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Desde meados do século passado tem crescido o número de projetos e programas de pesquisa envolvendo a participação de grupos de cientistas oriundos de áreas distintas com o objetivo de desenvolver tecnologias ou resolver problemas considerados complexos.

Na primeira metade do século 20, entre as duas grandes guerras, o fator preponderante e significativo era o tamanho e o escopo dos problemas, estando as nações às voltas com conflitos armados de ordem mundial. Já na segunda metade, no período entre as décadas de 1960 e 1980, o mundo esteve diante dos desafios da Guerra Fria. Ambas as situações demandaram a criação de grupos de profissionais oriundos da ciência, indústria e governos. No entanto, a associação entre ciência, governos e interesses econômicos produziu, em alguns casos, efeitos desastrosos. Isso demonstra que a busca por uma Ciência mais integrada não garante que seus resultados sejam benéficos para a humanidade.

Com a criação da bomba atômica e seu consequente lançamento sobre Hiroshima e Nagasaki, ao final da Segunda Guerra Mundial, milhares de civis inocentes morreram ou ficaram feridos, causando dano e sofrimento que se perpetuaram por muitas gerações posteriores. Nas décadas seguintes, a corrida armamentista gerada pela disputa do mundo entre capitalismo (EUA) e comunismo (URSS) ocasionou a fabricação em larga escala de uma gama diversificada de armamentos, com poder de destruição em massa, capaz de destruir a Terra várias vezes e em poucos minutos.

O século 20 foi o ápice de uma perspectiva em que o apelo da ciência e o desenvolvimento tecnológico se tornaram imperativos para a conquista do mundo, transformando os perigos eminentes de uma sociedade industrial em riscos de grande escala para toda a humanidade. A ciência passou a ocupar posição ambivalente, ora como mediadora da percepção e da minimização dos riscos, ora como desencadeadora deles. Interesses políticos e econômicos moldaram e influenciaram as tomadas de decisão, para as quais também contribuíram os especialistas da ciência.

Em muitos casos – como o do desenvolvimento da energia nuclear e da produção de armas – uma parte da ciência aboliu a fronteira entre laboratório e sociedade, transformando a sociedade num “laboratório”, ocasionando riscos de ordem global, como a crise ecológica e a turbulência dos mercados financeiros. Tudo isso propiciou o que Beck (1992) chamou de “irresponsabilidade organizada”, ou “normalização do perigo”, em que ameaças são

A ideia de uma ciência acoplada ao progresso econômico e a serviço de ideologias foi utilizada, por exemplo, para a criação de armas bastante sofisticadas, gerando resultados penosos para a humanidade. Atualmente, os conflitos armados persistem. Teme-se menos por uma terceira guerra mundial; mas isso não está de todo afastado, já que se acirraram os conflitos étnico-religiosos, demonstrando fissuras seculares nas relações estabelecidas entre as civilizações ocidental e oriental.

Há ainda tantas outras ameaças e riscos envolvendo a humanidade, como as mudanças climáticas e o surgimento de novas epidemias, cuja solução exige uma abordagem complexa. Desta vez – deseja-se – a abordagem de uma ciência integrada deve voltar-se para a busca de soluções definitivas e de grande escala para resolver os problemas desencadeados por uma visão de mundo em que tecnologia, capital e política estejam intrinsecamente associados para a disputa e a afirmação de hegemonias de governos e interesses econômicos.

Alguns projetos de grande porte podem ser considerados como “marcos” no desenvolvimento da abordagem de uma integração das ciências e cabem como exemplos de iniciativas interdisciplinares, mesmo que nem sempre todos tenham sido construídos com fins pacíficos e edificantes. Abaixo são citados alguns destes marcos:

Projeto Manhattan (Manhattan Project) foi o programa de pesquisa liderado pelos Estados

Unidos, com a participação do Reino Unido e do Canadá, que produziu a primeira bomba atômica durante a Segunda Guerra Mundial. Num esforço de unir ciência, indústria e forças armadas, o projeto foi liderado pelo cientista Robert Oppenheimer, em Los Alamos, New Mexico. Oppenheimer reuniu uma equipe variada de cientistas para criar a bomba atômica, antes dos alemães. O projeto chegou a empregar mais de 130 mil pessoas e custou aproximadamente US$ 2 bilhões (o equivalente a aproximadamente US$ 24,4 bilhões, em 2011).5

Projeto Apolo (Project Apollo) foi um conjunto de missões espaciais coordenadas pela Nasa

no período entre 1961 e 1972, cujo objetivo era levar o homem à Lua. O projeto culminou com o pouso da Apollo 11 no solo lunar em julho de 1969. Questões políticas internacionais e a Guerra Fria foram decisivas para a “corrida” e a conquista da Lua. Os esforços dos EUA e da URSS eram dirigidos especialmente para definir quem venceria a disputa de levar o homem à Lua, ou qual sistema venceria a Guerra Fria: o capitalista ou o comunista. Além de reunir equipe altamente diversificada de cientistas, o projeto obteve resultados bastante

positivos para a Ciência, desvelando informações sobre o sistema solar e o universo e gerando alta tecnologia, muitas aplicadas na vida cotidiana, até os dias de hoje.6

Projeto Genoma Humano (The Human Genome Project - HGP) teve como objetivo o mapeamento do genoma humano identificando os nucleotídeos que o compõem. O HGP foi resultante de um empenho internacional que reuniu o Instituto Nacional de Saúde americano (National Institutes of Health - NIH) e centenas de laboratórios e centros de pesquisa de todo o mundo que se uniram à tarefa de sequenciar os genes que codificam as proteínas do corpo humano. O projeto foi fundado em 1990, com prazo de conclusão de 15 anos. O HPG envolveu mais de cinco mil cientistas, criando o Consórcio Internacional de Sequenciamento do Genoma Humano. Em julho de 1999, foi divulgado o primeiro esboço do genoma humano. Foram feitas várias revisões, com o intuito de que cada base no genoma fosse sequenciada várias vezes. Em abril de 2003, o projeto foi concluído, com o sequenciamento de 99% do genoma humano e com uma precisão de 99,99%.7

Estação Espacial Internacional (International Space Station - ISS), é um projeto conjunto

da Agência Espacial Canadense (CSA/ASC), Agência Espacial Europeia (ESA), Agência Japonesa de Exploração Aeroespacial (JAXA), Agência Espacial Federal Russa (ROSKOSMOS) e Administração Nacional de Aeronáutica e Espaço dos EUA (NASA), envolvendo cientistas de cerca de 16 países. O projeto existe desde 1998 e sua continuidade está prevista até o ano de 2030. Os principais campos de pesquisa da ISS incluem Clima e Medicina Espaciais, Biologia, Física, Astronomia e Meteorologia, entre outros.8

Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear (Organisation Européenne pour la Recherche Nucléaire), conhecido como CERN (antiga sigla para Conseil Européen pour la Recherche Nucléaire) é o maior laboratório de Física de Partículas no mundo, localizado a noroeste de Genebra, na fronteira entre a França e a Suíça. A CERN foi incubadora de vários avanços técnicos que se tornaram públicos pelo fato de a organização divulgar seus trabalhos e descobertas na rede mundial de computadores, ela própria um de seus resultados de pesquisa. A CERN emprega cerca de 2.400 empregados, bem como cerca de oito mil

6 The Moon Landing. BBC News (London: BBC). July 23, 1999.

http://web.archive.org/web/20021002030438/http://news.bbc.co.uk/1/hi/special_report/1999/07/99/the_moon_la nding/396037.stm. Acesso em: 01/08/2013

cientistas e engenheiros, que representam 608 universidades e centros de pesquisa e 113 nacionalidades. O seu mais recente e conhecido projeto é o acelerador de partículas.9

Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas (Intergovernmental Panel on Climate Change – IPCC) foi criado em 1988 pela Organização Meteorológica Mundial (OMM) e o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) para fornecer informações científicas, técnicas e socioeconômicas relevantes para o entendimento das mudanças climáticas, seus impactos potenciais e opções de adaptação e mitigação. É um órgão intergovernamental aberto para os países membros do PNUMA e da OMM. Milhares de cientistas de todo o mundo, contribuem para o IPCC de forma voluntária. Atualmente 194 países são membros do IPCC. Governos participam do processo de revisão e das sessões plenárias, onde as principais decisões sobre o programa de trabalho do IPCC são tomadas e os relatórios são debatidos, aprovados e adotados.10

Estes projetos têm em comum o fato de terem um objetivo a ser alcançado, que podem ser o desenvolvimento de uma tecnologia ou a solução de problemas complexos, envolvendo diversificados níveis de encadeamento com subsequentes visões e perspectivas. A interdisciplinaridade e outros meios para a integração do conhecimento se tornam altamente necessários, a fim de gerar novos conhecimentos e percepções. Estes marcos da interdisciplinaridade podem ser interpretados como formatos a serem considerados e as universidades são um excelente campo para a compreensão, consolidação e prática desta nova percepção.

9http://home.web.cern.ch/fr. Acesso em 01/08/2013 10http://www.ipcc.ch/ Acesso em 01/08/2013

2 UNIVERSIDADES