4. Diskusjon
4.4. Betydning av resultatene
Entregamos para as alunas professoras um pequeno trecho do livro Pedagogia da Autonomia “quem ensina aprende ao ensinar e quem aprende ensina ao aprender” (FREIRE, 1996, p. 25), que é o nosso marco inicial, e também compartilhamos algumas questões desta tese: Como se dá a relação entre a
39 Donald Shön (1987) defende a idéia da formação de professores reflexivos através da
estratégia de análise de situações homólogas (play in a hall of mirrors), ou seja aquelas situações semelhantes as quais ele enfrentará na prática.
docência [ensino] e a discência [aprendizagem] no processo de sua formação pessoal como professora? Quando a pessoa da aluna e a pessoa da professora se fundem? Uma de nossas entrevistadas, quando leu a frase, nos disse: “Nossa, eu já li esta frase tantas vezes, mas nunca parei para pensar nisso...”.
As respostas não vieram de imediato, a surpresa diante da pergunta conduziu nossas inquiridas a uma espécie de negação ao falar deste “si mesmo”, a um lugar de não “poder dizer-se”, ao espelho que interroga “quem sou eu?”. Essas reflexões também fazem ressonância com as palavras de Arroyo (2000, p.28): “Como tirar a máscara da professora e do professor quando termina o espetáculo da docência. A máscara virou modo de ser? Personalidade?”.
Eu sou professora o tempo todo, em casa, no ônibus, na fila do banco... uma vez um rapaz me disse logo de cara na fila do banco: “ A senhora é professora!” A Marina professora, a Marina aluna e a Marina pessoa nunca se separam; Acho que nem quando eu morrer elas vão se separar, porque acredito que as pessoas vão se lembrar de mim como professora. Sempre me pego aprendendo com os alunos; quando eu era professora na Educação Infantil, dei uma folha com uma nuvem desenhada para os alunos colarem palitos de fósforo com as cabeças do palito apontando para o chão, como se fosse pingos de chuva; um menino colou todos os palitos virados para a nuvem, então perguntei para ele porque ele tinha colado os palitos assim e ele me disse: “Professora, para chover tem que ir água lá pra cima”. Eu e a minha santa ignorância, não é que o menino sabe mais do que eu? Quase todos os dias aprendendo uma coisa nova com eles [referindo-se aos alunos], não é que os alunos sabem mais do que eu, eles sabem, mas o conhecimento deles precisa ser – sistematizado – essa palavra chique aprendi aqui no curso. Ser professora é isso, aprender sempre. Professora Marina
Eu levo a Gisele para dentro da escola, lembro-me de quando eu era pequena e que minha família não tinha dinheiro para comprar os brinquedos da época, então minha mãe ficava lavando roupas e improvisava uma “cabaninha” com lençol para que eu pudesse brincar, lembro-me dela cantando, ela cantava muito, cantigas de roda e toda vez que faço essas coisas na escola eu me lembro da minha infância. Minhas lembranças são muito sensoriais, eu sinto, sinto o cheiro, ouço alguma música e aquilo me remete à infância. Eu vejo que os meus alunos gostam desta atitude, tem momentos do semestre que você não pode se dar ao luxo de brincar com os alunos, você tem aquela papelada toda para fazer, então você tem que deixar os alunos brincando e escrever...
Nesses momentos os alunos ficam me chamando: Gisele vem brincar com a gente! Vejo que os alunos sentem falta. Sou uma professora muito detalhista, muito caprichosa, eu tive professoras que também eram assim. Quando não dá tempo de fazer o trabalho na escola, acabo levando serviço para casa, perco finais de semana, deixo às vezes de sair. Acho que a maior dificuldade que tenho hoje é conciliar todas as atividades que tenho aqui no curso com as atividades que faço na escola. Aqui no curso você não tem a opção de cursar algumas disciplinas, então você é obrigado a cursar tudo, acaba não sobrando tempo para todos os planejamentos que a gente pensa em fazer. Eu poderia fazer muito mais, mas aqui a gente tem muita coisa para ler. Professora
Gisele.
Eu acho que está tudo junto; Uma única Claudia. A todo o momento eu estou ensinando, e a todo o momento eu estou aprendendo. Como aluna, eu estou sempre absorvendo aquilo que vai me servir naquele momento. Como professora, eu estou ensinando e também estou aprendendo, porque cada turma é uma turma. A cada ano que passa, as turmas são mais diferentes, apesar de a idade dos alunos ser a mesma; O desenvolvimento das turmas é completamente diferente. Eu estou aprendendo com eles ao mesmo tempo em que estou ensinando a eles alguma coisa. Às vezes tem coisas que eu fiz com a minha turma de 2007, que se eu for fazer numa outra turma agora, não vai ter o mesmo desenvolvimento. Eu acho que essa ligação (entre a aluna e a professora) é simultânea; ao mesmo tempo em que você está aprendendo, você está passando um conhecimento, tanto como aluna, como professora, como colega (de quem a gente também pega muita coisa). Eu me vejo assim, num aprendizado constante. Tem pouco tempo que eu passei por um aprendizado com eles [referindo-se aos alunos] na área de informática. Eu pensei: "Olha como a gente aprende com todo mundo”. Professora Cláudia. Eu acho que eu, Cláudia, acabo sendo professora no meu dia a dia. Acho que isso incorpora em nós, e tudo o que eu quero fazer, eu faço com mais cuidado, mais atenção, e acho também que por eu ser professora e estar nessa prática de tentar levar e elevar o conhecimento e talvez trazer uma mudança na vida do outro, eu, Cláudia, também sou assim; Quando eu estou no âmbito familiar, quando eu converso, estou sempre impondo alguma coisa. Acho que o meu eu profissional nunca sai de dentro de mim, mesmo no informal, quando eu converso com os meus filhos e com a minha família; eu acabo levando aquele ser professora, no dia a dia, Quando eu estou explicando alguma coisa pra eles, falando, eu não estou falando de qualquer jeito, eu estou sempre levando a eles o aprendizado. A Cláudia e a Cláudia professora são mútuas, elas não se separam. Professora Cláudia.
As narrativas das alunas-professoras nos permitem captar o modo como cada uma delas trans-forma, re-forma, dá forma e con-forma suas experiências, mobilizando seus valores, seus saberes e seus conhecimentos, dando novos contornos à sua identidade num diálogo constante com seus contextos. Essas identidades em construção, de certa forma, se aproximam das noções de inacabamento e inconclusão descritas por Freire, que denunciam a nossa presença no mundo. É nesta trama de fios de memórias, silêncios, esquecimentos, lembranças e reflexões que vamos nos encontrando, nos (re)conhecendo, nos (re)fazendo e ao final descobrimos o que somos: “Somos nossa memória, somos esse quimérico museu de formas inconstantes, essa pilha de espelhos rotos.” (BORGES, 2000, p.12)