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Na atualidade, o Estado/Nação tem o seu poder reduzido frente à globalização econômica, pois a política monetária, orçamento, profissão, comércio, arrecadação, as contas a pagar, a rede de proteção social, tudo isso faz com que nessa realidade globalizada ocorra uma redução desse poder econômico e decisório do Estado/Nação. Uma vez que o capital é volátil e de circulação em vários mercados no mundo, o Estado/Nação não tem poder de regulação do capital financeiro.

E como a sociedade está em rede, também o Estado/Nação reduz o seu poder de pautar, midiatizar e de se comunicar de forma interativa e atender as suas múltiplas demandas. E cada vez mais se torna presente a produção autônoma de milhares e milhões de pessoas que se encontram conectadas, então o Estado/Nação enfrenta, segundo Castells (1999. p.298), três desafios preponderantes quanto a esta nova configuração: “globalização e não exclusividade da propriedade; flexibilidade e capacidade de penetração da tecnologia; e autonomia e diversidade da mídia”, o que são contrapontos fortes à realidade do Estado/Nação. E um outro fator de enfraquecimento do Estado é o crime globalizado, que também o desafia.

Nesse contexto, a legitimação do exercício do poder é estratégico para o entendimento e respostas quanto aos interesses diversos e múltiplos na sociedade em rede, uma vez que estas questões apresentadas promovem identidade e agregam para a promoção de ações frente ao Estado/Nação, que não responde a pauta de reivindicações. A dificuldade de resposta provoca o que, segundo Habermas, seria definido como “crise de legitimação”, ou, segundo Richard Sennett, a decadência do homem público. (CASTELLS ,1999, p. 317)

E para tentar superar essa crise de legitimação, a descentralização passa a fazer parte da tática do Estado. No entanto, isso pode provocar crises em grandes proporções, pois há risco de captura deste poder descentralizado, por forças com características atrasadas e retrógradas, para representações de governos locais. (CASTELLS, 1999).

Na sociedade informacional, o avanço das tecnologias da informação e comunicação esvaziou o que Castells denomina como estatismo, que deixou de centralizar e controlar o fluxo de informações verticalizadas em nossa sociedade. Cada vez mais, a comunicação, informações e a transparência tornaram-se ações de defesa dos cidadãos contra a ameaça do Estado. Portanto, as tecnologias proporcionaram um novo sistema midiático da sociedade em rede, que fez com que o Estado não potencializasse o seu controle sobre os cidadãos. "Em termos históricos relativos, o Estado de hoje é mais vigiado do que vigilante”(CASTELLS ,1999, p. 351).

O Estado, ao não conseguir se impor a esse capital volátil e fazer com que a lei e a ordem garanta esse dia a dia do cidadão médio, faz com que haja um distanciamento da política e dos atores políticos na sociedade. Esse espaço político de outrora começa a ser questionado quanto a sua legitimidade, o que possibilita o desejo de mudanças no sistema político, resultado das novas tecnologias da informação e comunicação que propiciam um novo embate, debate e reflexão política e nas ações estratégicas frente ao poder, a partir, da sociedade em rede.

As redes configuram esse espaço na política de forma privilegiada, não apenas através dos meios tradicionais de comunicação como rádio, televisão e jornal, mas do conjunto de novas mídias, a partir das suas conexões na internet, o que é fundamental, pois estabelece uma nova maneira, uma nova forma e novos canais para se fazer presente, estar no jogo e dele participar de forma autônoma e livre como produtor de conteúdos, garantindo atuação de milhares e milhões em redes.

É nesse contexto que, segundo Castells:

em função de os sistemas políticos atuais ainda estarem baseados em formas organizacionais e estratégias políticas da era industrial, tornaram-se politicamente obsoletos, tendo a sua autonomia negada pelos fluxos de informação dos quais dependem. Esta é uma das principais fontes da crise da democracia na Era da Informação. (CASTELLS, 1999. p. 368)

O sistema político precisa ser reconfigurado, pois ainda responde de forma analógica a uma sociedade digital e cada vez mais em rede em um espaço de fluxos. E a representação política organizada através dos partidos com uso pequeno, ou quase nulo, das mídias digitais, faz com que as pessoas constituam as suas posições políticas, os seus conceitos e reflexões, em outras bases de informação, fora do sistema político tradicional, ampliando-se o distanciamento das organizações partidárias da vida dos cidadãos. Não há uma sintonia e muito menos um acompanhamento e resposta aos anseios dos atores da sociedade, que agora encontra-se em rede.

Há a compreensão de que o Estado/Nação vive um processo de perda de soberania que se reflete no sistema político instável, com pouca credibilidade e com a política cada vez mais sendo singularizada por um círculo vicioso de recursos, para alimentar a forma e os meios midiáticos tradicionais, não conseguindo mais dar conta das manifestações e das identidades dos atores sociais em redes, uma vez que a sua formatação ainda é do século passado. (CASTELLS, 1999)

as pessoas sabem disso e sentem isso, contudo também sabem, em sua memória coletiva, o quão importante é evitar que tiranos ocupem a lacuna da política democrática. Os cidadãos continuam sendo cidadãos, mas não sabem ao certo a qual cidade pertencem, e nem a quem pertence essa cidade. (CASTELLS,1999, p. 408)

Castells (1999) apresenta um modelo de Democracia Informacional fundamentado em três tendências: primeira, a criação do estado local, considera a democracia como algo

fundamental para a ação política e a participação e consulta aos cidadãos; segunda, utilizar-se dos meios de comunicação da participação em rede, on-line, política comunicacional, tendo aí a perspectiva da horizontalidade, em que há a possibilidade de mediação pelas novas tecnologias de informação e comunicação. É o que ele chama de “política on-line”. Também de outro lado, pode provocar o risco da consolidação da individualidade, a não constituição de sociedade e o enfraquecimento da institucionalidade, ou seja, ficar no meio do caminho, paralisada por discussões eternas sem uma média ponderada que considere os debates realizados. E cada vez mais, as mobilizações que visam temas ou pautas ganham espaço político preponderante na sociedade, e poderiam ser processadas pela rede; e a terceira seria a partir da política simbólica pela rede com base em bandeiras humanitárias. Isso faz com que haja um processo de legitimação, e esse processo faz com que as pessoas recuperem e passem a ter ação política pública e preocupação com a vida e a sociedade.

Por meio dessa formatação, há a possibilidade da superação do modelo em que se encontra a democracia liberal clássica, o que poderá dessa forma estimular o que Castells (1999) define como: a Democracia Informacional. E como contraponto a esse quadro vivenciado na sociedade em rede, na era da informação, os movimentos sociais se configuram como resistência à globalização através de redes organizacionais, que constituem o que Castells (1999) chama de agentes potenciais da era da informação, visto que são os principais agentes já que é uma forma de organização e intervenção descentralizada e integrada em rede nos movimentos sociais. É nesse fazer em rede que existe a potencialidade da constituição de uma nova sociedade e de legitimação da democracia informacional.