3.2 Our Approach to Bias
3.2.2 Biases in Data Collection or in the Training Data
Durante o percurso criativo, o escritor passa por várias fases que portam as marcas do processo pelo qual ele transforma o texto, ou seja, há um caminho percorrido até chegar ao texto em fase “final”. Essas etapas, que compõem o ato criativo, podem ser reconstituídas e em parte recuperadas a partir da observação dos vestígios materiais. As versões, separadas e isoladas entre si, permitem reconstruir a ordem cronológica do processo. As operações de escritura de cada versão permitem ao geneticista perceber as diferentes etapas de textualização, as retomadas, supressões, acréscimos. Nesse processo, o geneticista pode fazer um levantamento a partir das mudanças de ferramentas de escritura pelas quais o manuscrito passou. Para reconstruir a ordem cronológica dos documentos de processo, tem-se como ponto de partida a obra publicada.
De acordo com De Biasi, há três grandes fases de escritura pelas quais o escritor pode passar. Cada fase pode variar conforme o método de escritura de cada um, o que evidencia que elas não são estanques. Também é possível perceber que cada fase pode apresentar-se de uma forma e em um
96 SCLIAR, Moacyr. O texto, ou: a vida - uma trajetória literária. Rio de Janeiro: Bertrand, 2007, p. 260.
determinado tipo de suporte no qual constam as diferentes operações realizadas a cada etapa de escritura.
A primeira fase da gênese textual caracteriza-se como pré-redacional. Anterior à redação, para alguns escritores essa fase ocorre somente na mente, sem deixar indícios materiais. Para outros, é constituída por pesquisa(s) preliminar(es), notas de leitura, roteiros, planos, lista de palavras, entre outros, ou ainda a retomada de uma ideia anotada anteriormente. Há a possibilidade de o mesmo projeto aparecer mais de uma vez ao longo da vida do escritor, o que pode levar os geneticistas ao que De Biasi denomina de “falsos inícios”, que se referem às várias fases de escrituras anteriores que traziam a mesma ideia a cada novo projeto de escritura. Ao retomar esse esboço inicial, muitas vezes o escritor altera-o e transforma-o em outra proposta, bem diferente da anterior.
Alguns escritores utilizam essa etapa pré-redacional como uma programação roteirizada, um momento de preparação do que será tratado no texto, uma espécie de “guia da escritura” que orientará a etapa de escrita do texto propriamente dito. Ao estar imerso na textualização, o escritor algumas vezes poderá realizar alterações no esboço inicial. Devido a esse fato, essa fase, em muitos casos, é considerada um “começo provisório” da ideia que será tratada ao longo do texto.
A segunda fase, a redacional, constitui uma etapa de decisão, na qual se dá a execução do plano de escritura ou início da escrita, mais precisamente. Após preparar o seu esboço ou roteiro, o escritor passa para a textualização, para a redação, que configura o centro propriamente dito da gênese, conforme esclarece De Biasi: “o que se chama de rascunhos da obra, que podem estar acompanhados de um dossiê de anotações documentais para uso redacional, bastante distinto em geral do dossiê documental explanatório da fase inicial”.97
Nessa etapa, há o resgate de documentos da fase pré-redacional, como esboços desenvolvidos e notas contendo informações pertinentes à redação, formando-se assim diferentes versões do mesmo manuscrito. Na medida em
97 BIASI, Pierre-Marc de. A genética dos textos. Tradução Marie-Hélène Paret Passos. Porto Alegre: Edipucrs, 2010, p. 52.
que o texto é elaborado, aparece o estilo de cada autor. Imerso na sua escrita, o autor transforma-se em leitor e realiza as correções que achar necessárias. Em alguns casos, ao passar a limpo, o autor pode decidir por novas escolhas, o que algumas vezes pode levá-lo a grandes mudanças se comparado ao texto inicial.
A última fase é a pré-editorial, na qual o texto entra para a etapa final, em que serão realizadas as últimas correções, haverá a fixação do texto e o preparo para a edição impressa.
Alguns escritores têm consciência das diversas etapas da escritura. Moacyr Scliar tinha consciência de que a escrita organiza-se num processo mental que começa antes do exercício do instrumento de escrita com o suporte. Ele afirmava que a escrita é uma etapa inicialmente intelectual que em algum momento se materializa e passa para o papel:
Aprendi, em primeiro lugar, que escritores escrevem. Escrever não significa necessariamente pegar uma caneta e rabiscar no papel, ou digitar no computador; há uma fase de elaboração mental em que o texto começa a tomar forma na nossa cabeça. Mas em algum momento ele deve se tornar visível, ou legível.98
No momento em que o texto se torna visível e as ideias se materializam, indo da mente do escritor para o papel ou para a tela do computador, inicia-se a parte visual da gênese da escritura, composta pelas três fases descritas por De Biasi. Cada escritor pode variar a sua prática de composição da obra literária: uns poderão desenvolver a primeira fase somente na mente, sem deixar vestígios; outros percorrerão as três fases, como propõem os documentos de processo da obra Os voluntários, de Moacyr Scliar.
Ao observar os manuscritos de trabalho da referida obra, sugere-se que a fase pré-redacional constitui-se de um pequeno esquema pelo qual o escritor inicia o processo visível. O roteiro da obra é composto por cinco folhas inteiras e duas folhas rasgadas, que compreendem um bloco de anotações escrito a
98 SCLIAR, Moacyr. O texto, ou: a vida - uma trajetória literária. Rio de Janeiro: Bertrand, 2007, p. 256.
mão. Um exemplo disso pode ser percebido na transcrição linearizada99 da primeira folha de esboço da obra Os voluntários, de Moacyr Scliar, localizada no Acervo Moacyr Scliar, junto ao DELFOS, da PUCRS, apresentada a seguir:
99 Almuth Grésillon afirma que o mesmo documento pode ter transcrições diferentes. GRÉSILLON, Almuth. Elementos de crítica genética: ler os manuscritos modernos. Tradução de Cristina Campos Velhor Birck et al. Porto Alegre: UFRGS, 2007. No caso dessa transcrição, é preciso lembrar que existe outra versão do esboço da obra Os voluntários, encontrada no artigo intitulado “Moacyr Scliar: da intuição genética ao processo de criação”, publicado na Revista Navegações (v. 3, n. 1, p. 27-33, jan./jun. 2010), de autoria de Marie-Hélène Paret Passos.
Transcrição linearizada. Primeira folha de esboço da obra Os voluntários, de Moacyr
Scliar. (Acervo Moacyr Scliar, DELFOS, PUCRS. Transcrição feita pela autora)
Após esboçar o plano no bloco de anotações, no qual planeja as ações da personagem Benjamim, entende-se que Scliar vai para a fase redacional, na qual “despeja” toda a sua “pulsão” no teclado da máquina de escrever. Nessa etapa, há importantes indícios do processo de criação, pois após a datilografia eram realizadas as alterações a caneta (de cores variadas). Pode-se sugerir que as marcas em caneta de cor vermelha fazem referência às correções gramaticais, e as outras cores, assim como as marcações a lápis (talvez o instrumento de escrita que estivesse mais próximo de suas mãos), as alterações de estrutura semântica e sintática, o que denota que cada campanha de escritura tinha foco específico. Além dessas características encontradas na fase redacional, quando o escritor queria alterar/acrescentar partes do texto, ele copiava manualmente ou datilografava partes do texto que
desejava modificar. Em seguida, recortava essas partes e colava-as manualmente ao já escrito, formando assim um manuscrito cheio de recortes e colagens.
Posteriormente à construção dessa primeira versão datiloscrita da obra Os voluntários, supõem-se que Scliar passava o seu texto a limpo. Nessa fase, o escritor continua o percurso criativo e acrescenta mais quarenta e uma páginas ao texto. Além disso, nessa etapa é possível observar que Moacyr Scliar abandona os títulos utilizados na versão anterior e acrescenta uma epígrafe, em uma nova folha, na abertura de cada um dos capítulos. Todas as alterações, hipoteticamente realizadas nessa fase, são mantidas na primeira edição impressa da obra, publicada no ano de 1979.
Um exemplo que pode ilustrar a supressão dos títulos é o primeiro capítulo da primeira versão datiloscrita da obra. Scliar intitula o primeiro capítulo de “O Começo”, mas suprime o título na segunda versão através de uma rasura de supressão. Após a rasura, o escritor acrescenta os primeiros versos do poema “Sôbolos rios que vão”, de Camões, em uma nova folha, como se pode ver nas imagens abaixo:
Transcrição linearizada. Título da primeira versão datiloscrita de Os voluntários: “O começo”. (Acervo Moacyr Scliar, DELFOS, PUCRS. Transcrição feita pela autora)
Transcrição linearizada. Supressão do título “O começo”, na segunda versão datiloscrita de Os voluntários, e acréscimo da epígrafe “Sôbolos rios que vão/ por Babilônia me achei / Camões”, em nova folha. (Acervo Moacyr Scliar, DELFOS, PUCRS. Transcrição feita pela autora)
O processo de criação de Scliar estava sempre em “ebulição”. As ideias para contos ou narrativas “brotavam” em qualquer momento e em qualquer lugar e eram anotadas no primeiro pedaço de papel que ele encontrava. O próprio autor afirmava que “às vezes, numa lanchonete, esperando pelo sanduíche, eu [ele] pegava um guardanapo e escrevia uma linha”.100 Isso se
comprova ao observar o espólio do escritor, em que há anotações nos mais diversos suportes: folhas soltas, bloco de notas, entre outros.
Na caderneta de viagem, em que está escrito numa das páginas: “Ideias para contos que surgiram na viagem”, também se comprova tal prática:
Transcrição linearizada. Anotações da Caderneta de viagem. (Acervo Moacyr Scliar, DELFOS, PUCRS. Transcrição feita pela autora)
100 SCLIAR, Moacyr. O texto, ou: a vida - uma trajetória literária. Rio de Janeiro: Bertrand, 2007, p. 269.