Falida a sociedade da bonecaria, JM regressa ao norte, passando a viver em Barcelos com a mulher, em casa do filho Tanitas, arquitecto da Câmara de Barcelos. Aí continua o seu envolvimento nas Belas Artes, contribuindo com o longo artigo “Saibam quantos...” para o catálogo da exposição de pintura, pastel e desenho de Alberto Ayres de Gouvêa (de que é um dos promotores) que tem lugar no Salão Silva Porto, no Porto, em Março de 1941. Elogiando o talento e a “arte inigualável” (MADUREIRA 1941: 26) do Artista de “altíssimo valor” (Ibidem: 29) – “Grande entre os Grandes da sua Terra e o Maior entre os Maiores que na nossa Terra têm trabalhado o Pastel” (Ibidem) – o crítico fundamenta, como sempre, as suas apreciações na observação minuciosa da obra.
Em 1945, António Luís Gomes (1898-1981), filho do prestigiado republicano com o mesmo nome e amigo de JM, ao assumir a presidência do Conselho Administrativo da Fundação da Casa de Bragança (cargo em que terá desempenhado uma importante acção administrativa e cultural) encomenda-lhe a inventariação das Obras de El-Rei D. Carlos no Paço de Vila Viçosa128, tarefa que “o amante das boas e belas artes”129 cumpre com gosto e competência, aplicando os seus conhecimentos de arte e a sua bela capacidade de organização130.
Pouco depois, em 1946, já com “setenta e tantos invernosos Fevereiros” (MADUREIRA 1948), Joaquim Madureira adoece com tuberculose e é internado em Coimbra, na clínica do Dr. Bissaya Barreto. Como entretanto a actividade política lhe tivesse consumido o tempo e o dinheiro e a jornalístico-literária pouco lhe rendesse131, para não falar da sua infeliz aventura empresarial, é a irmã, Antónia Maria Nunes Borges de Carvalho Madureira Bastos, pessoa abastada132, que lhe financia o internamento. Aí convive animadamente com o caricaturista Tossam e com o poeta António Aleixo. Apesar de inicialmente o médico se manifestar muito
128 Não datado. 129
Apropriando-me de expressão utilizada por Paulo Archer em conversa informal sobre o nosso comum objecto de estudo.
130 A associação à Casa de Bragança valer-lhe-ia algumas insinuações de incoerência - injustificadas, uma vez que a Fundação não se confunde com o sentimento monárquico, tendo sido criada, em 1933, após a morte de D. Manuel II, precisamente com o objectivo de evitar que os bens pessoais e patrimoniais do monarca deposto fossem repartidos pelos seus herdeiros (e, na prática, que a hipótese monárquica fosse ressuscitada), assim preservando intactas as colecções e património que legara à pátria, conforme as suas disposições testamentárias. Assim sendo, a Fundação nunca teve, claramente, nenhuma ligação ao ideário monárquico.
131
De acordo com depoimento do neto Manuel Nobre, dizia-se na família que JM tinha passado a vida a perder dinheiro, tendo ‗dado conta de três fortunas‘. Tendo nascido rico, nunca terá dado importância ao dinheiro, que foi surgindo na sua vida através da sua actividade profissional na imprensa e nos tribunais e, sobretudo, das heranças familiares.
47 honrado por ter como seu paciente uma figura tão considerada como Joaquim Madureira, ao fim de algum tempo é obrigado a convidá-lo a abandonar a sua clínica, por ter criado um ambiente de insubordinação entre os doentes. Tal acontece após JM se ter apercebido de que, graças ao seu estatuto e ao dinheiro pago pela irmã, beneficiava de um tratamento de primeiro escalão (havendo vários, consoante o pagamento efectuado). O desconforto causado por esta situação de privilégio em relação aos outros faz com que convença os internados em situação inferior a reivindicarem o que lhe parece da mais elementar justiça: direitos iguais para todos. Seria, pois, no sanatório do Caramulo, “desenterrado dos freirescos e espaventosos Covões Bissaicos, nos soidosos campos do Mondego” (Ibidem) que se trataria, sendo dado como curado cerca de um ano mais tarde – embora, na versão da sua filha Budita, ele nunca tenha estado tuberculoso, tendo alegado a necessidade de internamento por não ter para onde ir, numa altura em que estava às avessas com todos os elementos da família – o que não corresponde à verdade, como se pode comprovar através de carta datada de Janeiro de 1947, do Dr. Santos Silva, médico que o acompanhou133. Segundo o sobrinho-neto João Gonçalo do Amaral Cabral134, filho da sua irmã Antónia, que com ele conviveu de perto, terá feito parte da sua convalescença em casa de sua mãe, Maria da Luz, em Oliveira do Hospital – onde recebe inúmeras provas de afecto e consideração dos muitos amigos e admiradores que o animam a recuperar135.
Graças à generosidade e carinho da irmã, vive, em seguida, com a mulher, na pensão de Gonçalo Cristóvão, situada na rua com o mesmo nome, no Porto.
As ‘malfeitorias’ de toda uma irrequieta e impetuosa vida foram-lhe sendo retribuídas pelos muitos inimigos que ia multiplicando com a sua escrita incendiária, “com palavras parecendo pedradas”136. Marginalizado, em “crónico pousio”, “posto à margem”, qual “vero malfeitor” (MADUREIRA 1930: dedicatória), o temido crítico, que assinava textos em relevantes jornais e revistas, o autor enérgico e fecundo, de prosa enfeitiçada, a personalidade cativante e extravagante que animava tertúlias, confessa no último texto publicado (1949)137 que custeara o mesmo “por sua conta e risco”- “para não ter de pedir, com bons modos e bons empenhos, com falas doces e chapéu na mão, aos Mandarins e Mandões da Imprensa [...] um cantinho de
133 Ilustração 46.
134
Actualmente Presidente do Conselho Administrativo da Fundação da Casa de Bragança. 135 Cf. Ilustrações 45, 46 e 47.
136 Cf. www.vinculadosaobarreiro.com. 137
Vero e devoto milagre de Santa Eva Todor, cheia de graça e de talento: Porto, Imprensa Portuguesa, 1949.
48 suas conspícuas folhas – onde nem pintado me querem e nem de graça me aturam” (MADUREIRA 1948).
A dada altura da sua atribulada e vigorosa vida138 terá feito uma amargurada confissão em forma de balanço ao padre Francisco Pippan, amigo da família, que terá, segundo o neto António, ficado muito sensibilizado com o relato. Apesar do seu anticlericalismo muitas vezes alardeado, contava com vários amigos ligados ao sacerdócio, como o padre Santos Farinha, já referido, e D. António Ferreira Gomes, Bispo do Porto, natural de Milhundos. Pouco antes de morrer solicitou ao Bispo que o visitasse e nessa altura, pressionado pela mulher e pela filha (segundo recorda Manuel) pediu-lhe os últimos sacramentos. Mais tarde, quando um dos seus amigos manifesta à família o interesse em escrever a sua biografia, a filha Budita impõe-lhe como condição a divulgação deste facto – o que não foi aceite, pelo que a biografia não chega a concretizar-se.
Joaquim Madureira morre em 18 de Setembro de 1954139, com 80 anos de idade, no Hospital da Ordem Terceira da Trindade, no Porto, onde se recolhera dois anos antes140. Tal como previra, parte “morto de velho e de pobre, sem emenda e sem camisa, por dizer o que penso e pagar o que devo” (MADUREIRA 1948). Descansa para sempre em Leça da Palmeira, numa simples e bonita campa desenhada pelo filho Tanitas141, arquitecto, onde, sobre as letras J.M. se vê a reprodução em gesso do tondo do escultor Costa Mota datado de 1919142. Nas suas disposições testamentárias impusera que deveria ser enterrado com o que vestia na altura da morte, por isso parte de pijama, sua indumentária preferida, com que muitas vezes recebia em sua casa quem quer que lá fosse143. De acordo com as mesmas disposições, ficaram proibidos o velório, o acompanhamento ao cemitério e o luto (manifestações supremas da hipocrisia, que tanto odiava). Segundo se noticiou por altura da sua morte, Braz Burity, tão cansado de pugnas e tão ansioso de solidão, nem funeral quis ter: opôs o silêncio do momento da sua morte, bem como dos últimos anos da sua vida, à sua ruidosa presença na vida política e artística do País.
138 Em data que António não conseguiu precisar, mas que pensamos poderá ter coincidido com o período em que se afastou da ‗família do Porto‘, vivendo em casa do filho Frederico.
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Ilustração 16. 140 Ilustração 34, 141 Ilustração 35. 142 Ilustração 5.
143 Segundo depoimento de Maria Luísa Covacich, sobrinha-neta de Bibi, que visitava os tios com frequência enquanto eles viveram no Barreiro (final da década de 30). Embora fosse ainda uma criança, recorda-o vivamente, como ―pessoa sui generis, muito informal, superiormente culto e inteligente, avesso a preconceitos, com uma personalidade muito forte, controversa‖, que a fascinava. Lembra-se de que fumava muito e usava os cabelos encaracolados, já então grisalhos, longos, emoldurando-lhe o rosto muito vincado.
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