A coleta dos dados foi feita por meio de fontes multivariadas. O objetivo metodológico na identificação das ações a partir de várias fontes é ter uma grande abrangência quanto a ações relacionadas ao tema desta dissertação, evitando deixar de lado quaisquer ações que, mesmo que indiretamente, possam ser vistas como de democratização em um primeiro momento, para, depois, serem reduzidas e classificadas as alternativas mais indicadas à realidade apresentada.
Creswell (2010) identifica quatro tipos básicos de coletas de dados, que são: (1) observação, (2) entrevistas, (3) documentos e (4) materiais audiovisuais.
Na observação, o pesquisador identifica e registra, podendo ser de forma não estruturada ou semiestruturada o decorrer das atividades no local a ser pesquisado, podendo variar de uma forma não participante até um participante completo (CRESWELL, 2010).
Como a pesquisadora era funcionária do MVM durante a realização do trabalho, também foi utilizada a técnica da observação participante, que consiste na inserção e participação no problema escolhido, podendo ser classificada ainda como “natural”, quando o observador faz parte do grupo que está sendo pesquisado (GIL, 2012) e o papel do pesquisador é conhecido (CRESWELL, 2010).
Em relação às entrevistas, estas são em geral abertas e semiestruturadas, ocorrendo geralmente face-a-face entre o entrevistador e o entrevistado.
Durante o processo da pesquisa, foram realizadas entrevistas não estruturadas com os funcionários do museu, profissionais de outras instituições culturais, visitantes, funcionários terceirizados (vigilantes, recepcionistas e auxiliar de limpeza) e ex-funcionários do museu. As entrevistas foram focadas no ponto de vista dos entrevistados sobre os problemas que o museu apresentava e quais seriam, nas visões deles, as soluções possíveis. As conversas realizadas foram de grande utilidade para que a pesquisadora entendesse e limitasse o problema sob diversos pontos de vista.
Enquanto técnica de coleta de dados, a entrevista é bastante adequada para a obtenção de informações acerca do que as pessoas sabem, creem, esperam, sentem ou desejam, [...] bem como acerca das suas explicações ou razões a respeito das coisas precedentes (SELTIZ et al., 1967 apud GIL, 2012, p. 273).
As entrevistas foram essenciais para dar voz aos funcionários com menos escolaridade, como os vigilantes, auxiliar de limpeza e recepcionistas, que possuíam em sua maioria apenas o primeiro grau completo. A decisão desses funcionários de baixa escolaridade não participarem do brainstorming (a ser descrito a seguir) deve-se que a atividade poderia deixá-los desconfortáveis e não oferecer um bom resultado. A formalização do processo investigativo poderia deixá-los inibidos e atrapalhar a coleta de informações. Utilizando um método mais informal, foi possível ter acesso às ideias desses funcionários que culturalmente tem menos voz nos processos administrativos das instituições. Por ser uma técnica bastante flexível, foi possível a pesquisadora esclarecer o significado das perguntas no momento em que estão sendo realizadas e adaptá-las à realidade dos entrevistados e do problema. Além disso, é possível captar a linguagem corporal e tonalidade de voz dos entrevistados. Mesmo as entrevistas tendo caráter informal, não podem ser consideradas uma simples conversa, porque tem um propósito claro, que é a coleta de dados (GIL, 2012).
Durante as entrevistas feitas aos funcionários terceirizados do MVM, foi dado preferência a momentos em que os mesmo pudessem expor suas opiniões de forma mais à vontade e espontânea. A pesquisadora escolheu momentos geralmente quando havia o início de uma nova exposição ou outra atividade para iniciar a conversa. A abordagem acontecia da seguinte forma: a pesquisadora perguntava para o funcionário a opinião dele sobre a nova exposição. Logo após, seguiam perguntas do tipo: “qual obra você gostou mais?”, “você acha que as pessoas estão gostando?”, “o que os visitantes estão comentando sobre a exposição?”, “eles estão fazendo alguma reclamação?”. Além disso, também eram feitas perguntas sobre a rotina dos funcionários, quais as opções de lazer que eles escolhiam, se eles já haviam visitado o museu ou se conheciam o MVM antes de trabalharem ali.
Foi a partir dessas conversas que foram identificadas algumas falhas de comunicação visual do MVM. Muitos visitantes reclamavam para os vigilantes, recepcionistas e auxiliar de limpeza que não sabiam
que aquela casa era um museu e que não havia nenhuma placa indicativa disso. Para o corpo técnico, essa informação estava clara, já que havia um banner na lateral do museu indicando os serviços e horários de funcionamento e na outra lateral estava escrito “Museu Victor Meirelles” em vertical com letras prateadas. A verdade é que olhando pela frente do museu, não há indicação clara da funcionalidade daquela casa, sendo confundido muitas vezes com repartições públicas (já que na vizinhança há outras instituições públicas), lojas ou até mesmo com igreja.
Durante o dia a dia de trabalho do museu, os funcionários terceirizados não eram questionados sobre o andamento das atividades dentro do museu o que se mostrou uma grande falha, já que são esses funcionários que recebem e acompanham o público durante a visitação, sendo uma fonte importante de informações sobre o público.
Em relação a análise bibliográfica e documental acerca do tema, foi possível delimitar melhor o problema e enxergar quais as reais lacunas do contexto em que o tema desenvolvido está inserido. Foi a partir de um tema mais amplo – democratização do acesso aos museus – que pode se chegar ao caso do Museu Victor Meirelles. É a partir dessa primeira etapa que se pode chegar a um problema mais objetivo e que pode ser estudado por meio de procedimentos mais sistematizados (GIL, 2012).
A pesquisa bibliográfica é feita por meio de materiais já existentes – livros e artigos científicos em geral – com o intuito de cobrir os principais conceitos apresentados e também auxiliar a pesquisa na cobertura de dados que estão dispersos. No caso desta pesquisa, seria extremante dificultoso abordar todo o contexto brasileiro de museus já que os dados estão muito dispersos. Como há uma bibliografia de fonte confiável para isso (publicação Museus em Números realizada pelo Instituto Brasileiro de Museus), a análise bibliográfica apresenta muitas vantagens.
É a revisão bibliográfica que foi dada a base teórica para o desenvolvimento desta dissertação, destacando os seguintes temas: Políticas Públicas; Ciclo de Políticas Públicas; Formulação de alternativas (métodos para gerar alternativas, benchmarking, brainstorming, entrevistas); Políticas Públicas culturais; Políticas públicas para museus; Democratização do acesso aos museus.
A pesquisa documental, diferente da bibliográfica, foca nos materiais que ainda não receberem nenhuma intervenção. Nesse caso, foram pesquisados os documentos oficiais, leis, programas e planos de
governos na área da cultura e o plano museológico do Museu Victor Meirelles.
O livro de visitantes, atualmente, é o principal meio de conhecer o público do MVM. Embora não seja obrigatório, os visitantes são sempre orientados pelas recepcionistas na saída do museu a preenchê-lo. Dessa forma, os resultados obtidos estão bastante próximos da realidade, embora seja prudente observar que podem haver visitantes que não preencheram o livro ou que possam ter preenchido de forma errônea. Além disso, é importante salientar que as informações apresentadas são referentes somente à visitação espontânea, excluindo o público da Agenda Cultural e da Ação Educativa. No livro, os visitantes preenchem os seguintes dados: nome, idade, cidade e formação escolar.
Para traçar o perfil dos visitantes do museu, foi feita uma tabulação simples dos dados constantes no livro de visitantes. Depois disso, foram comparados mês a mês os dados e também entre os anos de 2011 e 2012. Com esses dados, foi possível comparar em que nível o público visitante reflete ou não a realidade da cidade de Florianópolis. A realização da análise estatística resume as informações constantes nos gráficos, referente àqueles em que são apresentados as características dos museus brasileiros como também quando ao perfil dos visitantes do Museu Victor Meirelles.
Já os dados de materiais audiovisuais consistem em fotografias, objetos de arte, entre outros (CRESWELL, 2010). Nesta pesquisa, esta etapa ocorreu principalmente nas visitas aos museus de arte in loco, sites institucionais, material publicitário, etc. A partir desses dados foi possível visualizar como as obras são expostas em museus de grande visitação e como a identidade visual é identificada, por exemplo. Para o autor, uma vantagem desse tipo de coleta é que proporciona ao pesquisador compartilhar a realidade de forma mais direta e, como principal desvantagem, as falhas de interpretação que poderão ocorrer (CRESWELL, 2010).
Além das fontes de coletas de dados citadas até aqui, também foram usadas como métodos de geração de ideias, o brainstorming e o benchmarking.
Para o brainstorming, foram reunidos durante uma tarde na sala de reuniões do Museu Victor Meirelles cerca de 10 funcionários quase a totalidade da equipe de servidores da instituição, sendo estes:
Uma funcionária com formação em antropologia, ocupante do cargo Técnica em Assuntos Educativos e responsável pelo setor educativo;
Dois estagiários, com formação em andamento em artes visuais, do setor educativo;
Uma funcionária com formação em ciências sociais, ocupante do cargo Técnica em Assuntos Culturais;
Uma funcionária com formação em arquitetura com funções nas atividades de conservação e preservação patrimonial;
Um funcionário com formação em museologia responsável pelo setor museológico.
Uma funcionária com formação em comunicação responsável pelo acervo fotográfico e atividades de conservação das obras;
Um funcionário com formação em jornalismo responsável pela assessoria de imprensa;
Um funcionário com formação em direito ocupante do cargo de técnico administrativo;
Um funcionário terceirizado com formação em economia e responsável pelas montagens das exposições;
Além da própria pesquisadora, que conduziu o processo, com formação em administração e responsável pelo setor administrativo do museu.
A direção do MVM não foi convidada a participar para que não gerasse nenhum tipo de desconforto e inibição durante a atividade, que é eminentemente criativa e espontânea.
Foi explicado pela pesquisadora no início da atividade qual era o objetivo e quais as regras que deveriam ser seguidas, sendo primeiramente discutido com todos para qual problema as ideias deveriam focar, qual seja, a limitação do acesso ao público em geral no Museu Victor Meirelles e quais as alternativas que deveriam ser tomadas para tornar o museu mais democrático.
Definir bem e clarificar o problema durante uma sessão de brainstorming é de suma importância para o sucesso da atividade. Além disso, foi explicitado como a atividade seria executada: os participantes poderiam falar suas ideias livremente e sem ordem pré-definida e nenhuma ideia poderia ser reprimida ou ridicularizada por ninguém.
Como a equipe já se conhece e é entrosada, não foi necessário realizar nenhum de atividade de aquecimento. Além disso, também não foi necessário seguir uma ordem de fala (que geralmente tem o intuito de forçar todos os participantes a contribuírem) porque os participantes se sentiam confortáveis para expor suas ideias.
A pesquisadora anotou em um papel todas as ideias apresentadas durante a sessão de brainstorming, prosseguindo ao final a leitura de todas. A partir das ideias geradas nesse primeiro momento, foram esclarecidas dúvidas com os autores das ideias, sendo que algumas consideradas de difícil implementação foram descartadas, além de terem sido eliminadas as duplicidades e modificadas e aprimoradas as ideias pela equipe em conjunto.
Essas modificações ocorrerão baseadas nas percepções e experiências dos funcionários, além de discussões sobre os entraves e dificuldades em se colocar em prática ideias que demandassem aprovação de outros setores do IBRAM ou órgãos de Florianópolis. Algumas ideias já haviam sido discutidas e colocadas em prática em anos anteriores. Para isso, foi analisado o porquê de terem sido descontinuadas e se esses entraves ainda estavam presentes. Por isso, algumas ideias foram repaginadas e adaptadas ao contexto do museu atualmente.
Para o benchmarking, a pesquisadora utilizou artigos na área que reproduzia as melhores ideias, segundo especialistas, e as tendências já praticadas pelos museus de mais destaque no mundo. O benchmarking utilizado para a coleta de dados aqui é o genérico, já que as práticas de democratização de acesso aos museus podem envolver diversas áreas.
Além disso, houve pesquisa nos sites institucionais e visitas in loco, como o Instituto Inhotim, Museu Hermitage Amsterdam, CCBB Brasília, Tate Modern, entre outros. Algumas ideias foram transportadas como criadas originalmente e outras foram adaptadas para a realidade do Museu Victor Meirelles.
Os museus selecionados para o benchmarking foram aqueles que mais se destacaram, seja pelas atividades inovadoras e pela repercussão que causaram, seja pela importância do acervo e da relevante visitação que recebem. Coincide também o fato do acervo desses museus serem de obras de arte, o mesmo que compõe o acervo do Museu Victor Meirelles. São museus que são reconhecidos pelo grande público e pelos críticos e especialistas na área museal como sendo museus importantes dentro do contexto artístico. No exterior, os museus que receberam visitas in loco foram o Museu do Louvre em Paris, Tate Modern e National Gallery de Londres, o Museu do Holocausto de Berlim e o Museu Hermitage Amsterdam, que receberam visitas em loco. No Brasil, destaca-se o Instituto Inhotim e o Centro Cultural Banco do Brasil de Brasília. Claro, vários museus importantes
brasileiros não receberam visitas por dificuldades de tempo e por sua localização geográfica. Para outros museus importantes, como os museus citados na próxima seção, dos Estados Unidos ou de outros lugares, a pesquisa se ateve a artigos sobre os mesmos e pesquisa no site institucional.
A análise aconteceu sobre como as atividades eram prestadas ao público, como era feita a interação, como o público podia participar da gestão do museu e como o museu respondia aos interesses diversos, incluindo projetos de destaque, abordagens em exposições e mecanismos informacionais.
Os métodos de coleta de dados foram escolhidos pela facilidade de aplicação e efetividade. Como as atividades foram realizadas durante o horário de trabalho, metodologias muito complexas ou que demandassem muito tempo poderiam causar baixa participação e dedicação durante a sua realização. Como as ações resultantes do processo foram consideradas satisfatórias pela pesquisada e pela equipe do Museu Victor Meirelles, não houve necessidade de explorar outros métodos neste momento.
A análise dos dados envolve preparar os dados coletados na fase anterior, o que engloba um processo de ressignificação e interpretação destes dados (CRESWELL, 2010).
Mesmo a análise sendo aparentemente a última fase da pesquisa, geralmente apresentada após a fase de coleta dos dados, a análise ocorre durante todo o processo, concomitante às outras etapas, sendo uma atividade contínua e permanente.
Creswell (2010) sugere seis passos a serem seguidos:
1. Organização e preparação dos dados, por meio do registro das entrevistas, anotações de campo, disposição das diferentes fontes de informação.
2. Leitura de todos os dados, que é a interpretação e reflexão de forma geral e ampla.
3. Codificação dos dados, que é a separação dos dados de acordo com as características em comum, por temas, blocos, etc.
4. Descrição, que é a apresentação das informações.
5. Informação sobre como os temas estão representados, que geralmente é feita comunicando os resultados da análise por meio de uma passagem narrativa.
6. Interpretação final, que envolve muitas vezes a visão pessoal do pesquisador sobre a questão e as lições aprendidas.
Para Miles e Huberban (994 apud GIL, 2012), a análise qualitativa geralmente perpassa por três etapas: (i) redução, que é a diminuição e simplificação dos dados; (ii) apresentação, que é a organização e o inter-relacionamento dos dados; e (iii) conclusão/verificação, que é a revisão dos significados dos dados e explicações.
Creswell (2010) identifica algumas estratégias que ajudam a garantir a validade das informações prestadas, sendo que é recomendado o uso de diferentes estratégias conjuntamente para precisar melhor os resultados:
1. Triangulação, que é a análise em diferentes fontes de informação.
2. Verificação dos membros para saber se eles consideram os resultados legítimos.
3. Resultados comunicados de forma detalhada e clara.
4. Deixar claro o posicionamento do pesquisador em relação à pesquisa.
5. Apresentação das informações que sejam também negativas ou dissonantes do tema.
6. Tempo prolongado em campo, para que haja real entendimento da questão estudada.
7. Revisão por pares.
8. Utilização de um auditor externo para realizar a verificação. Exatamente porque a subjetividade e a complexidade é inerente à pesquisa social que é importante utilizar diferentes referências para a análise dos dados (GIL, 2012), por isso os métodos experimental, observacional e comparativo foram combinados entre si.
Um dos objetivos específicos é que as ações selecionadas para o Museu Victor Meirelles possam ser aplicadas e/ou adaptadas para outros museus brasileiros, para isso, é utilizado o métodos indutivo, em que o ponto de partida é uma situação particular sendo, depois, passado à generalização.