Compromisso do Bem-Estar e Segurança
A luz ou a sua radiação não afetam apenas o córtex visual, mas também todo o nosso estado de alerta, bem-estar e desempenho. O ritmo circadiano (ciclo biológico diário) e variação sazonal são geneticamente fixos, mas são regulados, em certa medida, pelo meio envolvente, sobretudo pela luz. Face ao aumento dos custos de energia e de preocupação com o meio ambiente, há um grande interesse em utilizar a luz natural como principal fonte de luz de qualquer edifício. A luz proveniente do sol varia com a época do ano, com as condições atmosféricas e com a latitude e longitude do local onde queremos fazer o seu aproveitamento. Apesar dos muitos benefícios que a luz solar nos traz e que vão ser referidos neste subcapítulo, esta também pode causar alguns problemas aos ocupantes dos edifícios. Este aspeto pode não parecer muito provável, mas facilmente se repara, por exemplo, em muitos edifícios de escritórios em que durante o dia as persianas estão quase sempre fechadas, o que demonstra que a existência de um projeto de iluminação natural falhou em alguns casos. De qualquer das formas, a não ser que haja uma razão fundamentada para que não exista a presença de luz natural num edifício, esta deve ser sempre incentivada. A iluminação natural é reconhecida como tendo efeitos positivos e negativos sobre as pessoas, os quais podem ser resumidos nos seguintes tópicos [16] [42].
Fisicamente, a luz do dia é apenas mais uma fonte de radiação eletromagnética na faixa do visível. Fisiologicamente, a luz é um estimulante eficaz para o sistema visual e para o ritmo circadiano humano. Psicologicamente, a luz do dia e a vista para o exterior são muito desejadas e podem ter benefícios para o bem-estar humano.
O desempenho na realização de tarefas que são limitadas por visibilidade é determinado pelos estímulos que a tarefa apresenta ao sistema visual e ao estado de funcionamento desse sistema. A luz do dia não é melhor do que a luz elétrica artificial na determinação de qualquer um destes fatores. No entanto, a luz do dia tem maior probabilidade de maximizar o desempenho visual do que a maioria das formas de luz artificial, pois tende a ser entregue em grandes quantidades, num espectro que garante uma excelente reprodução de cor.
Não existem garantias de que a iluminação natural será sempre melhor sucedida em maximizar o desempenho visual. Ela pode causar desconforto, através de brilho e distração, o que pode diminuir os estímulos que a tarefa apresenta para o sistema visual, produzindo reflexões ou sombras. A eficácia da iluminação natural para o desempenho visual vai, portanto, depender de como ela é entregue.
Os utilizadores vão tomar medidas para reduzir ou eliminar a luz do dia, se esta causar desconforto ou aumentar a dificuldade de desempenho do sistema visual para a realização da tarefa.
O desempenho das tarefas visuais ou não visuais vai ser afetado pelo ritmo circadiano humano. Este ritmo não deve ser interrompido, portanto o ser humano ser exposto à forte luz do dia e à pouca luz existente à noite é necessário. O aproveitamento de luz natural vai ser benéfico para as pessoas que têm pouca oportunidade de ir para o exterior.
Condições de iluminação diferentes podem alterar o humor dos ocupantes de um edifício. Contudo, não existe uma receita que diga quais as condições exatas para se obter o melhor humor. Janelas são favoráveis em locais de trabalho, devido à luz natural e à vista para o exterior que possibilitam, desde que não causem desconforto visual ou térmico, ou falta de privacidade. Devido a estas razões, a presença de janelas bem concebidas contribuirá para melhorar o humor e a sua falta aumentará a má disposição, embora não seja claro se é devido à vista para o exterior ou à entrada de luz natural.
O problema da utilização de luzes artificiais durante a noite é que fazem decrescer os níveis de melatonina (hormona que é produzida pela glândula pineal, no cérebro entre as 21:00 e as 08:00 (dependendo de padrões regulares de sono). Esta hormona é vital para a saúde pois controla o ritmo circadiano, também conhecido como “relógio diário do corpo”. Quando o tempo ou a intensidade de melatonina é interrompido, as funções fisiológicas e mentais são afetadas e isso pode ter impactos na capacidade de dormir bem, pensar claramente, na regulação da pressão do sangue e níveis de glucose, entre outros. Estas interrupções ao sistema circadiano dão-se principalmente durante os meses de Inverno e são consideradas causa primária para “seasonal affective disorder (SAD)” [42] [43].
Cada tipo de fonte de luz exibe caraterísticas físicas referidas como temperatura de cor. Esta caraterística permite vários tons de luz serem distinguíveis uns dos outros. Temperaturas de cor mais altas têm aparência mais fria e temperaturas de cor mais baixas têm aparência mais quente. As cores estão intimamente ligadas ao humor, causando uma certa reação psicológica, pelo que a escolha da temperatura de cor da fonte de luz torna-se um fator crítico [44]. Para obtenção de maior conhecimento sobre como a luz em redor afeta o nosso bem-estar foi realizado um estudo que determinou que o corpo é influenciado em grande parte pela luz natural. Os efeitos mais positivos em relação ao alerta, bem-estar e desempenho são observáveis em aproximadamente 100 cd/m2 nas paredes com uma iluminância horizontal de
500 lux. 100 cd/m2 parece ser o nível ideal para a luz ambiente vertical, o que levanta
questões, uma vez que, em escritórios, os valores que se observam são usualmente três a quatro vezes mais baixos (20-30 cd/m2). O estudo também demonstrou que a luz ambiente influencia
as hormonas do corpo que estão relacionadas com stress e estado de alerta, num tempo relativamente curto. Por conseguinte é possível, utilizando controlos de iluminação algorítmicos, mudar o nosso relógio biológico. Por exemplo, durante as manhãs dos meses de Inverno do ano, aumentar a atividade com mais luz [42].
Quanto ao compromisso com a segurança, há uma ligação óbvia entre esta e a iluminação. Iluminação insuficiente leva ao aumento de taxas de erro e, em muitos casos, pequenas ou mais significativas lesões. Luz insuficiente para a realização de uma tarefa, iluminação desigual, seja de origem natural ou artificial muito brilhante, alta refletância das superfícies, sombras acentuadas, contraste reduzido de tarefas devido a reflexões e flicker são fatores que reduzem a segurança e o bem-estar das pessoas.
Para um reforço e garantia da segurança de funcionários e pessoas em situações de emergência é necessário que exista a devida iluminação de emergência bem sinalizada, para serem realizados os devidos procedimentos. Existem regulamentos próprios para este tipo de iluminação. Uma ênfase sistemática no bem-estar e segurança no local de trabalho dos funcionários requer consciência dos riscos, bem como implementação e revisão de normas ao longo do tempo para a sua melhoria [45].
Nos hospitais a iluminação tem duas funções principais: a primeira, que já foi referida, o nível de luz atender às exigências da tarefa a ser realizada em cada área do hospital. Algumas das tarefas que precisam de ser realizadas exigem maiores níveis de desempenho visual e mesmo a segurança dos pacientes pode depender desse mesmo fator. A segunda função, de igual importância, é a da criação de um ambiente que seja visualmente satisfatório, apropriado e compatível com um hospital. Já se sabe que a iluminação pode influenciar as emoções humanas e sentimentos de bem-estar e portanto uma boa iluminação no hospital ajudará a promover a qualidade e competência da instituição [16].
Capítulo 4
Caso de Estudo
O presente capítulo carateriza a unidade hospitalar em estudo, desde a descrição dos serviços, passando pelos consumos de eletricidade, até à desagregação dos mesmos por serviço. É estudada a iluminação de vários locais e são feitas as recomendações devidas.