Apresentamos o conceito de ethos, a seguir, como ferramenta de análise das traduções que compõem o nosso corpus. Amossy (2005) em seu Imagens de si no discurso – a construção do ethos introduz o conceito considerando que o simples ato do sujeito tomar a palavra acarreta construir uma imagem de si. E acrescenta que, para construir a imagem da pessoa do locutor não é preciso que este se ponha a falar de si mesmo; o que é importante é o interlocutor perceber suas crenças implícitas, seu estilo, suas competências linguísticas e enciclopédicas. Tal conceito, segundo Amossy, está intimamente associado à Teoria da Enunciação de Benveniste e a trabalhos de Catherine confundi-la com a visada, mesmo que ela seja objeto de uma mesma definição. Aqui, trata-se de um procedimento, enquanto que para a visada, trata-se de uma intenção pragmática” (CHARAUDEAU, 2004, p. 27, grifo nosso).
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Tomemos como exemplo a descrição presente nos anúncios publicitários. O material linguístico desse tipo de anúncio está naturalmente disposto de modo descritivo, por meio inclusive, do emprego de adjetivos subjetivos (sobre os quais discorreremos na seção 1. 6). Contudo, quanto à visada presente neste gênero de texto, esta é argumentativa, ou seja, de incitação.
Kerbrat-Orecchioni, que seguem fielmente tal teoria. A autora prossegue dizendo que o conceito de ethos assemelha-se à noção de face de Erving Goffman, que se constitui numa “imagem do eu delineada segundo certos atributos sociais aprovados” e valorizados. Quem primeiro usou o termo ethos nas ciências da linguagem foi Ducrot, em 1984, seguindo a herança da retórica clássica de Aristóteles (AMOSSY, p. 9-15).
Dentro do arcabouço teórico da AD francófona, a terminologia ethos diz respeito à construção de uma imagem de si através do discurso. Em seu Dicionário de Análise do Discurso, Charaudeau & Maingueneau (2006, p. 220) definem ethos da seguinte forma, por meio de um verbete de Ruth Amossy: “Termo emprestado da retórica antiga, o ethos [...] designa a imagem de si que o locutor constrói em seu discurso para exercer uma influência sobre seu alocutário”. Aristóteles, responsável por sistematizar a retórica como arte da persuasão, propôs três meios discursivos para influenciar o auditório: o logos, o ethos e o pathos. Em linhas gerais, o ouvinte precisa ser convencido pelo discurso propriamente dito, pelo caráter do orador e pela paixão que estes despertam nele. Reiteramos então que, para a AD, à construção da imagem de si no discurso, convencionou-se chamar de ethos. Assim, diz-se que o ethos liga-se ao orador, através principalmente das escolhas linguísticas feitas por ele, escolhas estas que revelam pistas acerca da imagem do próprio orador, continuamente construída no âmbito discursivo
Charaudeau (2008, p. 116) acrescenta: “O ethos não é totalmente voluntário (grande parte dele não é consciente), tampouco necessariamente coincidente com o que o destinatário percebe”. No Seminário de Pós-graduação realizado entre os dias 18 e 29 de maio de 2009 na Faculdade de Letras da UFRJ, Maingueneau proferiu uma palestra intitulada “Autor, ethos e suporte de publicação27” na qual se refere a Voltaire da mesma forma que o arqueólogo francês que mencionaremos no terceiro capítulo. O
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linguista diz o seguinte: “Voltaire quer ser conhecido como filósofo mas é mais lembrado como escritor de contos”, chamando a atenção para o aspecto inconsciente da construção do ethos. Ora, o que dava prestígio à época de Voltaire eram o teatro e os textos filosóficos, mas ao contrário do que pensou, o que lhe conferiu um ethos de orador confiável e de prestígio foi o tom irônico de suas histórias. Novamente, no Seminário mencionado anteriormente, Maingueneau refere-se a Voltaire, dizendo: “O autor constrói um ethos irônico”, demonstrando necessidade de ser espirituoso, de adotar uma distância irônica, de manipular a alusão e o duplo sentido. Todavia, cabe reiterar que a eficácia do ethos está ligada ao que vem implícito na postura sutil do escritor, não ao que ele enuncia explicitamente. Ele transparece mais do que aparece (p. 118), afirma Charaudeau (2008). E Maingueneau (2006, p. 268) acrescenta: “O ethos se mostra no ato de enunciação mas não se diz no enunciado.” Assim, podemos dizer, a partir de Maingueneau, que o ethos do locutor está intimamente ligado com sua maneira de se exprimir.
Ao enunciar o texto traduzido, é por meio de suas escolhas tradutórias que vemos o ethos do tradutor. Tais escolhas lançam pistas acerca dessa imagem do tradutor. Sendo o texto de partida – Zadig - um texto do século XVIII, todos os três tradutores procuram usar um registro de língua mais formal, outorgando assim um caráter mais “de época” ao Zadig em português. Entretanto, há diferenças e portanto vamos analisar as escolhas lexicais dos tradutores segundo duas classificações de ethos: erudito e coloquial. O tradutor constrói um ethos mais próximo ao contexto de partida (erudito) ou ao contexto de chegada (coloquial)? Segundo a teoria de Lambert & van Gorp (1985), que veremos em maior profundidade no próximo capítulo, dedicado às teorias da tradução, levaremos a possibilidade de constatar se cada tradução gerou um
texto mais adequado ou mais aceitável (mais próximo ao texto de partida ou ao texto de chegada, respectivamente)?
Entretanto, cabe aqui uma observação: uma vez que na encenação linguageira da tradução, o tradutor é raramente visto, o ethos do tradutor é interpretado como se fosse o ethos do escritor.28 Na obra de 2003, Conversas com tradutores: balanços e perspectivas da tradução, organizada por Ivone Benedetti e Adail Sobral, 18 tradutores das mais diversas áreas de atuação são entrevistados a fim de, segundo uma resenha publicada na revista DELTA, “ao final da leitura [...] compor o ethos ainda que parcial de cada tradutor”. Nessa resenha, Kayano(2004) nos ajuda a constatar que nossa preocupação com o ethos do tradutor não é apenas nossa mas também a conclusão da leitura crítica de uma obra sem dúvida “obrigatória para todos aqueles que se dedicam à língua” (KAYANO, 2004).