• No results found

2.1 Arbeidskapital

2.2.2 Betalingsbetingelser

1.3.1. Os ortógrafos: Duarte Nunes de Leão e Pero Magalhães de Gândavo

Duarte Nunes de Leão8 e Pero Magalhães de Gândavo9 foram os primeiros

ortógrafos a estudar a ortografia da Língua Portuguesa. O primeiro escreveu curiosos tratados, tais como: Origem da Língua Portuguesa, Ortografia da Língua

Portuguesa, primeira Parte das Crônicas dos Reis de Portugal, dentre outros. A

obra de maior destaque de Duarte Nunes foi a Ortografia da Língua Portuguesa

8De origem judaica, nasceu em Évora, por volta de 1530, filho de João Nunes, médico hebreu. Foi

jurista, linguista e historiador. Faleceu em Lisboa, em 1608. Em 1606 publicou Origem da língua

portuguesa. Sabe-se ainda da existência de outros escritos, nomeadamente nos domínios da

lexicologia, da etimologia que, contudo, se perderam.

9Foium historiador e cronista português. Nasceu em Braga em data incerta, provavelmente por volta

de 1540. Foi professor de latim e Português nonorte de Portugal. Morreu em Portugal em local incerto.

(1576), considerado um dos mais famosos tratados e de fundamental importância ao estudo de outras línguas. Ele foi o fundador dos estudos ortográficos, tendo, por isso, exercido uma grande influência para alguns tratados posteriores que geralmente citavam sua obra com certa frequência. Nela pode-se resolver dúvidas teóricas ou casos particulares de grafia de certas palavras.

O segundo, Pero Magalhães de Gândavo, também escreveu seus tratados, tais como o famoso livro História da Província de Santa Cruz, o que foi chamado de “Brasil”. Nele, o ortógrafo aborda vários assuntos como a flora e a fauna, a descoberta do Brasil, os primórdios da colonização, assuntos que propagavam o clima, as riquezas e a possibilidade de os portugueses enriquecerem nas terras recém descobertas. O historiador, gramático e cronista português do século XVI é autor do primeiro Manual Ortográfico da Língua Portuguesa. Após trabalhar na transcrição de documentos na Torre do Tombo, em Lisboa, é nomeado provedor da fazenda na Bahia, onde permaneceu de 1565 a 1570. (BUESCU, 1978).

1.3.2 Os Gramáticos: Fernão de Oliveira e João de Barros

No que se refere à Língua Portuguesa, tem-se como destaque o gramático Fernão de Oliveira, com sua ilustre obra Gramática da Linguagem Portuguesa (1536).O autor, cavaleiro andante que, antes de mais ninguém e com alta perícia, terçou armas por amor à Língua Portuguesa e dentro desse meio de escritos, surgiu, dos prelos, em 27 de janeiro de 1536 aedição de sua Grammatica da Lingoagem

Portuguesa.

A pequena obra, tal como pode ser lida na sua apresentação, dividida em 50 capítulos, foi dirigida e dedicada ao Mui Magnífico Senhor D. Fernando de Almada, por quem Fernão de Oliveira nutria profundo apreço devido a sua prudência, nobreza e seu interesse por bons livros. Iniciando seu preâmbulo, ao solicitar a atenção do Senhor, o autor fez considerações sobre seus impasses em oferecer-lhe a obra, demarcando a hierarquia presente na sociedade de seu tempo. Dirigindo-se a um homem nobre e de letras, Fernão de Oliveira esclareceu seu objetivo em apresentar-lhe a sua Grammatica da Lingoagem portuguesa:

[...] a notação em algumas coisas do falar português na qual ou nas quais eu não presumo ensinar aos que mais sabem, mas notarei o seu bom costume para que outros muitos aprendam e saibam quanto prima é a natureza dos nossos homens porque ela por sua vontade busca e tem de seu a perfeição da arte que outras nações adquirem com muito trabalho e nestas coisas se acabará esta primeira anotação em dizer não tudo, mas apontar algumas partes necessárias da ortografia, acento, etimologia e analogia de nossa linguagem em comum e particularizado nada de cada dicção, porque isto ficará para outro tempo e obra. E, porém, agora primeiro diremos que coisa é linguagem e da nossa, como é principal entre muitas. O que peço a sua mercê ouça com muita atenção e vontade porque nisso favorecerá o partido de meu trabalho. (OLIVEIRA,1975, p. 38).

Ilustra-se a capa da gramática de Fernão de Oliveira

Figura 1.7 - Capa da Primeira Edição da Gramática

Fonte: Imagens do arquivo pessoal do Professor Cagliari (FERNÃO DE OLIVEIRA, 1536).

Ao estabelecer a Gramática como uma primeira anotação da linguagem portuguesa, o autor demarcou o caráter de sua obra: apontamentos, registros e comentários sobre a linguagem portuguesa.

Naquela época, a ortografia já conquistara uma relativa importância no âmbito dos estudos gramaticais. Em Portugal, Fernão de Oliveira, por meio de sua obra, realiza uma tentativa de forma e unificação da grafia vernácula. A primeira parte de sua gramática está dividida em três itens – letras, sílabas e vozes – o autor

já manifesta considerações acerca de natureza fonética-fonológica, buscando refinar sua definição na exposição de cada um desses componentes gramaticais.

Esse gramático afirma que letra é a figura10 da voz e está dividida em

consoantes e vogais. As vogais têm em si voz, e as consoantes não, senão junto com as vogais. Embora Fernão de Oliveira não seja claro no que considera voz, pode-se inferir por suas observações tratar-se da unidade sonora, da competência acústica das letras, no sentido saussureano e, portanto mais abstrato, de imagem acústica.Para este autor “sílaba é uma só voz, formada com letra ou letras, a qual pode significar por si ou ser parte de dicção, assim as vogais, ainda que sejam em ditongo, podem fazer sílaba sem outra ajuda, e as consoantes não, senão juntas com as vogais”. (OLIVEIRA, 1975, p. 46). Novamente, ressalta na concepção de sílaba o caráter abstrato do conceito de voz, o qual possuiria, de acordo com sua exposição, uma mesma imagem acústica para duas ou mais letras. Voz e letra juntam-se, por fim, para formar a linguagem, figurada, segundo Fernão de Oliveira, pelo entendimento. (OLIVEIRA, 1975).

Para o gramático lusitano, nosso alfabeto é composto de 33 letras, entre vogais e consoantes: “no nosso a b c há aí trinta e três letras, todas nossas e necessárias para nossa língua, das quais oito são vogais [...] E vinte e quatro consoantes”. (OLIVEIRA, 1975, p. 48).

Na Grammatica da Lingoagem Portuguesa, 1536, de Fernão de Oliveira, aponta que a voz comparece no texto escrito, por meio da oralidade e dos aspectos fonéticos da língua, demonstrando a identidade e as particularidades do povo pela estrutura melódica do falar. A partir dessa obra, de cunho inaugural dos estudos gramaticais sobre o português, outras reflexões e outros escritos foram desenvolvidos com o intuito de se pensar e fixar a língua portuguesa, já entendida como elemento de identidade nacional, como revela o trecho abaixo transcrito:

[...] Nisto consiste o saber ler, e mais que saber ler. E é verdade que, se não tivermos certa lei no pronunciar das letras, não pode haver certeza de preceitos nem arte na língua, e cada dia acharemos nela mudança, não somente no som da melodia, mas também nos significados das vozes, porque só mudar uma letra, um acento ou som, e mudar uma de vogal grande ou pequena ou de pequena a grande, e assim também de uma consoante dobrada em singela ou, ao contrário, de singela dobrada, faz ou desfaz muito no significado da língua. (OLIVEIRA: 1975, [1536], p. 52).

Fernão de Oliveira na sua gramática define a linguagem, discute a formação de palavras e se propõe a definir “gramática”. Apresenta as semelhanças e diferenças entre línguas, povos e vozes demonstrando que através das semelhanças entre as línguas, os povos e os conhecimentos, as diferenças comparecem e ao serem incorporadas, transformam-se em identidades. Segundo o autor, a sua gramática era uma primeira anotação da língua portuguesa. O objetivo primordial da publicação deste compêndio era perpetuar a memória da línguaportuguesa, porisso foi publicada em um período em que Portugal procurava afirmar a sua autonomia nacional, em relação às outras nações. Estava, assim, subjacente a intenção de passar para a escrita um sistema linguístico coeso, que caracteriza uma nação e um povo. (BUESCU, 1978).

Apesar de todo o estudo e dedicação da obra de Fernão de Oliveira, foi a gramática de João de Barros que recebeu o título de primeira gramática da língua, em sentido lato. Maria Leonor Buescu (1978, p. 53-54), em seu livro Gramáticos

Portugueses do século XVI acentua:

A obra de Oliveira é, efectivamente, um conjunto de curiosas e judiciosas reflexões, de tipo ensaístico. Em suma: uma miscelânea linguística e cultural. Inicia-se por uma parte preambular (ausente da gramática tipicamente escolar do seu sucessor), em que define a linguagem. “A linguagem é figurado entendimento”; e expende considerações, apoiado na autoridade dos filósofos antigos, sobre a formação das línguas. Seguem-se algumas páginas sobre “o modo de falar dos portugueses” e a formação do reino. Só depois de se referir à origem dos nomes de Lisboa, Lusitânia, Portugal, de fazer um breve resumo da história dos primeiros reinados, de tomar como exemplo a perdurabilidade da glória romana, devido à imposição da língua aos vencidos, se propõe definir gramática.

A Gramática de João de Barros, juntamente com o Diálogo em louvor de

nossa linguágem,foram editadas pela primeira vez por Luís Rodrigues, no ano de

1540, compondo-se de quatro partes: Ortografia, Prosódia, Etimologia e Sintaxe ou Construção. Nas duas primeiras, o autor enumera as letras, descreve as sílabas, a quantidade e os acentos. Na terceira parte, estabelece uma classificação das palavras, além de deter-se na análise das flexões nominal e verbal. Na quarta, de- dica-se ao estudo da sintaxe, definida como a conveniência entre as partes do discurso. E, após apresentar seus princípios de concordância e regência, inclui ainda mais dois capítulos: um que trata das figuras ou “espécies de barbarismos” e outro que retoma, de forma pormenorizada, a questão da ortografia. (Op. cit.).

No parágrafo onde se propõe a estudar as letras e o número delas -

Difinçám das lêteras e o número delas – o autor diz que o alfabeto português possui

vinte e três letras em poder e trinta e quatro em figura. A respeitodas expressões

letras em poder e letras em figuras Buescu (1978, p. 82) afirma que:

[...] “letras em poder” são aquelas que potenciam uma ou várias representações escritas e são, portanto, em número menor do que aquelas que atualizam (“letras em figura”) essas mesmas re presentações, isto é, a função da escrita. As “letras em poder” formam, pois, o alfabeto originário, ou, se quisermos, arquetípico ou formal, enquanto as “letras em figura” serão a realização desse alfabeto ideal.

Convém salientar que os trabalhos desses gramáticos merecem um destaque especial pelo fato de que os seus estudos sobre o sistema ortográfico procuraram particularizar a originalidade do português. Souza (2009, p. 37), estudiosa do assunto, afirma:

A língua é dinâmica. Fernão de Oliveira e João de Barros foram os primeiros a se debruçarem sobre a língua portuguesa como objeto passível de codificação e regras, de forma científica. Os seus trabalhos possuem grande valor como fontes de estudos para a descrição do português do século XVI. O papel que esses gramáticos exerceram no cenário português nada deixa a desejar aos demais gramáticos renascentistas das línguas vernáculas. Eles foram audaciosos ao tomarem para si a responsabilidade de projetar a Língua Portuguesa ao nível do latim, língua veicular da tradição e da cultura.

Em linhas gerais, o trabalho realizado pelos dois primeiros gramáticos não pode nem deve ser relegado ao esquecimento. Ambos, com objetivos e propostas bem definidas, foram capazes de traçar o percurso por onde se desenvolveu a história de nossas ideias gramaticais. Cada um, a seu modo, expôs uma doutrina que, sem alterações substanciais, resiste ao tempo e às críticas.