando a iniciativa da diretoria, disposta a inovar e colocar em prática as ideias “úteis” e “proveitosas”. Em seguida, são mencionados os melhoramentos realizados pela instituição:
De accordo com estes principios, em obediencia a estes preceitos, quantos melhoramentos não foram introduzidos ainda em 1918, no intuito de tornar mais pratico o ensino do curso gymnasial. Feição pratica: tal é o cunho inconfundivel, primeiro, dos compendios todos adoptados em aulas; tal é o cunho inconfundivel, segundo, das lições de linguas, mathematicas e sciencias zelosamente ministradas pelo Corpo Docente. Os nossos queridos discipulos o dirão. Elles que viram inaugurado seu laboratório em edificio proprio e isolado, tão aprazivel e comodo; que viram seu museu de historia natural enriquecido com innumeros especimens frequentemente manuseados e estudados; que viram seu gabinete de physica provêrse de tantos e tantos instrumentos de incontestavel valor technico e imensa utilidade para o ensino intuitivo. Mas o que é inteiramente novo entre nós aqui, são os cursos de commercio. Estabelecendo-os, julgamos corresponder a uma necessidade dos tempos modernos, a um desejo muito legitimo das famílias e dos alumnos. Julgamos preencher uma lacuna dos programas officiaes dos gymnasios (Echos, 1918, p. 24).
A divulgação do novo curso de comércio explicita princípios importantes do Colégio, sendo central tornar o curso ginasial mais prático. Os compêndios e as lições de línguas, matemática e ciências são mencionados como exemplos disso e, ainda, são destacados o laboratório, o museu de história natural e o gabinete de física, estes últimos relacionados com o ensino intuitivo. Todas essas referências são feitas para então ser mencionado que a grande novidade é o curso de comércio. Para além do que o texto diz, chama a atenção a maneira como foi organizado, pois destaca aspectos também considerados importantes pela escola e mostra aos pais e alunos os investimentos que foram feitos que propiciaram, inclusive, como eles mesmo enfatizam, que saíssem a frente dos programas oficiais ao preencherem uma lacuna.
O ensino intuitivo é mencionado pela primeira vez na publicação e não há mais nenhuma explicação sobre ele, apesar de supormos que parte do público leitor da revista não sabia exatamente do que se tratava. O fato é que a ele é atribuído um
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caráter prático e os inúmeros instrumentos de Física seriam um grande aliado nessa proposta. Também chama a atenção a referência ao novo laboratório. Apesar de não haver uma data precisa, é possível pressupor que o espaço foi inaugurado por volta de 1918, data da publicação. Há ainda outra questão: o ensino intuitivo é relacionado ao gabinete de física, normalmente destinado ao ensino secundário. Por um lado, precisamos considerar a peculiaridade do vocabulário usado. Se alguns teóricos indicam que o ensino intuitivo é próprio da instrução primária, não quer dizer que isso seja da mesma forma entendido pelos educadores das diversas instituições escolares. Por outro lado, entendemos que aqui não se trata exatamente do método intuitivo e das lições de coisas, mas dos princípios que conferem à intuição uma parte importante, até mesmo essencial, na educação dos alunos.
Outro aspecto que chama a atenção é a referência aos espécimes de História Natural. O uso dos materiais de ensino costuma suscitar muitas dúvidas e, pelo trecho, temos informações de que as aulas envolviam mais que a observação, prática comumente relacionada às disciplinas científicas. O estudo, neste caso, envolvia o manuseio e colocava em ação o sentido do tato.
Esses lugares vão ser novamente mencionados na revista do ano seguinte, em texto que homenageava o então Presidente do Estado de São Paulo Altino Arantes. Além dos muitos elogios ao “egregio presidente”, há um trecho que carrega certo tom de crítica e enfatiza os esforços do Colégio:
O Collegio Archidiocesano, é sabido, não vive de favores governamentaes. Não há para ele verba secreta que lhe facilite a technica de ensino, gabinetes e museus, nem cartas de empenho alargando para seus discipulos a entrada estreitinha e entupida das Escolas Superiores (Echos, 1919, p. 46).
Mesmo não sendo o foco, novamente os gabinetes e museus são mencionados e, como veremos também em exemplos mais adiante, são colocados em posição de destaque. Essas duas primeiras referências, apesar de dizerem pouco, explicitam que os gabinetes e museus, e no outro exemplo o também mencionado laboratório, são locais valorizados pela escola e que tiveram um investimento financeiro importante, dado o espaço novo do laboratório, os novos instrumentos de física e espécimes adquiridos para o museu de história natural, tudo isso adquirido sem os chamados “favores governamentais”.
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Em 1926 é publicado junto ao Echos um prospecto do colégio, que divulga a proposta, seus princípios e regras e é organizado de acordo com os seguintes temas: organização, disposições gerais – educação, organização do ensino e programa, exames vestibulares, exames oficiais, enxoval, tabelas e pagamentos e disciplina.
No tópico “Organização do ensino e programa”, consta:
12 – No Collegio Archidiocesano, o ensino é ministrado de acordo com as legislações vigentes, federal e estadual. Os methodos de ensino baseam-se nos principios pedagogicos mais perfeitos: a intuição e a educação dos sentidos (Echos, 1926, p. 5).
Mesmo seguindo a legislação, vê-se que os princípios pedagógicos não são somente uma imposição, mas uma grande referência para a instituição. Mais adiante, há algumas informações sobre o curso preliminar e o secundário.
15 – Curso preliminar. – Este curso distribuido em quatro annos, compreende o ensino religioso, moral e civico, a leitura e a escripta, a lingua portugueza, o estudo summario da numeração, o systema metrico, as fracções, as propriedades dos numeros e suas principaes aplicações, a Historia e a Geographia do Brasil, as Lições de cousas, as primeiras noções de sciencias, os elementos de Desenho e de Canto, a Gymnastica (Echos, 1926, p. 5).
Chama a atenção que o curso preliminar prevê o ensino das Lições de cousas. Só por esse trecho não é possível dizer se eram consideradas uma disciplina escolar, mas elas serão mencionadas novamente em outros números da revista, quando da divulgação das notas dos alunos e premiação daqueles que se destacaram.
Quanto ao curso secundário, aparece:
16 – Curso secundário – O curso secundario compreende um conjunto de estudos, com a duração de seis anos, distribuidos pela forma seguinte, (art. 47 do decreto da Reforma do Ensino de 1925);
1º. anno – Portuguez, Arithmetica, Geographia Geral, Francez, Inglez, Instrucção moral e cívica, Desenho.
2º. anno – Portuguez, Arithmetica,Geographia, Chorographia, Historia Universal, Francez, Inglez, Latim, Desenho.
3º. anno – Portuguez, Francez, Inglez, Latim, Algebra, Historia Universal, Desenho. 4º. anno – Portuguez (Grammatica historica), Latim, Geometria e Trigonometria, Historia do Brasil, Physica, Quimica, Historia Natural, Desenho.
5º. anno – Portuguez (Noções de literatura), Cosmographia, Latim, Physica, Chimica, Historia Natural, Philosophia, Desenho.
6º. anno A – Literatura brasileira, literatura das linguas latinas, Historia da Philosophia, Sociologia.
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6º. anno B – Algebra elementar e superior, Geometria, Trigonometria plana e espherica, Desenho linear e geometrico, Geometria descriptiva, noções de Geometria analytica (Echos, 1926, p. 6).
Se, no ensino preliminar, um forte indicativo da educação dos sentidos era a presença das Lições de coisas, no ensino secundário há a existência de algumas disciplinas que foram ganhando um caráter prático, dentre elas as destacadas anteriormente no Echos de 1919 – as lições de línguas, matemáticas e ciências. Ainda que imbuídas dessa “feição prática”, característica ressaltada pelo Colégio, o objetivo não era que tivessem um caráter de utilidade, mas que favorecessem a formação geral dos alunos. Para tanto, o Colégio investia na configuração de locais próprios onde ocorreriam essas aulas e na aquisição de materiais adequados que favoreceriam o ensino. Na parte do folheto que trata dos exames vestibulares, lê-se:
17 – Pela sua organização e seu ensino, o Collegio Archidiocesano está aparelhado para que os seus alumnos que desejam prestar exames vestibulares ou de admissão nas Escolas Superiores, tenham o melhor e mais solido preparo intellectual. Os Gabinetes de Sciencias physicas e naturaes possuem tudo o que é requerido nestas materias para as aulas praticas (Echos, 1926, p. 6).
Como veremos mais adiante, o acervo do museu, laboratório e gabinete era grande e foi avaliado positivamente no documento de equiparação. Para Meloni (2010, p. 92), “a inclusão das disciplinas de ciências no curso secundário logo se fez acompanhar da necessidade de criação de um espaço próprio, que comportasse os materiais necessários às experiências e às demonstrações dos fenômenos da natureza”. Ele também aponta que a introdução dos estudos da natureza na educação das crianças trouxe a necessidade de novos espaços na escola, dentre eles o museu escolar (Meloni, 2010, p. 105). Como já foi mencionado, um dos significados do termo é de lugar onde as aulas ocorriam, mas também era referido como conjunto de materiais. No ensino secundário, o desenvolvimento dos espaços para o ensino de ciências teve um percurso próprio.
A organização do Museu Escolar no ensino secundário se justificava não apenas pelo fato de servir a um método ativo de aprendizagem ou para tornar mais cômodo o trabalho do professor, mas também porque a observação da natureza era parte da essência do ensino das Sciências Naturaes (Meloni, 2010, p.106). Os gabinetes e os laboratórios, mais do que indicar somente espaços diferentes dentro da escola ou conjunto de materiais, podem dar pistas sobre as especificidades
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das disciplinas escolares que estavam se constituindo e das práticas escolares envolvidas.
Em 1929, a seção chamada “Efemérides” divulga a seguinte nota no dia 16 de agosto:
Para o Gabinete de Biologia do Collegio, recebemos do Laboratorio do Hospicio de Juquery, 30 preparações dos principaes orgams do corpo humano, para estudos com miscroscopio. Sinceros agradecimentos ao mordomo do Hospicio, o Exmo. Snr. José Fernandes da Costa Torres (Echos, 1929, p. 17).
No ano seguinte, há mais uma publicação na mesma seção sobre o tema:
Dia 26 – (...) Após vários mêses de paciente espera chegaram varias peças para os Gabinetes de Physica e Historia Natural. Entre os numerosos apparelhos, salientamos: Luneta astronomica, Goniometro de Wollaston, Pantoscopio, Cathetometro... 68 quadros de Historia Natural, Zoologia, Botanica, Mineralogia e Paleontologia (Echos, 1930, p. 36).
Apesar de serem dois exemplos pontuais, percebe-se que os materiais recebidos pelo Colégio que iriam compor o acervo dos gabinetes eram valorizados e figuravam entre os acontecimentos importantes do ano. As peças foram adquiridas de maneiras diversas. No primeiro caso, as 30 preparações vieram do Hospício de Juquery e provavelmente foram cedidas ao Colégio. No segundo, por se tratarem de aparelhos próprios para o ensino, devem ter sido comprados de alguma empresa estrangeira e provavelmente foram transportadas de navio, dada a informação de que foi preciso esperar “pacientemente” pela chegada das peças. Além disso, é possível verificar pelos objetos que compõem hoje o acervo do Colégio que muitas peças são importadas, tendo sido fabricadas pelas empresas: Maison Deyrolle, Les Fils d’Emilie Deyrolle, Ducretet, Machlet, Rodriguet & Massiot, Max Kohl, Winkel Zeiss, Carl Zeiss, Welch Scientific Company, Hartmann and Brown, WM Welch Scientific Company, entre outros (Braghini, não publicado).
O final da década de 20 foi importante porque marca o plano do Colégio de construir um prédio novo que se adequasse às atividades que realizavam. O projeto é anunciado com grande entusiasmo:
Impulsionada pelo louvável anceio de installar o tradicional Collegio Archidiocesano em predio amplo e moderno que offereça aos seus alumnos o maximo conforto, adquiriu a Directoria da Congregação grande area de terreno á rua Domingos de Moraes no 365, ponto mais elevado de Villa Mariana, o bairro
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mais saudavel e aprazivel da Capital, para alli edificar o seu novo templo do saber de onde muitas intelligencias bem formadas abrirão vôo largo em busca de seus ideaes, como o fizeram varios milhares de talentos forjados e robustecidos dentro das austeras paredes da velha casa (Echos, 1929, p. 49).
Na descrição da área do novo edifício, é informado que o edifício central e principal abrigará as principais dependências do colégio, dentre elas a “administração, aulas, salões de estudos, enfermarias, dormitorios para os alumnos, professores e hospedes, dependencias pedagogicas, laboratórios, museus, etc” (Echos, 1929, p. 51). Vemos que os laboratórios e museus foram considerados no projeto e teriam espaços configurados para esses fins.
Para Escolano (2000), a arquitetura escolar é vista como um programa educador, sendo um elemento do currículo invisível e silencioso.
A localização das escolas e sua relação com o ordenamento urbanístico das populações, os traços arquitetônicos do edifício, seus elementos simbólicos próprios ou incorporados e a decoração exterior e interior respondem a padrões culturais e pedagógicos que a criança internaliza e aprende19 (2000, p. 201).
Neste sentido, as características do novo prédio e, mais especificamente, dos locais próprios para o ensino de ciências, a disposição desses espaços e o uso que se fizeram deles são aspectos importantes, já que a organização e a disposição dos objetos e móveis em uma sala de aula não é neutra e carrega consigo sentidos sobre o que se entendia que era ensinar e aprender e sobre os papeis que eram esperados dos professores e dos alunos durante a aula. O fato de o gabinete e o laboratório terem sido considerados já na planta do edifício indica a importância que foram conquistando na escola, bem diferente de quando era destinada apenas uma sala ao Gabinete de Física e Museu.
Na revista Écos de 1932 são publicadas muitas fotos do Colégio, dentre elas a vista do herbário permanente e de parte do gabinete de Física, a vista parcial do gabinete de Física, um dos gabinetes de História Natural, um dos gabinetes de Física e o laboratório de Química. Como já anunciado em 1919, a instituição nesse período contava com mais de um lugar destinado ao ensino prático e experimental.
19 Tradução livre de: “El emplazamiento de las escuelas y sus relaciones con el orden urbanístico de las poblaciones, la traza arquitectónica del edificio, sus elementos simbólicos propios o incorporados y la decoración exterior e interior responden a patrones culturales y pedagógicos que el niño internaliza y aprende”.
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Figura 2.1 Colégio Arquidiocesano. Quinta série ginasial / Vista do herbário permanente / Parte do gabinete de Física. 1932.
Fonte: Écos do Colegio Arquidiocesano de São Paulo.
A quinta série ginasial, além de sala de aula, também abrigava o herbário permanente e parte do gabinete de Física. As mesas e cadeiras fixas organizadas em duplas estão de costas para o herbário e, supomos, de frente para uma lousa, configuração bastante tradicional das instituições escolares. O herbário se assemelha até mesmo a um mural, pois não ocupa a parede central da classe e, ao mesmo tempo em que enfeita o espaço, traz informações relativas a uma área do conhecimento. Não há legendas nem maiores informações sobre as plantas, como se a própria imagem bastasse para chamar a atenção dos alunos e fornecesse informações suficientes sobre o tema.
Acima do herbário, e longe do alcance das mãos e da vista dos alunos, já que por demais alto, há alguns quadros parietais afixados na parede, cujos títulos são: “Mappa cosmographico”, “Propagation Rectiligne de la Lumiere Reflexion Refraction”, “Meteorologie”, “Machine a vapeur e, abaixo, “Locomotive” e “Sonnorie Electrique – telegrafe Morse”. Os títulos em francês indicam a origem estrangeira dos quadros.
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A parede à direita dos alunos está uma estante com alguns instrumentos de Física, dentre eles alguns espelhos. Outros instrumentos foram colocados em cima das mesas dos alunos ao fundo da sala. A foto tirada não mostra os alunos e podemos indagar se não foi produzida somente para registrar uma cena que não acontecia no dia a dia, mas que dizia de uma imagem que a escola queria passar. Pode ser que seja o caso, mas é preciso que a análise da foto vá além da crítica a uma possível produção da foto e distanciamento do que realmente se passava na sala de aula. Chama a atenção, por exemplo, a disposição dos instrumentos de Física em cima das mesas. Será que ficavam expostos dessa mesma maneira durante a aula dos alunos da quinta série? Dificilmente, já que é fácil perceber a fragilidade das peças e a falta de segurança que teriam nessas mesas. Facilmente algum aluno poderia esbarrar em uma das peças durante a aula. No entanto, se estão assim arranjadas também poderiam ficar dessa mesma maneira quando a aula fosse de Física e, nessa disposição, vemos que a peça não é a mesma se estivesse em uma das prateleiras. Na mesa, não só ela ganha destaque como pode ser observada de todos os lados. E o público, no caso os alunos, se antes estavam acostumados com uma visão de uma prateleira repleta de instrumentos lado a lado, passa a ser convidado a olhar determinadas peças de uma perspectiva tridimensional, um olhar que por certo muda.
Aqui, falamos do sentido da visão que é o que mais se destaca, mas entendemos que o aluno se relaciona com o instrumento de muitas formas. Não ficaria um deles ansioso por tocar o objeto? Mesmo considerando que houvesse uma regra de não tocá-lo, não se arriscaria um deles a fazê-lo, ao mesmo tempo em que tentasse fugir dos olhos atentos do professor? Não é isso que normalmente ocorre quando se está em uma sala de aula e os alunos são orientados a se manterem distantes de algo? Ou não é isso que ocorre quando eles andam por museus e, mesmo diante de sinais de “não tocar” e sob o olhar dos professores e dos seguranças do próprio museu, burlam a regra? O fato de as peças estarem em cima das mesas e em estantes sem vidro ou outra proteção coloca isso com uma possibilidade durante a aula. Ou, ainda, o manuseio do instrumento poderia não ser um desvio à regra, mas um convite do professor. Supomos que não ficassem dessa forma durante todas as aulas, como já mencionado, mas podemos imaginar que pudessem ficar nessa disposição em algum momento específico, a depender do que o professor quisesse abordar.
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Os quadros, caso fossem usados, deveriam ser colocados em outro lugar, de maneira que ficassem mais próximos da altura dos alunos. Tanto eles quando as peças de Física e o herbário indicam que havia na instituição uma preocupação com esses materiais e com as disciplinas com as quais estavam ligados. Mais do que isso, indicam que havia um espaço destinado para guardá-los, espaço este não exclusivo, mas que se configurava em um canto da sala do 5º ano ginasial. No caso de os outros anos precisarem usá-los, podemos imaginar que seriam realocados em outra sala e, após a aula, devolvidos ao local de origem.
Outros espaços são depois mencionados no relatório publicado no mesmo número da revista pelo Padre Heliodoro Pires, designado pelo Departamento Nacional do Ensino para fiscalizar as provas parciais e os exames finais do mesmo ano. Em relatório de dezembro enviado ao Superintendente do Ensino Secundário, ele tece alguns comentários:
Passo a relatar a visita que fiz com todos os pormenores ás diversas repartições do estabelecimento e ás suas dependencias.
Percorri demoradamente os Gabinetes de Physica, Chimica, Historia Natural, orçados em cerca de cem contos de reis.
Todo o apparelhamento exigido pelo Departamento Nacional do Ensino ali se encontra.
Nos laboratorios de chimica, os educados [sic] podem, com a maxima facilidade, preparar hydrogenio, caracterizar acidos, bases, saes; os cathions chumbo, mercurio, prata...
Encontram-se á mão, todos os apparelhos necessarios para qualquer experiencia de physica.
De modo todo especial, attrahiram-me a attenção as finissimas peças de anatomia, que enriquecem o museu de Historia Natural, assim como o ‘Herbario Exposição’ que o ornamenta (Écos, 1932, s/p).
É curioso o papel que é atribuído aos alunos, dando a impressão de que tinham um papel ativo no Colégio, já que o inspetor faz referência ao preparo de substâncias químicas pelos próprios alunos, além de mencionar que os aparelhos de Física encontravam-se a mão, ou seja, eram de fácil acesso. Nota-se que o texto foi publicado no início da década de 30, exatamente no mesmo ano em que foi divulgado o Manifesto dos Pioneiros da Escola Nova, movimento que, dentre outras coisas, atribuía aos alunos um papel ativo na escola. Se, por um lado, o Arquidiocesano era tido como um tradicional colégio católico de São Paulo, por outro, isso não fez com que ignorasse