Como toda pesquisa de campo que tem aspiração universal, a distribuição dos questionários e o retorno dos mesmos foram cheios de percalços e insistentes comunicações. Até setembro de 2011, todas as escolas públicas do Distrito Federal tiveram acesso ao questionário mais de uma vez, impresso e eletronicamente. Entretanto, em 30 de novembro de 2011, data estipulada como final para retorno do instrumento, apenas 214 escolas o haviam encaminhado. Os questionários foram distribuídos às 14 DREs, mas o retorno do material respondido veio de onze diretorias: Brazlândia, Gama, Guará, Planaltina, Plano Piloto e Cruzeiro, Samambaia, Santa Maria, São Sebastião, Sobradinho, Riacho Fundo e Taguatinga. As DREs de Ceilândia, Paranoá e Recanto das Emas não devolveram nenhum questionário respondido pelas escolas. Pelos 214 questionários enviados, apurou-se 8.013 professores para 139.876 alunos. Com relação aos profissionais que trabalham nas escolas e suprem a necessidade de atuação multiprofissional da política educacional - que ultrapassa o campo pedagógico no funcionamento das escolas -, há
apenas orientadores educacionais, que não estão presentes em todos os estabelecimentos. Verificou-se a existência de um total de 205 orientadores nas 214 escolas respondentes. Entretanto, em algumas escolas há dois ou três orientadores e em 39 escolas (18% da amostra) não existe nenhum. Quanto aos servidores da carreira de assistência, nas 214 escolas existem apenas 3.143 para apoiar o funcionamento dos estabelecimentos, e muitos são funcionários terceirizados.
Com relação à distribuição de cargos de acordo com o gênero, verifica-se que há uma feminização dos funcionários que compõem o corpo docente, a equipe de servidores e os orientadores educacionais. O corpo docente é composto por cerca de 80% de mulheres, em todas as escolas analisadas. Os servidores também são, em sua maioria, mulheres, mas em menor proporção: 68%. A maior feminização acha-se na orientação educacional: as mulheres preenchem 92% dessa função. Em relação aos alunos, ao contrário, nas escolas pesquisadas encontramos uma leve superioridade numérica do gênero masculino: 50,8%.
Sobre a caracterização das escolas, prevalece a resposta de escolas de ensino fundamental (Centros de Ensino Fundamental e Escolas Classes) com ênfase nas séries iniciais. Entretanto, temos asseguradas respostas de todos os tipos de escolas do sistema público do Distrito Federal, com representação de todas as modalidades de ensino ofertadas. Ver o Gráfico 6:
Gráfico 6 – Tipo de escolas respondentes Fonte: Questionário Mapa da Diversidade Elaboração própria
Notas: CEM – Centro de Ensino Médio CEF – Centro de Ensino Fundamental CEd – Centro Educacional
EC – Escola Classe
CEI – Centro de Educação Infantil CEE – Centro de Ensino Especial CIL – Centro Interescolar de Línguas
As 214 escolas respondentes representam 33% das escolas da rede pública do Distrito Federal e têm 139.876 alunos (28%), 8.013 professores (29%) e 3.143 funcionários (27%). Apesar de se almejar pesquisa universal, realizou-se o estudo com mais de 30% da rede pública do DF - índice bastante satisfatório para as análises requeridas.
Quando se perguntou às escolas se constavam de seus respectivos projetos político- pedagógicos/propostas pedagógicas as temáticas de direitos humanos, relações étnico-raciais, relações de gênero, sexualidade, meio ambiente, ou população em situação de pobreza, nas informações enviadas pelas 214 escolas respondentes percebeu-se que praticamente não havia consideração da população em situação de pobreza: apenas 35 (17%) das 214 escolas consideravam essa temática na elaboração de seus PPPs. Outra temática que não foi ponderada nos PPPs das 214 escolas foi a de gênero: apenas 49 escolas (24%) afirmaram considerar essa temática nos seus PPPs. Em contrapartida, encontrou-se presença destacada da temática de meio ambiente (186 escolas, 92%), seguida de consideração das relações étnico-raciais (165 escolas, 82%) e de direitos humanos (151 escolas, 75%). Outra temática relativa à diversidade considerada na maioria das escolas foi a sexualidade. Constou do PPP de 115 escolas (57%). Um resultado secundário importante a se mencionar: a possibilidade de se acrescentar alguma temática que não estivesse contemplada nas opções elencadas, sendo que, por 11 vezes, o tema da violência e bulling apareceu como pertencente ao espectro da diversidade. Os resultados encontrados estão no Gráfico 7.
Gráfico 7 – Escolas que consideram a diversidade em seus Projetos Político-Pedagógicos Fonte: Questionário Mapa da Diversidade
Quando se questionou as escolas sobre o desenvolvimento de projetos, ações ou programas foram inseridos nas opções programas e ações do governo federal aos quais houve adesão da SEDF. Entendeu-se importante considerá-los tendo em vista o alcance desses programas, o volume de recursos com que contam e a forma como têm auxiliado as políticas de visibilidade. A questão buscava saber se na escola são desenvolvidos projetos relacionados às temáticas de: educação em direitos humanos, Educação para a Paz, educação das relações étnico- raciais, Brasil sem homofobia, educação das relações de gênero, educação em sexualidade, Escola que Protege, Saúde e Prevenção na Escola e população em situação de pobreza. Os resultados encontrados surpreendem novamente por apresentar sobrerrepresentação das mesmas temáticas, ao tempo em que expõem a permanência da invisibilidade da pobreza e do gênero. Ações e projetos sobre relações étnico-raciais ocorrem em 153 escolas (76%), questões de direitos humanos em 143 escolas (72%). Também 105 escolas desenvolvem ações sobre sexualidade (52%). Entretanto, como já mencionado, somente 43 escolas dispõem de ações sobre gênero (21%) e apenas 27 (13% das escolas) desenvolvem algum projeto relacionado à população em situação de pobreza. Houve registro de adesão aos seguintes projetos federais: 27 escolas (13% da amostra) aderiram ao Escola que Protege, 19 escolas (15%) aderiram ao Brasil sem homofobia e 122 (60%) aderiram ao Saúde e Prevenção na Escola. Destaca-se a forte incidência do Programa de enfrentamento da violência da Unesco Educação para a Paz, presente em 159 escolas (79%). Os resultados da pesquisa permitem perceber que há ações diversas das temáticas da diversidade presentes na escola, registrando-se presença de programas federais recém iniciados - Brasil sem homofobia - e finalizados há mais de cinco anos - Escola que Protege. Entretanto, gênero e pobreza permanecem sem mobilizar esforços da escola no sentido de constituírem ações específicas para sua consecução. Os achados são representados no Gráfico 8.
Gráfico 8 – Escolas que desenvolvem projetos sobre a diversidade Fonte: Questionário Mapa da Diversidade
Elaboração própria
Os achados dessa etapa da pesquisa foram surpreendentes e elucidaram os estudos quantitativos. A aproximação da escola e o questionamento sobre a diversidade foram interpretados e considerados extremamente reveladores da organização do trabalho pedagógico das escolas públicas, especialmente se considerarmos que nas escolas públicas do Distrito Federal há o segundo maior impacto negativo da população em situação de pobreza no IDEB. Da mesma forma que o estudo quantitativo, os achados dessa etapa foram analisados em separado, pois exigiram reflexões mais específicas. Possibilitaram inclusive exames mais densos em prol da pesquisa. É o que apresentamos a seguir.
7.3 Discussão dos resultados da pesquisa qualitativa sobre o impacto da população em