7 Analyse – hvorfor ulik tilbøyelighet?
7.1 Sammenligning av Danmark og Norge
7.1.1 Betydningen av aktørenes egeninteresser
“Já aconteceu na escola espalharem vídeos de alguém…mas não eram pessoas conhecidas minhas. Houve uma discussão entre namorados…ou melhores amigos, em que ele filmou como o telemóvel a rapariga a despir-se e espalhou o vídeo pela escola toda…foi parar ao You Tube e ao Facebook. Por causa disso é que eles acabaram”
E4 (17 anos, 12º, sexo masculino)
70 No caso do Facebook – e entrando um pouco no seu jargão – os likes (Gosto) ou mesmo as partilhas de posts são exemplos dessa sistematização ou organização dos gostos pessoais para si próprio e para os
147
“quando, na minha escola, há confrontos, já assisti ao uso do telemóvel para filmar…e depois metem no youtube e assim…”
“Isso acontece…a pessoa que está a ser filmada não tem noção de que está a ser filmada e depois vai ver na internet, a um sitio aonde vão milhões de pessoas…e vê lá as suas figuras…não digo que aconteça muito, mas conheço uns dois ou três casos em que já aconteceu…”
E6 (17 anos, 11º ano, sexo masculino)
“P: já assististe a alguma situação em que se invadisse a privacidade de alguém, usando o telemóvel, ou espalhando mensagens?
R: imensas vezes…acho que quanto menos violência há na escola do género «vou-te roubar o telemóvel» ou «vou tirar-te o dinheiro do almoço», mais há a violência psicológica…quando não há violência directa há coisas que eu acho que são muito mais complicadas…por exemplo, pegar num factor de fraqueza da pessoa e espalhá-lo na net…isso é horroroso…já assisti a isso, sim…por exemplo, houve uma miúda que fez um vídeo privado com o namorado e ele depois pôs a circular por toda a gente da escola e na internet. Acho que essa miúda nunca mais vai confiar em nenhum namorado”
E10 (17, 12º ano, sexo masculino)
“já assisti muito a situações de…uma situação em que descobri que andavam a falar mal de mim…no ano passado eu não me dava com ninguém, era só namorado, namorado, namorado…e as pessoas começaram a dar opiniões sobre mim e nem sequer me conheciam…aconteceram confusões…filmaram uma rapariga a ameaçar-me, a fazer uma cena, e a dizer que me ia bater e que eu era isto e aquilo…mas eu agora dou- me com ela…somos amigas…esse vídeo felizmente não foi parar à net porque eu fui a tempo de pedir para apagarem e ter verificado isso à minha frente”
148
“P: já tiveste conhecimento de alguém ter filmado (com o telemóvel, por exemplo) alguma cena mais pessoal de outra pessoa e depois ter espalhado por outras pessoas?
R: sim.
P: como foi isso?
R: já aconteceu várias vezes…por exemplo raparigas que gostavam de um rapaz e fizeram coisas porcas só para o conquistar e depois esse mesmo rapaz acabou por divulgar em público”
E8 (15 anos, 10º ano, sexo masculino)
O telemóvel e a comunicação móvel: inflexão normativa da atenção
O telemóvel desempenha um papel fundamental na cultura juvenil. Os usos pessoais confundem- se com as inúmeras subculturas específicas e que, provavelmente variam de sociedade para sociedade (Castells, 2009: 185). Em Portugal, o estudo desta questão começa a aprofundar aspectos pertinentes das formas de utilização deste veículo cultural, alvo de usos distintivos e ajustamentos personalizados. Em Cardoso et al (2009) são descritos alguns hábitos comunicacionais de jovens entre os 16 e os 18 anos; designadamente a preferência pelas mensagens SMS em detrimento das chamadas telefónicas71. São descritos, ainda, aspectos como
a importância da componente afectiva nesses mesmos hábitos (Cardoso et al, 2009: 100-101). Vários autores têm dado conta das práticas de texting com a adopção de linguagens estenográficas na escrita de mensagens rápidas e em consonância com os serviços de mensagens instantâneas do computador (CAS, 2009; Stald, 2008; Ling, 2008; Cardoso et al, 2009). Provavelmente, tal estará relacionado com o facto de os telemóveis permitirem efectuar acções
71 No mesmo estudo, são observadas diferenças entre género e faixa etária dos inquiridos. Ao nível do
primeiro aspecto, cerca de 92% das raparigas afirma utilizar o telemóvel para mandar SMS, ao passo que no caso dos rapazes esse valor é de 86% (Cardoso et al, 2009: 104).
149 quotidianas de forma mais espontânea, conjugando-se esta possibilidade com eventuais entraves de ordem financeira (custo das SMS e chamadas), o que forçaria uma economia de palavras e significantes. Assiste-se ainda a uma necessidade instantânea de comunicação e actualização (Stald, 2008: 150), em paralelo com os ritmos acelerados dos quotidianos juvenis e também uma grande facilidade de acesso a informação.
Uma característica importante do uso do telemóvel é o facto de ser possível estar-se disponível e contactável de forma perpétua (Stald, 2008: 151). Neste sentido, a comunicação móvel é diferente das outras formas de comunicação (Ling, 2008: 3). Estudos como o de Stald (2008), debruçando-se especificamente sobre a relação dos jovens com a comunicação móvel – e contando com o testemunho de entrevistados para o efeito – relatam o stress que ocorre quando o telemóvel não está disponível e, mais frequentemente, o cuidado extremo para não se perder uma qualquer mensagem ou chamada telefónica (Stald, 2008: 151-153). Existe uma espécie de “lealdade de contacto” e o medo de não se cumprirem, de forma urgente, as promessas feitas aos amigos – que estão permanentemente contactáveis (idem: 153).
Numa sociedade onde a concorrência de estímulos facilitada por uma diversidade crescente de tecnologias é significativa, a questão da atenção constitui, à semelhança do que foi abordado no capítulo anterior, um elemento importante para se analisarem as práticas e dinâmicas de acção.
Cardoso et al (2009) propõem três níveis de análise da atenção dada às tarefas quotidianas por forma a dar conta da distribuição da atenção nas actividades quotidianas dos jovens entrevistados. A “atenção focada” – dedicação a uma só tarefa; a “atenção difusa” – quando em modo multitarefa; e a “atenção intermitente” – quando o foco da atenção varia entre tarefas diferentes (idem: 180). As duas últimas formas de atenção dada a uma determinada prática ou pensamento estão claramente associadas ao multitasking, um modo de lidar com as tarefas que se torna especialmente adequado num quotidiano recheado de informação, nas suas mais diversas formas. Esta abordagem vai ao encontro da distinção, feita por Hall, entre monocronia e policronia. Nesta última, o foco da atenção recai sobre o indivíduo, na realização do compromisso, mais do que na primeira, onde a adesão a um horário preestabelecido é prioritário na acção (1996: 57).
É oportuno referir que, a par dos ritmos e temporalidades emergentes, as consequências de uma mudança nas formas de comunicar e aceder ao conhecimento se estendem aos domínios
150 do conhecimento, da busca de informação e da aprendizagem, nomeadamente através de formas emergentes de literacia e que têm, aliás como se viu, implicações na reestruturação dos currículos escolares.
Jewitt defende que os meios através dos quais algo é representado moldam, tanto o que pode ser aprendido, quanto o como pode ser aprendido (2008: 241). Defende-se, ainda, que é cada vez mais improvável pensar a literacia como um processo isolado de uma vasta teia de factores sociais, tecnológicos e económicos (Kress, 2003). O modelo de multiliteracias ou de literacias multimodais (Jewitt e Kress, 2003) surge como uma possível resposta aos desafios em torno da conceptualização dos processos em questão. Para os seus proponentes, o modelo evidencia dois tipos de mudança interligados no âmbito do processo comunicacional: a crescente importância da diversidade cultural e linguística no âmbito de uma economia global e a complexidade dos textos articulados com formas multimodais de representação e comunicação (Jewitt, 2008: 245).
Apesar das imensas novas potencialidades e oportunidades que possam advir deste modelo, o espectro da atenção é limitado em termos do seu alcance, tornando-se vulnerável a lógicas concorrentes, verificando-se, frequentemente, inflexões nas dinâmicas comunicacionais e normativas. De facto, a introdução da comunicação móvel em praticamente todos os momentos da vida quotidiana redefiniu as noções de tempo e espaço na gestão das agendas pessoais de cada um, arrastando consigo os timings inerentes à conduta e apetrechos de cortesia próprios da interacção – outro aspecto que acaba ficar vulnerável às transformações emergentes.
Autores como Ling, chamam a atenção para o facto de o telemóvel interromper o fluxo normal de interacção em co-presença (2008: 21). Muitos adolescentes estão constantemente a ser interrompidos nas suas situações privadas e em espaços públicos (Stald, 2008: 153). A interrupção abrange conversas com amigos ou família, tomando o telemóvel, quase sempre, a precedência na acção. O presente estudo recolheu testemunhos que vão ao encontro desta realidade. Os jovens entrevistados reconheceram com muita clareza a presença desses momentos nos seus quotidianos e em vários quadros de interacção. Tanto nas relações familiares, como nas de amizade, a interrupção (in)esperada do rumo da acção é tida como frequente e, muitas vezes, problemática, já que interfere com hábitos e rituais pré-estabelecidos (ver caixa 5.3).