3 Material and Methods
3.1 Bioscreen experiment
No decorrer do século XIX, o nacionalismo ainda eslava
imbuído de valores democráticos e uni versalistas, e sua herança ligava-se aos princípios doutrinários da Revolução Francesa e à filosofia dos direitos naturais. Ao final do século, no entanto, o nacionalismo teve seu significado radicalmente alterado.
Vamos nos deter nas transformações do nacionalismo ocorridas na França. Neste país, considerado como a pátria do nacionalismo político, o problema nacional reapareceu como ques tão politico-ideológica nos últimos anos do século XIX, princi
palmente após a guerra franco-prussiana de
1870
(Eugen Weher,
1968;
Tannenbaum,1962;
Zternhell,1971, 1978).
O debate ideológico na França foi travado a partir de pe lo menos três tradições relevantes. Uma é a tradição revolu cionária associada ao ideal jacobino de igualdade . Escorada nos princípios de liberdade e nos direitos do homem, esta tradi ção tem base na experiência histórica da Revolução. Outra tradição incorpora os ideais presentes na Revolução, mas recu sa a experiência imperial napoleônica. Encontra-se aqui o libera
lismo francês que se opôe aos excesws da centralização do
Estado vigente no Império e na restauração da dinastia dos Bour bon. Benjamin Constaot é, certamente, uma das figuras mais sig nificativas desla tradição, destacando-se como o principal for mulador do moderno constitucionalismo, caracterizado pela ne
cessidade da existência de um governo forle o suficiente para
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LÚCIA LIPPI OLIVEIRAtrolado. Por fim, a terceira tradição, ligada à Restauração, tem na forma monárquica, baseada na desigualdade, a imagem da verdadeira nação . .
A tradição e a busca das origens no processo de constru çáo de uma interpretação do passado são elementos recorrentes
no universo ideológico. Poliakov
(1979)
nos mostra como oshistoriadores estiveram ocupados com a questão das raças que deram origem à nação francesa. Para Henri Martin, amigo de Michelet e principal responsável pelo mito celta popularizado nos manuais da Terceira República, a permanência dos valores gauleses foi a causa fundamental da grandeza da França; nessa perspectiva, a Revolução Francesa foi a mais alta expressão das leis deste povo. A chamada "querela das duas raças" en
volvia uma competição em tomo das qualidades atribuídas às
raças formadoras da França, os gauleses e os francos. Se Mar
tin valorizava os gauleses, Taine e Renan destacavam a excelên
cia dos valores considerados germánicos - a amizade, o devota mento, o heroísmo. Michelet também admirava tais valores, mas, para ele, a glória da França consistia exatamente no fato de ter fundido de forma harmoniosa várias raças e grupos. Pa ra este autor, as raças que permaneceram "puras" , como por
exemplo os judeus, tiveram um destino infeliz (Poliakov,
1979,
pp.
9-28).
Quer seja buscando os traços originais das raças formado ras da pátria, quer as formas de governo mais adequadas ao país, o discurso político-ideológico está às voltas com o debate sobre a tradição.
No século XIX, tanto o nacionalismo ligado à tradição revolucionária quanto o de fundamentação aristocrática partilha vam de um ideal universalista, não se confundindo necessa
riamente com um nacionalismo agressivo. Foi a guerra de
1870,
a derrota francesa, que fez do revanchsimo uma bandeira na cional, facilitando a penetração no pensamento francês de com ponentes racistas, corporificados no anti-semitismo.
Vamos tentar aqui apresentar um esboço das idéias em conflito na França no final do século XIX e início do século
XX, até a Primeira Guerra Mundial. As dificuldades para or
ganizar um quadro compreensivo da política francesa na Tercei
ra República são enormes.
À
complexidade da vida políticopartidária sob o regime parlamentar (formação de gabinetes, apelos a ministros e ministérios) agregava-se o emaranhado da po-
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lítica européia (acordos, tratados de paz, ameaças de guerra entre França, Alemanha, Rússia, império Austro-Húngaro e In glaterra).
O nacionalismo francês do final do século constitui uma
meditação sobre a decadência. Ideologia defensiva que buscava restaurar a grandeza do país, tal nacionalismo sentia o patrimô nio nacional ameaçado e procurava por todos os meios garantir sua sobrevivência. Tratava-se de um movimento de defesa, de proteção contra ameaças externas, representadas pelo germanis mo, e contra ameaças internas, localizadas nos judeus, vistos como baluartes do cosmopolitismo e do internacionalismo (Girar
det,
1959).
A derrota francesa na guerra franco-prussiana produziu uma reflexão preocupada em explicar como a Prússia, aristocrá tica e hierárquica, pôde vencer a França, democrática e igualitá ria. Renan, Taine, Fustel de Coulange são alguns dos autores que se debruçaram sobre, a questão, partilhando da nostalgia de valores aristocráticos. A humilhação frente à Prússia somou se o trauma da Comuna de Paris. A este momento histórico se
seguiram o boulangismo (W
e
ber,1968;
Tannenbaum,1962),
oescândalo do Panamá e o processo Oreyfus (Arendt,
1975).
Revanchismo, anti-semitismo, antiparlamentarismo, anticleri
calismo e militarismo constituíram as principais bandeiras de
Juta nesse período posterior à derrota francesa de
1870.
O boulangismo - termo derivado de Boulanger -' simbo lizou o primeim momento da política de massas, ou seja, da mobilização política na luta contra a democracia liberal representa
da pelo regime parlamentar. O objetivo do movimento era re
cuperar o sentido original da República, reafirmando seu caráter
popular. O radicalismo dos boulangistas na volta às raízes p0-
pulares da República atraiu diferentes setores da política francesa. As eleições, as cisões no Parlamento, as crises ministe riais atestaram as dificuldades da democracia liberal em se adap
tar às novas condições da sociedade de massas. A principal
bandeira do boulangismo era responsabilizar o regime parlamen
tar pelas desventuras das massas parlamentares. Cabia igualmente
1 Ministro da Guerra em 1886, o general Boulanger desencadeou intensa cam
panha contra o regime parlamentar, responsabilizando-o pela derrota na guerra franco-prussiana de 1870, Explorando os sentimentos de revanchismo, recebeu a adesão de forças conservadoras, radicais e revolucionárias de todos os mati zes. Eleito deputado, pronunciou inflamado discurso contra as instituições, sendo processado e exilado em 1889.
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LÚCIA LIPPI OLIVEIRA
ao regime parlamentar a responsabilidade pela derrota na guer ra contra a Alemanha.
A oposição à democracia liberal teve expressão no boulan gismo e no nacionalismo "anti-dreyfusard". Mais tarde, esta oposição se faz presente no sindicalismo não-conformista, no movimento "amarelo" e no Círculo Proudhon, mencionados adiante. Estes diferentes momentos de luta contra a democra
cia aparecem, segundo Zternhell
(1978),
como
configuraçõesdo que viria a ser o fascismo na França.
A crise econômica gerou a revolta contra o liberalismo e o poder burguês. A ideologia boulangista com seu conteúdo socializante, populista e nacionalista, conseguiu penetração nos meios operários e nas camadas pobres da população. No movimento boulangista coexistiam socialistas, extremistas de es querda, anti-semitas e conservadores.
O prestígio do boulangismo foi abalado pelo processo
contra seus líderes, que, acusados de pretender dar
um
golpede Estado, foram condenados à deportação de
1889. É
esta, pelomenos,
a versão presente emL
'appeJ ausoldat,
história ro manceada do movimento, escrita por Maurice Barres e publicada em
1 900.
Maurice Barres
( 1 862-1923)
fala da nação como uma realidade afetiva. Valoriza a paisagem, o meio, como elemento plasmador do sentimento nacional. Para ele, a educação da esco la moderna, a educação do Estado, é a responsável pela des
truição das raízes simbolizadas no apego ao solo na
t
al, à província. Tal educação "desenraizou" (expressão que remete a um