O monge boticário foi uma figura que se foi modificando ao longo dos tempos. Apesar de múltiplas proibições no que respeita à prática da medicina e farmácia, certo é que os monges sempre as exerceram. Ainda no século XVII, em 1678, o Papa Inocêncio XI proibia ao clero regular o exercício da farmácia, salvo raras excepções, como para benefício dos religiosos e assistência aos pobres, mas em que os medicamentos deviam ser preparados sem interesses lucrativos, apenas ao jeito de caridade, cobrando apenas o valor real do medicamento. Em Portugal, nos séculos XVII e XVIII, quase todas as casas da Ordem Beniditina tinham a sua farmácia e enfermaria, continuando a preparar e a vender ao público, situação que se manteve até à extinção das Ordens no século XIX.
O futuro monge boticário iniciava a sua formação como qualquer outro monge. Primeiramente, submetia-se ao processo de admissão e entrada no noviciado, segundo os regulamentos da Ordem Beniditina. Este processo iniciava-se com um minucioso inquérito levado a cabo por dois monges, designados pelo Abade Geral, na zona de residência do candidato: consistia numa averiguação, junto de familiares e vizinhos, da pureza de sangue do candidato, da sua educação e do seu perfil como cristão; deveria ainda ter idade inferior a quinze anos e ser filho legítimo64, mas sempre ser possuidor de um carácter virtuoso e digno. Ultrapassada esta etapa, o
seu nome era registado no Livro das Profissões que, segundo as Constituições, era obrigatório haver em todas as instituições que recebessem os noviços. Numa segunda etapa, e após admissão ao noviciado, os pretendentes encetavam um longo caminho de minuciosa preparação intelectual e espiritual, aprendendo a Regra de São Bento e as Constituições. Os “habiles” tomavam finalmente o „Santo Hábito‟, iniciando assim a sua vida na comunidade. Durante os anos subsequentes faziam a sua caminhada naquilo que deveria ser uma vida dedicada ao trabalho, ao estudo, à meditação e à devoção ao próximo; primeiramente tomavam as ordens menores65,
ascendendo depois a sub-diácono, e a diácono (do grego diákonos, servidor). Alcançado este limiar, por volta dos vinte e cinco anos de idade, e após envergarem o hábito durante sete anos,
64 A respeito do perfil exigido ao candidato a boticário do convento consultar o estudo elaborado por Miguel Afonso, As Boticas da Congregação de
São Bento de Portugal, Porto, 1991 (inédito), doc. Nº25 e nº26
65 Ordens maiores compreendiam: bispos, incumbidos do governo pastoral “munus regendi”; presbíteros (sacerdotes, padres), incumbidos do culto
divino “munus liturgium”; diáconos encarregados dos ensinamentos”munus docendi”. As ordens menores incluíam: ostiário, leitor, exorcista, acólito.
eram examinados pelos clérigos do convento podendo então ser ordenados sacerdotes (do latim sacer-facere), os mediadores entre o Homem e Deus66.
O futuro monge boticário, para além deste percurso comum aos outros monges, era enviado para junto de um mestre boticário da Congregação, que exercesse funções nessa ou noutra instituição da Ordem, e que apresentasse condições para levar a cabo a sua formação. No caso de Tibães, por exemplo, não se encontram registos de aprendizes (o que por si só não é garante de não terem existido, pois muita documentação se extraviou, não tendo chegado aos nossos dias) e provavelmente não funcionou como escola prática de boticário, ao contrário de outros mosteiros, como o de Refojos de Basto, com seis boticários e quatro praticantes entre 1743 e 1822; o de Cucujães, que a partir de 1761 contava com seis boticários e dez praticantes; ou o mosteiro de Santo Tirso com, entre 1752 e 1822, oito boticários e dezasseis praticantes. Estes números vêm registados na Lista de Conventuais de cada mosteiro, e permitem, de certa forma, entender a projecção que cada uma destas boticas teve, na época, como escola de boticários conventuais.67 Ainda relativamente ao Mosteiro de Tibães, embora no que diz respeito à formação
de boticários o seu papel não tenha assumido qualquer relevo, importa destacar que, na qualidade de mosteiro central da Congregação de São Bento de Portugal, foi o local onde se obrou o principal noviciado, conjuntamente com os noviciados de Lisboa, Porto e, pontualmente, Santo Tirso e Rendufe.
A rotina do monge boticário assemelhava-se à dos restantes monges da Ordem beneditina: seis a oito horas de sono, igual número de horas de trabalho na botica, quatro horas para a reza comunitária e mais ou menos o mesmo número para pregação individual e leitura. Obviamente integrados na disciplina comunitária, o seu tempo na botica dividia-se sobretudo entre a preparação dos medicamentos e sua administração aos enfermos, cultivo e recolecção de plantas medicinais, bem como à cópia de manuscritos. Os boticários tinham ainda obrigação de saber latim, e, em português e latim, conhecer os nomes dos produtos usados na preparação dos medicamentos, simplíces e compostos, fossem de origem animal, vegetal ou mineral.
66 A respeito das exigências e regulamentos para admissão de novos membros no convento, consultar Margarida Durães in Cadernos do Noroeste,
série Hirtória 3 ou repositorium. sdum. Uminho. Pt/bitstream/1822/2687/1/CNHistória 3. pdf
67 Sobre este assunto consultar Miguel Afonso, As Boticas da Congregação de São Bento de Portugal, Porto, 1991, (inédito), p. 26, 60, 101.
*Este sistema de classificação dos medicamentos deve-se a Galeno, os simples tinham só uma qualidade, os compostos, mais do que uma qualidade, e havia ainda um terceiro grupo, os que tinham uma acção específica, como laxantes, eméticos ou diuréticos.