As quatro traduções que compõem o nosso corpus são todas elas oriundas do mercado editorial brasileiro. Como visamos detectar as diferenças individuais dos tradutores, não seria pertinente colocarmos textos escritos em português brasileiro e português europeu36, pois, embora sejam a mesma língua, certas investigações ocorrendo no domínio da Teoria Gerativa evidenciam diferenciações em curso. A mais significativa delas seria uma mudança quanto ao preenchimento do pronome sujeito na variante brasileira da língua portuguesa. De acordo com Ribeiro e Coelho (2006, p. 1), os exemplos a seguir nos ajudam a ilustrar o fato de que a língua portuguesa admite tanto a realização explícita do sujeito quanto sua ocultação na frase, constituindo-se portanto como uma língua pro-drop. (1) Nós já concluímos nosso trabalho; (2) pro Já
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Fizemos a opção pelo recorte do corpus da nossa pesquisa não incluindo traduções de Portugal em função das diferenças apontadas, entre as duas variantes do português, pela Teoria Gerativa e pela Linguística Funcionalista (teorias que não aprofundaremos nessa tese em virtude de não ser a nossa orientação no campo da Linguística, conforme está exposto no presente capítulo).
concluímos nosso trabalho. Em (1) temos a realização do sujeito foneticamente
preenchido, enquanto em (2) a do sujeito foneticamente nulo.37
Os autores avançam, a partir da teoria de Chomsky e Rizzi:
Em 1982, Chomsky e Rizzi postularam a existência do parâmetro do sujeito nulo ou parâmetro pro-drop. Segundo eles, a existência de sujeito é uma propriedade comum a todas as línguas. Contudo, há línguas que permitem que esse sujeito se realize sob duas formas – (a) foneticamente, por meio de pronomes ou (b) não foneticamente, sendo identificado, portanto, a partir da desinência do verbo – ao passo que outras não o licenciam. Assim, enquanto o Português é uma língua que marca positivamente o parâmetro do sujeito nulo (+ pro-drop), o Inglês, por exemplo, é uma língua que marca esse parâmetro de forma negativa (- pro-drop), considerando como agramaticais sentenças como (3), a seguir: * Is rainning now. (RIBEIRO & COELHO, 2006, p. 3-4).
Em sua tese intitulada A perda do princípio “evite o pronome” no Português Brasileiro, Maria Eugênia Duarte constata que no Brasil, o pronome sujeito passou a ser preenchido fonologicamente, o que não ocorria com línguas “pro-drop” como o português europeu e o italiano, apenas com línguas “não pro-drop” como o francês e o inglês.
Comparemos:
(1) Muitos alunos acham que pro são inteligentes. (1 a)*Plusieurs élèves pensent que pro sont intelligents. (1 b) Plusieurs élèves pensent qu’ils sont intelligents.
Em francês, a não realização do pronome sujeito na oração encaixada não é admitida. Sua realidade fonológica é obrigatória, ao passo que em português ela não o é. De acordo com Chomsky, um dos princípios universais é o Princípio de Projeção Estendido, segundo o qual toda frase flexionada deve conter um sujeito. O parâmetro pro-drop existe para atender a esse princípio. Isso vem explicar a presença do expletivo il em francês como em:
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Queremos chamar a atenção para o fato de que essa ocultação é apenas linguística pois na mente do leitor, o sujeito encontra-se plenamente realizado.
(2 a) Il semble que la ville brûle. (2 b) Il a été tué beaucoup de civils.
Para a Gramática Gerativa, todas as línguas obedecem às mesmas leis, que são conhecidas por Princípios, e constituem a Gramática Universal. Entretanto, as línguas têm também particularidades, manifestadas foneticamente, que são autorizadas pelos Parâmetros (Haegeman & Guéron, 1999). A Teoria dos Princípios e Parâmetros (Chomsky/Lasnik, 1995) vem, dentro da Gramática Gerativa, explicar porquê algumas línguas exigem o pronome sujeito e outras não. O pronome sujeito pode ter ou não uma realidade fonológica mas, de acordo com a Gramática Universal Gerativa, sua realidade cognitiva é indiscutível. Línguas românicas como o português, o espanhol e o italiano são exemplos de línguas que permitem o sujeito nulo. São portanto chamadas línguas ‘pro-drop’, ou seja, línguas que marcam positivamente o Parâmetro do Sujeito Nulo. Línguas que obrigam a realização do pronome sujeito, tais como o francês e o inglês, são pois línguas ‘não pro-drop’.
Em português europeu e outras línguas românicas, a não representação fonológica do sujeito ocorre sempre que a sua plena identificação for possível. Enquanto temos em português europeu “Sei que vou ser escolhido” e “João sabe que vai ser escolhido”, temos cada vez mais em português brasileiro “Eu sei que (eu) vou ser escolhido” e “João sabe que (ele) vai ser escolhido”.
É fácil de observar que nas línguas ‘não pro-drop’, as desinências verbais são mais pobres que nas línguas ‘pro-drop’. Sabemos, por exemplo, que os verbos em inglês variam muito menos em termos de formas verbais do que os verbos em português. De acordo com a Gramática Gerativa, esse empobrecimento dos paradigmas verbais é que estaria levando à obrigação do uso do pronome sujeito. Há muitas pesquisas sendo feitas sobre o Parâmetro pro-drop ou Parâmetro do Sujeito Nulo.
O quadro abaixo, elaborada por Duarte (1995) em sua tese de doutorado resume a mudança ocorrida no paradigma flexional do português brasileiro:
Pessoa verbal/No Pronome Paradigma 1 Paradigma 2 Paradigma 3
1a singular Eu Am o Am o Am o 2a singular Tu Você Ama s Am a - Am a - Am a 3a singular Ele/Ela Am a Am a Am a 1a plural Nós A gente Am a mos - Am a mos Am a - Am a 2a plural Vós Vocês Am a is Am a m - Am a m - Am a m 3a plural Eles/Elas Am a m Am a m Am a m
Quadro 1: Paradigmas Pronominais e Flexionais no Português do Brasil Fonte: DUARTE, 1995, p. 35.
A partir do quadro acima, podemos ver claramente uma redução de formas na evolução dos paradigmas flexionais. De seis formas distintas, vamos caminhando para apenas três, como vemos no Paradigma 3: Amo, Ama, Amam. Os pronomes tu e vós cederam espaço para você e vocês e a primeira pessoa do plural está deixando de ser paulatinamente nós para ser a expressão a gente. Essas três novas formas usam uma só flexão: de terceira pessoa (singular e plural).
O Parâmetro do Sujeito Nulo é um conjunto de propriedades que envolve não somente a possibilidade de sujeito nulo mas também, entre outras, a inversão na ordem do verbo com o sujeito dentro da oração. Ao invés da ordem canônica sujeito-verbo, ocorre a ordem inversa. Por ser a tradução mais antiga, esperamos ver maior incidência dessa inversão na tradução de Mário Quintana/Galeão Coutinho (MQ/GC) além de uma quantidade maior de sujeitos nulos. A inversão livre consiste na colocação do sujeito em posição pós-verbal. Por não ser a ordem sintática canônica, essa inversão atribui maior efeito estilístico à oração. Está presente apenas na linguagem escrita, praticamente não existe na fala. Isso confere ao texto o tom erudito e serve ao propósito
de construir um ethos erudito para o escritor-tradutor: “Sendo a ordem direta um padrão sintático, a ordem inversa, como afastamento da norma, pode adquirir valor estilístico. [...] Posto no rosto da oração um termo sobre o qual queremos chamar a atenção do nosso ouvinte, quebra-se a norma sintática e consegue-se o efeito estilístico desejado” (BECHARA, 1983, p. 322). O autor visa construir, portanto, um ethos mais sentimental, visa produzir no leitor uma maior emoção, e puxá-lo para o campo da imaginação. Ao invés da ordem direta, ligada ao raciocínio lógico de causa e efeito do domínio racional. “A ordem inversa pertence ao sentimento, à vida afetiva, à imaginação [...] Quer-se com esta ordem inversa emocionar, transmitir sensações fortes ao leitor [...] Pertence a ordem inversa aos primeiros períodos da língua, à poesia, à oratória, ao estilo ornado, às formas próprias da vida sentimental e imaginosa” (BUENO, 1968, p.370).
Em uma pesquisa intitulada A focalização do sujeito e a inversão livre no português brasileiro, Quarezemin (2006) discute a mudança gradual pela qual nossa língua falada no continente americano passa: “O PB38 hoje está passando por uma fase de transição de uma língua pro-drop para não pro-drop.[...] Atualmente é visto como uma língua pro-drop parcial, na qual o sujeito nulo ainda se mantém apenas na escrita” (QUAREZEMIN, 2006, p. 1796). E, por estarmos trabalhando com o par francês português, achamos pertinente citar a conclusão do referido artigo:
Levando em consideração o exposto, observamos que o PB se distancia das línguas românicas como o português europeu, italiano e espanhol, as quais focalizam o sujeito em posição pós-verbal em sentenças com verbos transitivos, e aproxima-se do francês, visto que essa língua permite a focalização do sujeito posposto apenas quando ocorre inversão estilística (QUAREZEMIN, 2006, p. 1801).
A pesquisa linguística de base funcionalista vem reforçar esses resultados obtidos pela teoria gerativa. No livro organizado por Anthony Justus Naro e Maria Marta Pereira Scherre, Origens do português brasileiro, constata-se o “uso menos
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freqüente, no Brasil do que em Portugal, de sujeitos nulos, com conseqüente aumento no uso de pronomes sujeitos morfologicamente explícitos” (NARO & SCHERRE, 2007, p. 163, grifo nosso).
A Linguística funcional trabalha essencialmente com questões de mudanças linguísticas, sobretudo da língua materna, no nosso caso preciso, do português brasileiro. Citamos como exemplo a Proposta Funcionalista de Mudança Linguística do Prof. Ataliba Castilho, um dos idealizadores do Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo-SP. Dados de uso da língua portuguesa também se encontram presentes na gramática publicada por Maria Helena de Moura Neves em 2000, apresentando-a da seguinte forma: “A Gramática de usos do português constitui uma obra de referência que mostra como está sendo usada a língua portuguesa atualmente no Brasil” (NEVES, 2000, p. 13).
1. 8. Pronomes vous e tu suas diferentes traduções para o português
Além da questão a respeito da presença ou ausência de pronome sujeito e da inversão do verbo com o sujeito, que distingue a língua francesa e a língua portuguesa pelo Parâmetro do Sujeito Nulo, analisaremos uma outra diferença entre essas duas línguas - a questão do pronome francês vous, que sempre demonstra ser um problema enfrentado por tradutores do francês para o português.
Com o intuito de ressaltar as divergências nas escolhas tradutórias e assim verificar o tipo de construção de ethos empreendida por cada tradutor, não poderíamos deixar de nos deter no aspecto da tradução do pronome pessoal francês vous. Aqui,
enfocaremos a tradução do vous singular (2ª pessoa do plural, possuindo valor de singular). Sua tradução pode ser: tu, vós, o senhor/a senhora ou você.
Como vimos na sessão 1. 5, todo enunciador visa construir um ethos específico. Ao longo do próximo capítulo defendemos que, embora o tradutor não reivindique o título de autor criativo do texto que ele está a traduzir, ele se constitui como autor do seu texto (do texto que traduziu), havendo por esse motivo, a construção de um ethos enquanto enunciador-tradutor próprio. O grau de formalidade produzido por cada pronome português será aqui nossa próxima questão. Vejamos o que autora apresentada a seguir nos esclarece acerca da passagem de vous para os mais diversos pronomes em português, como vimos mais acima.
Ana Luíza Silva Camarini (2006), autora do livro Os problemas da tradução literária: La fée aux miettes de Charles Nodier, discute na pesquisa suas dificuldades ao traduzir o livro de Nodier39. Ela afirma que “em relação aos pronomes de tratamento, deparamo-nos com o conhecido problema do pronome sujeito vous, amplamente utilizado em francês e que, como sabemos, não possui equivalente exato em português, exigindo diferentes traduções conforme o contexto” (CAMARINI, 2006, p. 38).
Todo aquele que aprende francês tem em mente, desde os primórdios de seu aprendizado da língua, que não deve empregar o pronome tu no princípio de uma interação com um interlocutor que ainda não o autorizou40 a deixar de usar o pronome da cortesia e da formalidade – o pronome vous.
É bem significativa, na língua francesa, a passagem da 2ª pessoa do plural para a 2ª pessoa do singular no tratamento entre as pessoas; na verdade, trata-se de um fato comportamental de uma determinada comunidade linguística: na França, o tratamento formal permanecia, principalmente no século passado, até que as pessoas atingissem um profundo grau de intimidade (CAMARINI, 2006, p. 46).
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Iniciador e precursor do fantástico na França.
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Em apenas alguns casos, como na interação com uma criança por exemplo, essa formalidade está dispensada.
A fim de dirimir suas dúvidas quanto ao pronome a ser utilizado, a pesquisadora, que é também tradutora, decide tomar como referencial a linguagem utilizada pelos escritores românticos brasileiros, José de Alencar e Joaquim Manoel de Macedo, em seus respectivos romances situados entre 1844 e 1893. Em A Moreninha, Camarini (2006, p. 39) constata que: “Na conversação normal entre os personagens do romance, o autor utiliza de preferência a forma senhor, senhora, que denotam cortesia e respeito, no Brasil”. Essa é a forma para as situações formais, que Camarini (2006, p. 42) adota em sua tradução do romance francês de Nodier, pois, segundo ela, “Vous em francês, senhor e senhora em português, e sobretudo no português mais antigo, constituem também a forma de tratamento entre pessoas que acabam de se conhecer, entre as quais não se criou, ainda, um vínculo de amizade ou de intimidade”. O pronome vós viria em situações muito especiais nas obras brasileiras do século XIX, como observamos nesta referência ao autor de A Moreninha:
Observamos, no entanto, que o pronome de tratamento vós, embora utilizado por J. M. de Macedo, aparece sobretudo em situações
especiais em que é, até mesmo, enfatizado; um exemplo desta
ocorrência seria a brincadeira ingênua de Carolina, que se finge de fada na gruta e fala a Augusto com entonações de sibila: “Quereis que
vos fale do passado, do presente, ou do futuro?” (MACEDO apud
CAMARINI, 2006, p. 39, grifo nosso).
Mais adiante, frente às diferentes relações estabelecidas pelos personagens do texto francês, Camarini (2006, p. 43-4) precisa ponderar acerca da nuance dos diferentes pronomes em português:
No diálogo entre o narrador e o protagonista vemos que Michel não aceita ser tratado por senhor; o narrador passa imediatamente a chamá-lo pelo nome, mas conserva, no original, o pronome vous. Ficamos, assim, impedidos de empregar a equivalência vous/senhor, da mesma maneira que não pudemos substituir o pronome francês
vous pelo pronome português tu [...], passando da 2ª pessoa do plural
que, no caso, indica reserva e respeito, para a 2ª pessoa do singular, denotativa de proximidade e intimidade. Mais uma vez, é em José de Alencar que encontramos a solução para essa nova questão: o uso do
pronome você, que quebra a formalidade excessiva, ao mesmo tempo em que mantém uma distância respeitosa entre os
interlocutores. Essa forma de tratamento é utilizada, por exemplo, em
Sonhos d’ouro quando, durante o banquete de aniversário da filha no
palacete dos Soares, o pai de Guida dirige-se a um de seus conhecidos, o Visconde de Aljuba, tratando-o por você. “Visconde, você sabe o provérbio . . . ” (Alencar, 1965, v. 1, p. 611), revelando uma certa intimidade, não destituída, porém, de uma dose de formalidade.
Extensa reflexão sobre o pronome você é encontrada em diversas pesquisas históricas a respeito dos pronomes pessoais e formas de tratamento. Como vimos acima, o grau de formalidade do referido pronome é discutido em Camarini (2006, p. 44): “o pronome você parece-nos representar bem essa forma de tratamento intermediária”.
Outra pesquisa que aponta a posição de formalidade intermediária para você é intitulada Por onde andava o tu no final do século XIX. De acordo com uma das fontes de tal pesquisa, “mudanças drásticas na gramática do português brasileiro teriam ocorrido no final do século XIX” (TARALLO apud TEIXEIRA, 2008, p. 161). Há mesmo uma motivação político-libertária para essa reviravolta dos pronomes. O fim da escravatura, a proclamação da República e diversos acontecimentos e anseios levam à retomada dos ideais franceses e de ações efetivas, influenciando até mesmo os usos linguísticos, que pretendem levar à diminuição das desigualdades sociais. “você [...] refere-se a um pronome de tratamento de valor intermediário entre tu e senhor, usado pela camada letrada da população, entre iguais, tomado de empréstimo ao português europeu provavelmente na segunda metade do século XVIII” (p. 166). : “O ... você (...) refere-se a um pronome pessoal, digamos, neutro, que pode ser usado entre não-íntimos iguais e íntimos, em substituição a tu” (TEIXEIRA, 2008, p. 7).
Tal situação intermediária, quanto ao grau de formalidade do pronome você ocorria, segundo as pesquisas históricas, no século XIX, época de José de Alencar, mas não no momento atual, para quem os tradutores de Zadig traduzem. Hoje, o tu (com o verbo devidamente flexionado) produz um efeito mais erudito ao texto do que o pronome você. Tu, na contemporaneidade, possui um traço distintivo de formalidade.
No século XX, “As formas você e vocês se referem à 2ª pessoa, mas... [...] O emprego de você é muito mais difundido do que o emprego de tu, para referência ao interlocutor. Além disso, ocorre frequentemente (embora mais especialmente na língua falada), que se usem formas de segunda pessoa em enunciados em que se emprega o tratamento você, de tal modo que se misturam formas de referência pessoal de segunda e de terceira pessoa” (NEVES, 2000, p. 458). Além disso, os pronomes plurais se destinam a outros usos que não o de simples pluralização (NEVES, 2000, p. 460). O traço distintivo de formalidade de tais pronomes leva, por exemplo, a um efeito de maior polidez.
Assim como os pronomes de tratamento, o pronome você faz referência à pessoa a quem se fala (2a pessoa), mas leva o verbo para a 3a pessoa. “As formas você e vocês se referem à 2a pessoa, mas levam o verbo para a 3a pessoa, do mesmo modo como ocorre com os pronomes de tratamento, como vossa senhoria, vossa excelência, senhor(a)” (NEVES, 2000, p. 458, grifo da autora). Almeida (2000) em La deixis en portugais et en français faz uma análise comparativa dos dêiticos na língua portuguesa, nas vertentes européia e do Brasil, e na língua francesa. Assim como Neves, Almeida trata da ambiguidade de você, entre a 2ª e a 3ª pessoa pronominal. “Do ponto de vista da morfossintaxe, você é um pronome da terceira pessoa, conjugado com um verbo de mesma pessoa, ou melhor, na forma delocutiva. O paradoxo, é que esse pronome de forma delocutiva está sujeito a um uso alocutivo41” (ALMEIDA, 2000, p. 36).
Tal como aponta Cunha (1970, p. 207), alguns pronomes pessoais no português caíram radicalmente em desuso. O vós desapareceu no uso corrente da língua e não há correspondência exata para o vous do francês, nem quando se refere a uma só pessoa nem quando se refere a mais de uma pessoa. “O senhor, a senhora [...] são, nas
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variantes européia e americana do português, formas de respeito ou de cortesia e, como tais, se opõem a tu e você, em Portugal, e a você, na maior parte do Brasil” (CUNHA e CINTRA, 1985, p. 284). Nos dias de hoje o pronome tu também não é de uso corrente nos grandes centros urbanos, com exceção de alguns pontos da região norte e no sul do país, “ainda não suficientemente delimitados”, conforme Cunha e Cintra (1985, p. 284). Ao discorrerem sobre o emprego dos pronomes pessoais de 2ª pessoa, estes dois autores elencam o pronome você ao lado do pronome tu. Segundo eles, o uso de tu, em quase todo o território brasileiro, foi substituído por você, como forma de intimidade. Cunha e Cintra (1985) apontam para um uso praticamente residual do tu no território brasileiro, enfatizando que em apenas alguns lugares restritos do país encontra-se tal pronome mais comumente42. “Você também se emprega, fora do campo da intimidade, como tratamento de igual para igual ou de superior para inferior” (CUNHA e CINTRA, 1985, p. 284).
A respeito de vós, Cunha e Cintra (1985, p. 277-8) afirmam:
O pronome vós praticamente desapareceu da linguagem corrente do Brasil e de Portugal. Mas em discursos enfáticos alguns oradores ainda se servem da 2a pessoa do plural para se dirigirem cerimoniosamente a um auditório qualificado. [...] Vós, com referência a uma só pessoa, normal como tratamento de cerimônia em português antigo e clássico, emprega-se ainda, uma vez por outra, em linguagem literária de tom arcaizante para expressar distância, apreço social.
Atemo-nos no presente ponto da discussão, ao panorama histórico dos referidos pronomes pessoais citados acima, expondo pesquisas previamente delimitadas pelo nosso recorte. Primeiramente, vejamos alguns resultados obtidos por Duarte e Lopes (2003) na pesquisa intitulada “De Vossa Mercê a você: análise da pronominalização de nominais em peças brasileiras e portuguesas setecentistas e oitocentistas”.
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Acrescentamos que, na região sudeste, vemos o pronome tu empregado por um segmento da população carioca, num uso fora da norma padrão pois que sem a flexão verbal convencional (conforme apontado acima).
A partir da segunda metade do século XIX se deu o início da implementação do pronome você, havendo assim, basicamente, a polarização com tu. Existem outros recursos de referência ao interlocutor, tais como, Vossa mercê, Vós, que sofreram um significativo declínio num período que vai do final do século XVIII em diante, chegando a índices próximos de zero durante o século XIX. As autoras chamam a